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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • É comum sentir medo de ir numa consulta médica?

    Você já escutou aquela máxima de que “se endometriose ou Síndrome dos Ovários Policísticos (ou SOP) afetasse os homens cis, a medicina já teria encontrado uma cura”? Pode parecer exagero, levando em conta a complexidade dessas questões e as diferentes formas de manifestação delas em cada corpo. Porém, se voltarmos ao princípio da medicina, campo liderado por homens (geralmente brancos, cis e héteros), é possível identificar pistas de porque avanços voltados para mulheres (cis e trans) são mais custosos, cenário que piora no caso de mulheres negras. 

    Captura de tela de uma discussão sobre a falta de avanços em exames ginecológicos e em estudos sobre endometriose e Síndrome do Ovário Policístico, que afetam o útero. Comentários como esses são frequentes nas redes sociais. Imagem: captura de tela do X (Twitter)

    Façamos o exercício de retornar ao início da ginecologia (aquela considerada “oficial”, já que partos e saúde reprodutiva já eram cuidados a partir de um conjunto de saberes tradicionais), quando James Marion Sims – que recebe o infame título de “pai da ginecologia moderna” – investigava, violentava e realizava procedimentos sem anestesia nos corpos de mulheres negras escravizadas nos Estados Unidos. Além de explorar a anatomia e o que chamava de “doenças de mulheres”, o médico estava interessado em manter a saúde reprodutiva delas, uma vez que o tráfico transatlântico de pessoas estava proibido desde 1807 – os relatos são de 1845 – e “os ventres das mulheres negras eram o eixo da escravidão”. 

    O corpo que gera é instrumento de disputa há muitos séculos, pensando na procriação e manutenção de famílias, dinheiro e poder (como identifica Gayle Rubin em 1993, no que a autora vai chamar de “troca de mulheres” para construir alianças, numa estrutura heteronormativa). Diante disso, a área da saúde representa campo de conflito, à medida que mais mulheres e pessoas com útero têm acesso à informação e questionam métodos ultrapassados, práticas errôneas e exigem mudanças.

    Por esses motivos, no dia 28 de maio é celebrado o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, que foram instituídos para dar visibilidade à magnitude das mortes maternas e promover ações políticas que previnam óbitos evitáveis, que representam entre 40% a 50% dos casos. Originadas de encontros internacionais na década de 80, essas datas visam conscientizar a sociedade sobre doenças específicas da população feminina – como câncer de mama e de colo do útero – e combater a violação sistemática de direitos sexuais e reprodutivos, especialmente em contextos de crise nos quais o acesso a serviços essenciais é ameaçado. 

    No Brasil, a mobilização reforça a necessidade de aprimorar a assistência pré-natal e especializada para reduzir indicadores de mortalidade que ainda refletem falhas no sistema de saúde e desigualdades socioeconômicas e raciais. Como destaca Denise Oliveira, pesquisadora em saúde na Fiocruz Brasília e uma das formuladoras da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, os óbitos de gestantes por hipertensão aumentaram 5% entre mulheres pretas e pardas no período de 2010 até 2020, enquanto nos demais grupos houve queda. 

    Além disso, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEM) de 2025, as mulheres negras são as que mais deixam a escola por conta da gravidez (24,7%), denotando a importância da educação sexual, do planejamento familiar e do acesso a esses serviços. Dessa forma, é preciso reconhecer que o racismo faz mal à saúde, reproduz violências, mata e que, como evidenciado pelos dados, a saúde – idealmente direito de todas as pessoas – não é acessada plenamente por conta de entraves políticos e sociais. 

    Longe de serem apenas estatísticas, essas falhas afetam a vida de muitas mulheres em tratamentos ginecológicos ou até consultas de rotina. Nós, Lia e Ana, também passamos por situações violentas e negligentes envolvendo esse ambiente e decidimos contar essas experiências, também como uma forma de dar “rostos” aos dados.

    É comum sentir medo de ir a uma consulta médica?

    Nos últimos tempos – após longos períodos de procrastinação –, finalmente busquei por ginecologistas para realizar uma consulta de rotina. Pedi indicações de amigas e pessoas conhecidas em quem confio na tentativa de rastrear profissionais que equilibrassem o conhecimento técnico e atendimento humanizado. Quando, enfim, encontrei alguém que considerava interessante, me deparei com diversos vídeos do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) republicados em suas redes sociais. O medo tomou corpo e mente.

    Me questionei muito sobre como pode um profissional da saúde compartilhar conteúdos de alguém que desacredita na ciência (lembremos da pandemia e dos ataques sistemáticos à educação) e propaga tanto ódio contra pessoas LGBTQIAPN+. Justo na área da saúde, que deveria ser direito de todas as pessoas, discursos preconceituosos ganham tração, incitando cada vez mais violência. 

    Como mulher lésbica, me senti acuada em falar sobre experiências sexuais, uma vez que já havia escutado diversos relatos violentos e falta de preparo nos atendimentos. Com isso, uma consulta de cuidado tornou-se uma conversa em que eu estava hipervigilante sobre qualquer detalhe “a mais” que poderia ser julgado. A gente tenta se preparar, ir munida de informações e dos nossos direitos, mas ali, tão vulnerável em frente à médica, me senti indefesa, acuada. 

