‘A Máquina do Ódio’ e ataques a jornalistas mulheres: a violência como padrão no trabalho

Imagens: A jornalista Patrícia Campos Mello ao lado esquerdo e o ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado direito. A ‘Máquina do Ódio’ do político foi intensamente movida contra a escritora. Foto: Wikimedia Commons. 

Ao observar – e vivenciar na própria pele –  a perversidade e falta de respeito com o trabalho jornalístico dentro das redes de desinformação, Patrícia Campos Mello descreve em “A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital” as violências sofridas nos últimos tempos dentro de seu trabalho. Pata, como é conhecida por alguns, é paulista, tem 48 anos e é também jornalista de formação pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Business and Economic Reporting pela Universidade de Nova York (NYU) – curso de teor jornalístico que tem como objetivo analisar e interpretar questões econômicas.

Ela já foi enviada especial em diversos episódios em áreas de guerra, ataques e refugiados como Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Quênia, Síria, Serra Leoa e Turquia, é conhecida justamente por seu trabalho na cobertura de conflitos pelo mundo. No entanto, a principal guerra apresentada por aqui é no ambiente digital.  

Desde as eleições de 2018, ela ganhou notoriedade por conta de uma matéria que publicou sobre a suposta prática de crimes eleitorais na campanha do então candidato Jair Bolsonaro. Sua publicação, na verdade, foi somente o início do pesadelo, pois na CPMI das Fake News, no mesmo ano, o escândalo se consolidou quando Hans River do Rio Nascimento, fonte da reportagem de Pata, alegou que ela teria tentado obter informações com ele em troca de sexo. Seu rosto foi espalhado pelas redes sociais e destilado tamanho ódio que foi preciso contratar um segurança particular para acompanhá-la. Eram constantes as ameaças não só a ela mas também a sua família. 

A reportagem de Patrícia, que era sobre o financiamento e disparos em massa de fake news, e as fontes eram confidenciais – por motivos óbvios, certo? Quem falaria de financiamento ilegal de campanha em plena campanha? Mas, infortunadamente, a fonte, ex-funcionário de uma empresa especializada em marketing digital e envio em massa de mensagens para usuários via Whatsapp, alegou em seu depoimento que a jornalista teria se insinuado sexualmente para obter informações e forjar publicações. 

Infelizmente, o drama vivenciado por Patrícia não seria o primeiro e muito menos o último no cenário desse momento, ele cresceu e se transformou no que pode-se chamar de “modus operandi bolsonarista”. O processo pelo qual a democracia brasileira passou – e está passando – abriu as “tampas do esgoto” e deu voz para personagens e mensagens ultraconservadoras, misóginas e perturbadoras. No caso dela houve um episódio no qual descobriram que ela iria mediar uma reunião, divulgaram o local e horário e grupos contrários foram ao seu encontro para confrontá-la. Com isso, constata-se que o perigo ultrapassa os âmbitos digitais e toma também a vida real.

Legenda: Na plataforma do Twitter ataques como esse são comuns todos os dias, mas, sobretudo durante o período eleitoral, como demonstrado acima. Imagem: Reprodução/Twitter.

O acontecimento que gerou o início dos ataques contra a Pata, sobre a política, também pode ser observado para além do Brasil, nos quais a imprensa não foi respeitada, como na Índia, onde a jornalista Rana Ayyub sofreu linchamento sexual on-line após uma sequência de notícias publicadas por ela sobre o Massacre Gujarat que aconteceu em 2002. Ela realizou uma série de reportagens sobre o assunto e a pauta gera dor de cabeça até os dias atuais. Assim como citado por Patrícia, esse tipo de ataque não é esquecido e, pelo contrário, fica sempre sendo alimentado em um ciclo vicioso. As chamadas “milícias digitais” são responsáveis por darem continuidade para essa técnica de disparos e formação de opiniões com fins eleitorais e/ou financeiros.

Bom, voltemos ao Brasil e o caso de Pata, logo após o massacre digital sofrido por ela, uma declaração difícil de esquecer foi dada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro: “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”. Bom, não parou por aí e aqui temos um pequeno compilado de frases ditas por ele: 

Sete vezes em que Bolsonaro atacou jornalistas mulheres 

Todas essas situações ganham um sentido muito mais sério e criminoso a partir do momento em que ataques, insultos e mesmo agressão física são refletidos dentro de uma perspectiva de gênero, que, para Judith Butler, em “Sujeitos do sexo/gênero/desejo”, primeiro capítulo de Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade (2003), é uma categoria constituída culturalmente, em que “uma prática reguladora que busca uniformizar a identidade do gênero por via da heterossexualidade compulsória”. 

Uma vez que mulheres “desrespeitam” essas classificações, sendo vistas como agentes de mudança na sociedade e implicando na vivência masculina, elas são punidas, assim como observamos com Patrícia e tantas outras jornalistas nos últimos tempos. Ocorrendo inúmeras situações em que torna-se plausível criticar sua aparência física, sua família, ferir sua dignidade com montagens de vídeos pornográficos e tantas outras formas de violência, ao invés de criticar uma profissional por seu trabalho, apontando erros e argumentando de forma plausível. 

Jair Bolsonaro não foi o primeiro, apesar de fazer isso há anos, e nem será o último. No entanto, suas atitudes não estão impunes e o ex-presidente está sendo julgado – e condenado – por diversas violências cometidas não só com Pata mas também outras profissionais. Espera-se que atos como esses sejam devidamente punidos e não retornem a acontecer, ainda mais com pessoas tão notórias quanto um presidente da república. 

Separamos um levantamento feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) em 2022: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2023/01/FENAJ-Relat%C3%B3rio-2022.pdf 

Além disso, para dialogar com a perspectiva de gênero, separamos um estudo realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) sobre violências de gênero: https://violenciagenerojornalismo.org.br/ 

Serviço: 

Título do livro: A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital

Autora: Patrícia Campos Mello

Editora: Companhia das Letras 

Minha classificação: Contém violência de gênero e episódios de descrição dessas violências. Além disso, contém representações negativas das mulheres. A leitura não é indicada para jovens menores de 18 anos. 

Por Lia Junqueira.

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