    Evidente que nenhum nível de informação adquirida antes da consulta poderá nos proteger de violências de profissionais de saúde – e quaisquer outros. No entanto, ao compreender como os preconceitos se infiltram e estão presentes nas estruturas da sociedade, saber identificar comportamentos, frases e atitudes discriminatórias é fundamental para questionar e até mesmo encaminhar denúncias para responsabilizar esse/essa profissional. 

    No final das contas, nem citei minha sexualidade ou qualquer questão mais “subjetiva”, pois estava ali para investigar minha saúde. Porém, é interessante pensar sobre como as subjetividades que fogem da heteronormatividade são simplesmente escanteadas, quando não violentadas. Como se já não bastasse outras experiências preconceituosas, a saúde ainda permanece como área insegura para mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e negras, por exemplo.

    É importante mencionar que a coação e o medo não são violências físicas, mas se manifestam nos corpos e propagam um sistema que oprime mulheres e pessoas LBTI+, ou seja: ainda que simbólicas ou psicológicas, essas violações afetam nossas vidas e nosso acesso à saúde – seja direta ou indiretamente.

    Endometriose tem cara? 

    É fato que corpos dissidentes são atravessados por diversas violências. Como uma herança do período escravocrata, há quem ainda acredite que pessoas negras são mais fortes e resistentes à dor. Daí, as experiências médicas são atravessadas por violências. Somadas às negligências com relação à saúde feminina, as consultas ginecológicas e obstétricas se tornam ambientes hostis para mulheres negras.

    Mesmo com tudo isso em mente, ainda me surpreendo com algumas situações e me questiono às vezes se seria só algum mal-entendido. Um desses casos foi no meio da minha jornada na busca de um laudo para a causa de muita cólica, fluxo menstrual e outros sintomas relacionados Comecei a investigação na adolescência, mas no SUS demorava a sair e no privado os exames de imagem são muito caros. Enfim, fui a uma consulta ginecológica por encaminhamento pelo SUS em Mariana, indicada por uma ginecologista mulher, a fazer ultrassonografia dos seios e da pelve. Eu tinha mudado de UBS e o novo ginecologista era um homem mais velho. Assim que entrei no consultório, ele olhou para o meu rosto e perguntou o que eu queria; ao escutar, disse que eu não tinha cara de quem tem endometriose e que na minha idade, 22 anos, não era comum. 

    Ele disse isso sem me examinar; disse isso sem ouvir meus sintomas. Disse isso apesar de pesquisas indicarem que a endometriose pode se manifestar nas primeiras menstruações, em até 15% das mulheres em idade reprodutiva. Realmente pode não ser comum diagnosticar mulheres nessa idade – um dos motivos é a escassez de informações e estudos aprofundados. Em outra consulta recentemente com uma ginecologista, ela compartilhou que tem mulheres que descobrem a endometriose após os 40 anos. O processo é difícil e no fim, o meio mais fácil pode ser aceitar tomar medicamentos ou até mesmo anticoncepcionais para mascarar as dores e outros sintomas, mesmo sem saber a causa.

    A saúde de mulheres e pessoas com útero está em segundo plano

    Você já ouviu que “dores menstruais são comuns e fazem parte da rotina” de pessoas que menstruam? Essa é uma afirmação muito comum não só em consultórios ou espaços de atendimento à saúde, mas amplamente divulgado, repetido por pessoas da família e amizades. No entanto, quando essas dores são constantes, não investigadas ou tratadas, elas podem indicar problemas mais graves, como endometriose e adenomiose. 

    A questão torna-se ainda mais complexa quando essas pessoas buscam por atendimento, relatam dores intensas, sangramentos abundantes e a recorrência dos sintomas e são levadas a acreditar que é “completamente normal” ou que “estão exagerando”. Isso faz com que diagnósticos mais complexos, que demandam exames e investigação, sejam ignorados por profissionais da medicina, levando a sensação de loucura em quem relata tais sensações.

    Quando todo mundo ao nosso redor duvida ou normaliza sintomas sérios, dolorosos e até mesmo incapacitantes – experimente trabalhar e ter de ser produtiva/o com intensas dores pélvicas –, em que pessoas desmaiam em decorrência dos incômodos, é ainda mais difícil buscar ajuda. A quem recorrer quando um/a médico/a desacredita do relato? Uma vez que a estrutura da saúde é “medicalocêntrica” e a palavra daquele/a profissional é a mais importante, pessoas que têm útero são condenadas à brutalidade e à dor. 

    Como dissemos, a medicina é um campo de disputa de poder – ainda mais pensando em corpos que fogem dos padrões aceitos socialmente –, que (re)produz violências e propaga preconceitos. Logo, não é nenhuma coincidência ou surpresa que um sistema idealizado por e para homens brancos cisheteronormativos vitimize e subjugue mulheres, pessoas negras e LGBTQIAPN+. Desde doenças que afetam pessoas com útero, até infartos – que demonstram sintomas diferentes a depender do gênero –, há desigualdades profundamente enraizadas na comunidade médica e, ao passo que temos acesso à informação, o combate se dá em conjunto com outras/es/os, também vítimas.

    Neste 28 de maio – e em todos os demais dias – estejamos atentas, unidas e dispostas a questionar essa medicina que oprime e violenta nossos corpos, para que ela seja mais plural e equalitária para todas as pessoas. 

    Serviço:

    O Conselho Federal de Medicina disponibiliza um canal para realizar denúncias éticas, quebra de decoro ou recusa de atendimento. Acesse: Denúncia | Portal Médico

    Denúncias de mau atendimento ou irregularidades no SUS podem ser feitas de forma anônima ou identificada. Os canais disponíveis para contato são o site Fala.BR, o Sistema OuvidorSUS, o Disque Saúde pelo número 136, o WhatsApp no 0800 275 0620 ou o atendimento presencial. 

    Para visualizar mais dados, acesse o RASEAM 2025 – Relatório Anual Socioeconômico da Mulher

    Por Ana Luiza Rodrigues e Lia Junqueira 

  • Projeto Ariadnes realiza oficina sobre dinâmicas de gênero e sexualidade nas universidades

    Entre os dias 06 e 10 de abril, o Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) promoveu a Semana de Integração do semestre de 2026.1. Organizada pelo Programa de Educação Tutorial Conexão de Saberes (PET-ICSA), a programação contou com a oficina “Chegar à Universidade: Aprender a Praticar Relações de Gênero Saudáveis” na tarde da terça-feira (07/04), às 17h. Realizada há quatro semestres, nesta edição a atividade realizou um convite direcionado especialmente ao público masculino.

    Integrantes do Ariadnes junto com a professora Virgínia Carrara após a oficina. Foto: Vinícius Paes.

    A oficina

    A ação ocorreu no auditório do ICSA, organizada pelo projeto de incentivo à diversidade e convivência Ariadnes, em parceria com o coletivo Andorinhas, e ministrado pela orientadora do projeto, Karina Gomes Barbosa. Com a presença da comunidade acadêmica e os integrantes do Ariadnes, além da professora de Serviço Social Virgínia Carrara, do Andorinhas, a proposta teve como foco o contato de novos alunos e estudantes veteranos com o projeto, além de discussões ao redor de problemáticas caracterizadas como abuso de gênero dentro do espaço universitário. A chamada especial aos homens buscou tê-los no centro do debate e refletir sobre o importante papel que representam no combate contra a violência de gênero.

    O início da atividade se deu com a apresentação do projeto, o papel dele dentro da universidade e as ações que realizamos. A oficina contou com perguntas direcionadas ao público, buscando questionar e desenvolver exemplos de situações de violência no ambiente universitário, além de incluir os espaços fora da universidade, como o campo profissional, as repúblicas estudantis, festas e as vivências cotidianas.

    A intenção da dinâmica foi esclarecer o que caracteriza uma violência e a forma como elas estão presentes na vida estudantil, assim como as relações de gênero, sexualidade e poder que existem dentro e fora do espaço universitário. Além disso, a partir da atividade, buscamos abrir um ambiente de escuta e acolhimento para as mulheres que já passaram por cenários semelhantes, também levando os homens presentes a questionarem seu papel no combate a essas violências e aos discursos de ódio. 

    Ao fim da ação, o público presente recebeu um marca página personalizado com boas práticas de enfrentamento à violência de gênero nas universidades. A iniciativa contou com o apoio da Copiadora e Papelaria Realce e trouxe dez condutas de luta e conscientização que fazem parte do dia a dia da comunidade acadêmica. Dessa forma, os estudantes poderão carregar consigo ações que eles podem e devem realizar no cotidiano.

    E por que a chamada aos homens?

    De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio no ano de 2025, maior número desde que o crime passou a ser tipificado no Brasil. O mesmo panorama nos mostra que, dentre os casos com autoria conhecida, 97,3% foram cometidos por homens. O aumento da violência contra a mulher nos leva a refletir sobre o papel das masculinidades nesse cenário e a importância de trabalhar com os homens para prevenir o abuso de gênero. 

    Para além dos episódios, temos observado o crescimento de discursos de ódio contra as mulheres nas mídias sociais e a cultura de agressividade que vem sendo exposta nas plataformas digitais e nas interações. O aumento do conservadorismo e, consequentemente, da misoginia, vem normalizando atitudes agressivas e antiéticas.

    Por isso, é necessário o trabalho direto na formação de homens e meninos para prevenir tais violências e desconstruir as subjetividades masculinas hegemônicas. Assim, buscamos trabalhar em conjunto para produzir outras masculinidades menos violentas, sexistas e machistas, nos envolvendo nos processos de aprendizado desses indivíduos.

    Escuta e enfrentamento

    O Ariadnes é um observatório de mídia, gênero e sexualidade que atua como projeto de extensão e incentivo à diversidade e extensão da UFOP. Nele, realizamos estudos de formação, escutas testemunhais, críticas de mídia e reportagens. Nosso espaço também discute violências sofridas dentro das universidades e a forma como esses abusos são atravessados por interseccionalidades, como gênero, classe, raça e sexualidade.

    Buscamos construir um ambiente seguro para conversar sobre atos violentos contra a mulher no espaço da academia, trabalhando em conjunto para que todos tenham uma ótima experiência na universidade. O projeto se coloca à disposição para auxiliar em qualquer tipo de violência sofrida, oferecendo suporte, acolhendo e respeitando as vítimas.

    Por Letícia Gabrielli


  • Por que ainda falamos sobre manicômios?

    Imagem: Luiz Alfredo, no Testemunha Ocular

    Falar sobre manicômios em 2026 pode parecer estranho, soando contra o nosso tempo atual ou parte de um debate que já superamos. Mas o que muita gente pode não saber é que as engrenagens da lógica manicomial ainda estão operantes e com uma nova roupagem. Esse texto fala sobre como essa estrutura, que dita quem tem o direito de estar livre em sociedade e quem deve ser silenciado, está mais presente do que muitos pensam.

    Reforma psiquiátrica no Brasil

    Com forte influência dos estudos de Franco Basaglia, médico e psiquiatra italiano, a Reforma Psiquiátrica no Brasil teve início nos anos 70, com o lema “Por uma sociedade sem manicômios”. Basaglia propunha que o centro dos debates e da pesquisa em saúde mental deveria ser o indivíduo, e não a doença. Sua contribuição no campo da psiquiatria guia militantes da Luta Antimanicomial até os dias atuais, propondo um olhar crítico para a neutralidade da psiquiatria, que opera na tutela e controle social dessas pessoas.

    Uma voz igualmente importante para a Reforma Psiquiátrica brasileira é Nise da Silveira, médica alagoana que revolucionou as abordagens de tratamentos de saúde mental no país. Métodos violentos de sua época, como o eletrochoque e a lobotomia, eram aplicados em pacientes no Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro (RJ). Nise foi presa como comunista em 1936, na Ditadura Vargas, e após sua anistia em 1944, ela transformou o Setor de Terapia Ocupacional na instituição por meio da arte, do afeto e da emancipação dos seus clientes (como ela gostava de chamar os pacientes do Hospital).

    Imagem: Nise da Silveira, créditos ao Museu da Imagem e do Inconsciente

    Além da expressão artística, com pintura e modelagem, Nise também adotou o uso de animais em terapia, criando um potente canal de comunicação e transformação com seus clientes. Sua abordagem humanizada demonstrou, cientificamente também, que o afeto é um poderoso catalisador na melhora e na expressão criativa, dando origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, com o maior acervo do gênero no mundo.

    Em 1978 e 1979, Basaglia esteve no Brasil, passando pelo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. O horror foi tanto que ele comparou o lugar a um “campo de concentração nazista”. Uma notícia que pode ter pego algumas pessoas de surpresa foi a permanência de 12 pacientes, sem vínculo familiar, ainda abrigados na instituição em 2026. O processo de desativação do local começou em 1980, mas só será encerrado definitivamente este ano, com a transferência dos antigos internos para Serviços de Residência Terapêutica (SRTs), com abordagem mais humanizada e sob gestão da Secretaria Municipal de Saúde de Barbacena.

    Imagem: Luiz Alfredo, no Testemunha Ocular

    Com alta taxa de mortalidade na instituição mineira, outra forma de violência foram os enterros de muitas pessoas como indigentes, mesmo com registro e tendo familiares cientes da internação. Outros corpos eram vendidos para faculdades de medicina. No dia 9 de abril deste ano, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou um pedido de desculpas à sociedade brasileira por aviltar (tornar algo indigno, de acordo com Dicionário Online de Português) “os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”.

    A Lei Antimanicomial

    Instituída em 6 de abril de 2001, a Lei 10.216 busca a proteção e os direitos das pessoas acometidas de transtorno mental. Conhecida também como Lei Antimanicomial, ela orienta um cuidado respeitoso e humanizado no tratamento e em liberdade, regulamentando os tipos de internação: voluntária, involuntária ou compulsória.

    A lei também aponta que em casos de involuntariedade, a internação e o registro de alta do paciente devem ser informados ao Ministério Público Estadual em até 72 horas. Na sua tese de doutorado na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP, Emanuele Seicenti de Brito estudou a compreensão de profissionais da saúde de hospitais psiquiátricos* sobre a Lei Antimanicomial e parte dos seus resultados mostram que a comunicação entre o hospital e o MP não existe, além dos funcionários não terem orientação de que as informações deveriam ser repassadas.

    Crise na Reforma psiquiátrica no Brasil

    Entender o cenário brasileiro atual envolve a compreensão de que a lógica manicomial não faz distinção ética entre o transtorno mental e o uso dependente de drogas. Para esta lógica, ambos desviam das normas sociais e representam o estigma da loucura, de uma “falta de razão” que deve ser controlada. É nesta convergência entre saúde mental e política de drogas que a lógica do cárcere e da exclusão se mantém: quando o indivíduo passa a ser apenas “viciado” ou “louco”, a estrutura de retirá-lo do convívio em sociedade ganha permissão para operar, apenas atualizando o seu discurso técnico.

    Em 5 de junho de 2019, no governo Bolsonaro, foi sancionada a Lei 13.840, conhecida como “Nova Lei de Drogas”. Em sua definição, ela determina o que são comunidades terapêuticas: lares temporários para pessoas com dependência química. Entretanto, o modelo de funcionamento é baseado na laborterapia, que consiste em abstinência, trabalho não remunerado e penitência — longe do que era preconizado por Nise da Silveira. Nesses locais, o caráter da espiritualidade aparece ligado à administração: majoritariamente são vinculados a entidades privadas e movimentos religiosos de fé católica ou evangélica.

    Imagem: Luiz Alfredo, no Testemunha Ocular

    Para que o indivíduo possa ingressar em uma comunidade terapêutica, uma condição exigida é que sua adesão seja voluntária, com consciência de que ele deve se comprometer com a total abstinência. Ao condicionar o tratamento à adesão voluntária do indivíduo e à sua abstinência total, as CTs aparecem como um modelo de fácil aplicação institucional e redução de danos. Essas características acabam sendo consideradas uma estratégia para o Executivo, de maneira que a centralidade do tratamento em tais instituições seja uma boa justificativa para sua integração à Política Nacional sobre Drogas (Pnad), aprovada também em 2019 no mês de abril.

    Tanto que em julho do ano seguinte, o Conselho Nacional de Políticas Sobre Drogas (Conad) se reuniu para discutir a regulamentação do acolhimento de adolescentes e jovens entre 12 e 18 anos em CTs. Somente 4 anos depois o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) publicou a Resolução nº 249, proibindo a internação de crianças e adolescentes nos CTs. Cada vez mais a lógica manicomial, de isolamento dos corpos como forma de tratamento, é revestida de novas roupagens e está sendo amparada legalmente, enfraquecendo a reforma e reforçando a lógica manicomial.

    Os recursos financeiros federais para CTs, pelo antigo Ministério da Cidadania (atual Ministério do Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome, desde janeiro de 2023), registram aumento desde 2019, passando de 157 milhões para 300 milhões de reais em 2020. Entretanto, no dia 9 de dezembro de 2021 foi constatado um repasse de 89 milhões de reais em recursos sem processo licitatório. Mesmo com essa ampliação significativa, há uma ausência no levantamento de informações sobre essas instituições: o último Relatório de Inspeção Nacional em Hospitais Psiquiátricos foi realizado em 2018. Também é possível notar uma ausência na fiscalização das práticas nesses locais, com relatos de cárcere privado e violação de direitos humanos.

    Imagem: Luiz Alfredo, no Testemunha Ocular

    Casos com o de Wildson Cardoso Felipini, homem de 30 anos que foi encontrado morto, dia 27 de dezembro de 2025, em um quarto do Instituto Terapêutico Redentor de Ribeirão Preto (SP), e de Vera Lúcia Souza, mulher de 63 anos que morreu, dia 3 de abril deste ano, na Comunidade Terapêutica Luz e Vida em Tubarão (SC), apontam graves rachaduras à Reforma psiquiátrica, que completou 25 anos em abril de 2026, e aos seus pilares.

    Defender a reforma hoje

    O que o sociólogo francês Michel Foucault pautou em 1961, em História da Loucura, sobre o “tempo moral” das conversões dentro de instituições asilares ainda é fortemente difundido no funcionamento das Comunidades Terapêuticas: o tempo de permanência do indivíduo em internação é medido pelo seu arrependimento moral. Como apontado pelo Desinstitute, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) sem fins lucrativos que atua no campo da garantia dos direitos humanos e do cuidado em liberdade, o debate sobre saúde mental ainda opera dentro de limites, de maneira que o sofrimento seja silencioso, produtivo e socialmente administrável. Todos aqueles que fogem dessa norma ainda são jogados à margem do convívio em comunidade.

    Defender a Reforma Psiquiátrica na atualidade exige desmascarar essa nova roupagem da lógica asilar, enfrentando hábitos que incentivam o tratamento em exclusão e a conversão moral. O tratamento em liberdade ainda é a única medida ética possível, de maneira que a loucura e o sofrimento inerente ao ser humano sejam acolhidos no seu convívio social. Silenciar a dor ou trancá-la sob novos muros é repetir erros do passado. Para uma real transformação, precisamos tensionar tais lógicas e garantir que nenhuma existência seja invisibilizada.

    Por: Natalia Lima Amaral

  • É preciso lembrar para existir

    O que separa o Brasil que patologizava identidades dissidentes do Brasil que hoje abriga a maior parada LGBTQIA+ do mundo? Uma das possíveis respostas está em uma luta que muitas vezes foi silenciada e, se chegou aos livros didáticos nas escolas, chegou em notas de rodapé ou quadros de um quarto de página. Me lembro de quando foram liberadas as aulas presenciais, em um contexto ainda pandêmico, e entrei em uma sala do nono ano do Ensino Fundamental. Os alunos regulares desse período costumam estar entre os 14 e 15 anos, época em que os hormônios estão fervilhando e as primeiras paixões e contatos sexuais começam a acontecer. 

    A missão do dia era ministrar uma aula sobre movimentos sociais contemporâneos – como se pudesse condensar todos eles em 50 minutos, mas tinha de fazê-lo de acordo com o planejamento – e quando falei dos movimentos LGBTQIA+ no Brasil fui interceptado com violência por um aluno que bradou que ali não era espaço para viadagem. O ato que interrompeu minha aula é parte da mesma violência que aniquila, simbólica e literalmente, sujeitos dissidentes todos os dias. Olhando para o contexto brasileiro, a partir dessa contradição entre ser o país que mais mata LGBTQIA+ e que também possui a maior parada de orgulho do mundo, a leitura do livro Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias, do professor e pesquisador Renan Quinalha, revela um caminho possível para entendermos o cenário atual em que tudo parece estar conquistado e solidificado.

    Foto aérea de uma multidão massiva na Parada do Orgulho LGBTQIA+ em uma avenida de São Paulo, no Brasil. No centro, uma gigantesca bandeira do arco-íris se estende sobre a rua. As pessoas estão densamente aglomeradas, celebrando, tirando fotos e caminhando em direção ao fundo da imagem.
    29ª Parada do Orgulho LGBTQIA+. São Paulo (SP), 21/06/2025. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

    Dentre as várias histórias possíveis de serem narradas, Quinalha opta por registrar o movimento organizado com prioridade para a dimensão político-organizativa do ativismo, ou o que ele chama de o “movimento”. Portanto, em uma de suas escolhas, o pesquisador começa a análise a partir da segunda metade do XIX, na qual os movimentos passaram a adotar uma ação coletiva, quando se é criado um senso de comunidade em torno das identidades. É a partir dessas “comunidades imaginadas” que o livro oferece uma visão panorâmica da luta LGBQIA+ ocidental. É importante destacar que o texto tem uma perspectiva ocidentalizada e eurocentrada para a discussão – como o próprio autor ressalta, visão muito influenciada pelo imperialismo cultural estadunidense que exporta para o mundo a Revolta de Stonewall como um grande marco inicial do ativismo.

    Dividido em três seções, o livro dedica a primeira parte a questões conceituais introdutórias para debate, resultando na percepção de que o campo de gênero e sexualidade tem sido organizado a partir de duas concepções que sofrem de aproximações e afastamentos: essencialismo e construtivismo. Sob a ótica do essencialismo, o gênero e a sexualidade são vistos como algo binário (homem/mulher, hétero/homo) e, nela, orientação sexual e identidade de gênero são inatas, ou seja, parte da essência do sujeito. O autor destaca a importância histórica desse argumento, que serviu de escudo no combate a discursos religiosos, legais, médico-científicos, entre outros que produziram estigmatizações para vivências dissidentes. 

    Já a perspectiva construtivista, mesmo possuindo divergências entre autores, convergem no entendimento do papel histórico e cultural na formação de sujeitos, a despeito de códigos genéticos e biológicos, olhando para as relações de poder que se estabelecem na sociedade. Ambos os discursos se entrelaçam em diversos momentos da história a fim de sustentarem as reivindicações de cada grupo e contexto.

    A segunda parte, e mais extensa, tem como foco o ativismo em três momentos: um protoativismo nascido na Alemanha, a cena estadunidense e o contexto brasileiro. A justificativa por esse eurocentrismo encontra os discursos médicos e o debate sobre sexualidade surgidos na Alemanha no final do século XIX como precursores que olharam para a questão da dissidência sexual, ainda que com posturas eugenistas. Como dito, a questão cultural imperialista que os Estados Unidos impôs e ainda impõe ao mundo a partir de suas narrativas míticas tem um peso. Além disso, outro ponto que Quinalha usa como justificativa para abordar a luta nesses territórios é a aglutinação de pessoas em regiões cosmopolitas, favorecendo um diálogo entre um maior número de sujeitos dissidentes. 

    Olhando para o cenário nacional, o texto possui um recorte que parte da luta resultante do ativismo organizado durante a ditadura civil-militar. Embora os ecos de Stonewall tenham sido abafados por aqui por conta do endurecimento dos “anos de chumbo”, a década de 1970 viu o nascimento dos primeiros coletivos brasileiros. É nessa reconstrução que Quinalha traz uma contribuição para o debate: o entendimento dessa trajetória a partir de uma perspectiva cíclica, diferentemente de pesquisas clássicas que consideram o ativismo a partir da metáfora de ondas. Enquanto a ideia de onda pressupõe um pico e uma queda lineares para que outra fase comece, os ciclos propostos pelo autor são sobrepostos, não lineares e possuem simultaneidades. Isso corrobora com a ideia de que a resistência no Brasil nunca seguiu uma linha reta.

    Fotografia em preto e branco de uma manifestação de rua. Um grupo de pessoas marcha segurando uma grande faixa com a frase: “Contra a discriminação do/a trabalhador/a homossexual”. Ao fundo aparecem prédios, postes e fios elétricos urbanos.
    Grupo Somos em 1980 durante a Greve dos Metalúrgicos, no ABC Paulista (Acervo Fernando Uchoa/Divulgação)

    Após apresentar essa perspectiva panorâmica, Quinalha nos guia pelos impasses da luta LGBTQIA+ contemporânea. Na última parte da obra, talvez a mais fértil, o pesquisador lança um olhar para as armadilhas atuais e possíveis caminhos para superação delas. Ele questiona, por exemplo, como o mercado se apropria de uma negligência estatal para mercantilizar o orgulho por meio do pink money, reduzindo a cidadania à capacidade de consumo. Diante disso, Quinalha propõe um resgate do pensamento marxista, outrora tão criticado, para combater as apropriações capitalistas contemporâneas, além de um olhar crítico para as representações midiáticas de nossas subjetividades. Mas, mais importante ainda, o professor nos deixa o alerta para as diversas tentativas de apagamento institucionais de nossa história, principalmente por discursos e governos de extrema-direita. O exercício de lembrar e registrar segue sendo o instrumento mais efetivo contra o esquecimento de nossa comunidade. 

    O grande mérito de Quinalha reside na densidade de sua pesquisa, traduzida em uma linguagem que foge do hermetismo e convida diferentes públicos ao debate, combatendo um apagamento histórico sistemático. Contudo, mesmo em uma obra que celebra dissidências, as estruturas de poder se fazem notar quando o protagonismo ainda recai sobre um movimento predominantemente branco e cisgênero, cujas vozes foram as mais documentadas e visibilizadas pelo tempo. Isso acaba gerando lacunas como o apagamento de trajetórias lésbicas e trans, além de uma repetição exaustiva da ideia de que o cosmopolitismo das grandes metrópoles é o único solo fértil para o ativismo – o que acaba obscurecendo a resistência de cidades interioranas e de outros territórios. Um panorama tão vasto dificilmente daria conta de todas as subjetividades sem deixar arestas. Ainda assim, o livro é um ponto de partida indispensável para uma compreensão geral da história dos nossos ativismos e armar-se contra a LGBTfobia.

    A partir de uma história repleta de lacunas e silenciamentos, que haja espaço para a viadagem, sim! E também para lesbianidades, travestilidades, bissexualidades, queeridades. No mundo, na academia, nos livros e nas aulas de história. O dia 17 de maio vem nos lembrar que nenhum direito está plenamente conquistado; eles não são pontos de chegada, mas processos que exigem manutenção diária. O livro de Quinalha mostra como a trajetória LGBTQIA+ no Brasil é marcada por avanços que frequentemente enfrentam contra-ataques conservadores e tentativas de retrocesso institucional. 

    Portanto, o dia 17 de maio é um chamado à vigilância. Em um país onde a cidadania de corpos dissidentes ainda é pauta de negociação e disputa, a compreensão de lutas do passado fornece pistas para identificar ameaças do presente e o vislumbre de outros futuros possíveis. Que sejamos orgulhosos de sermos quem somos e cientes de que a liberdade é um exercício coletivo e ininterrupto, pois o direito de existir continua sendo escrito com coragem e, sobretudo, memória.

    Capa do livro "Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias", de Renan Quinalha. O design é moderno, com a palavra "MOVIMENTO" em letras pretas gigantes ao fundo. No centro, um círculo vermelho destaca o título. Na base, a sigla "LGBTI+" aparece em cores vibrantes.
    Foto: Divulgação/Autêntica


    Livro:
    Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias

    Autor: Renan Quinalha

    Editora: Autêntica

    Faixa etária sugerida: recomendado para o público jovem e adulto

    Justificativa: obra para formação cidadã, que apresenta marcos históricos da luta por direitos LGBTQIAPN+ no Brasil e no mundo.

    por Flávio Reis

  • Quais passados são dignos de perdão em “The Drama”?

    Pôsteres de divulgação do filme The Drama, 2026.

    Um casal feliz e recém-noivo é colocado à prova quando uma revelação inesperada faz com que a semana do casamento saia dos trilhos. Essa é a sinopse de The Drama (2026), novo filme de comédia, romance e, claro, drama da produtora A24 (a mesma de Moonlight, Tudo em Todo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e Vidas Passadas). Estrelado por Zendaya, que interpreta Emma, e Robert Pattinson, que interpreta Charlie, o longa vai muito além do que a sinopse e o trailer entregam.

    No início, o filme parece ser um romance comum, com um casal muito apaixonado, que se conheceu há dois anos em um café e está às vésperas do dia do casamento. A história de Emma e Charlie é contada por meio de flashbacks enquanto os dois escrevem os votos para a cerimônia, mas não demora pra tudo mudar e o drama chegar. O filme é divertido e, apesar de abordar uma temática inesperada, prende a atenção pela curiosidade do que vai acontecer no futuro e se vai ter mesmo casamento.

    *a partir daqui, spoilers*

    O caos começa quando os noivos estão em uma degustação de vinhos com outro casal de amigos, Rachel e Mike, padrinhos do casamento. Eles resolvem contar qual foi a pior coisa que já fizeram na vida. Em um momento de vulnerabilidade, pela bebida, ou talvez por pensar ser um espaço seguro para ter transparência total, Emma confessa que, na adolescência, planejou um massacre em sua escola, mas não o realizou. A revelação choca todos da mesa, que a princípio pensam ser uma piada. Ao perceberem que é sério, o clima muda. E é um choque que, talvez por não morarmos em um país como o Estados Unidos – com um índice muito grande de massacres –, não tenha tanto peso para nós no Brasil, por exemplo. 

    Ataques em escolas também têm crescido no Brasil nos últimos anos. Segundo o relatório Ataques às Escolas no Brasil: análise do fenômeno e recomendações para a ação governamental (2023), produzido pelo grupo de transição governamental, o país registrou 36 ataques entre 2002 e 2023, com aumento significativo dos casos a partir de 2017. Ainda assim, o documento aponta que o cenário brasileiro não tem a mesma dimensão histórica e letal observada nos EUA, embora exista forte influência de casos estadunidenses, principalmente do massacre de Columbine, na dinâmica desses ataques aqui.

    Na mesa, Emma foi a única que não chegou até o fim no ato confessado: Rachel deixou uma criança passar uma noite sozinha trancada no armário de uma cabana e nem sabe o que aconteceu depois; o noivo, Charlie, fez cyberbullying com um colega da escola, o que levou o menino a mudar de cidade com a família; e Mike tinha usado a namorada da época de faculdade como escudo quando foi atacado por um cachorro. 

    Na cena da degustação também dá para perceber um recorte racial, pois os personagens negros são julgados de forma mais dura. Enquanto os erros dos personagens brancos são tratados apenas como erros do passado, as confissões de Emma e de Mike são recebidas com pânico moral.

    A partir daí, The Drama muda o tom do filme e subverte a expectativa do gênero romance para questionar a moralidade seletiva dos personagens. Charlie entra em estado de dúvida e desconfiança sobre o caráter e até a sanidade da noiva. Ele questiona a imagem que havia criado de Emma, descrita em seus votos de casamento como uma mulher perfeita, empática e amorosa, mas para Charlie ela passa a ser a mesma pessoa que idealizou um massacre aos 14 anos, como se a noiva não pudesse ter mudado. 

    Durante o filme, em um flashback da Emma adolescente, acontece uma discussão na escola sobre massacres serem cometidos em sua maioria por meninos. Mas Emma reafirma que mulheres também cometem esses crimes. 

    Ao afirmar que mulheres também são capazes de cometer essas violências, o filme brinca – de forma cruel com a personagem de Zendaya – com essa quebra de expectativa de gênero: Emma é doce, bem-sucedida e amada, o que torna sua “capacidade de violência” muito mais perturbadora para os homens ao redor do que as falhas éticas cometidas por eles mesmos. Eles não olham pra si mesmos mas apontam os dedos para ela, ignorando também todas as interseccionalidades do caso, como uma menina negra que sofreu na adolescência. Obviamente nada justifica um massacre, mas não é tão difícil imaginar que uma ideia que atrai muitos meninos brancos que se sentem excluídos para esse tipo de violência também poderia arrastar Emma.

    O longa utiliza um humor ácido para tratar o assunto dos atentados em escolas e coloca os personagens e quem assiste em uma posição desconfortável. Ele não é maniqueísta; não quer que você odeie Emma ou Charlie, mas que se pergunte: os erros do passado resumem quem somos na vida adulta? O que é impossível perdoar? E mais: até que ponto o gênero e a raça do agressor mudam a nossa capacidade de perdoar? Porque ninguém se coloca no lugar dela: Charlie até tenta fazer esse exercício mas falha várias vezes.

    E talvez seja aí que The Drama revele os limites dessa própria subversão de gênero que propõe. O filme consegue imaginar uma mulher negra se aproximando de um tipo de violência historicamente associada aos homens brancos, mas não se engaja em imaginar homens realmente se afastando dessa violência. Em vez de questionar profundamente a lógica da violência, o longa reorganiza a relação a partir dela: Emma precisa provar constantemente que mudou, enquanto Charlie permanece preso ao medo, ao controle e à desconfiança. Assim, mesmo ao tensionar expectativas de gênero, The Drama continua deixando a violência, e o imaginário masculino construído em torno dela, no centro da narrativa. 

    Serviço:

    Título Original: The Drama
    Onde Assistir: Em cartaz nos cinemas
    Duração:
    105 minutos
    Gênero: Romance, drama e suspense
    Classificação Indicativa: 16 anos
    Nossa Classificação: 16 anos
    Justificativa: Violência, linguagem imprópria, sexo e drogas 

    Ana Luíza Rodrigues

  • A crise dos plásticos e as mulheres das águas

    Fotografia em plano aberto que retrata o trabalho exaustivo das marisqueiras no manguezal. A imagem mostra mulheres curvadas sobre a lama ou na água rasa, possivelmente com cestos ou baldes, em meio à densa vegetação e raízes aéreas do mangue. O registro ilustra a profunda interdependência entre essas mulheres e o ecossistema, o "corpo-território" ameaçado pela crise dos plásticos e a poluição.
    O cartaz do documentário Mulheres das Águas (2016), que expõe o cotidiano das marisqueiras da Bahia e de Pernambuco e sua luta de resistência contra a crise dos plásticos e a poluição que ameaça o manguezal, seu corpo-território.

    O documentário Mulheres das Águas (2016), dirigido por Beto Novaes e produzido pela Fiocruz, constitui um registro fundamental para compreender a interseção entre o trabalho, o gênero e a preservação ambiental no Nordeste brasileiro. A obra mergulha no cotidiano das marisqueiras da Bahia e de Pernambuco, expondo como a exaustiva jornada de trabalho nos manguezais é atravessada por uma crise ecológica sem precedentes, marcada pela poluição industrial e pelo avanço silencioso e devastador da crise dos plásticos.

    Recomendo que todos vejam, e felizmente ele está disponível no Youtube, totalmente de graça: https://youtu.be/P62sFliw7K8?si=1fVaLdlSWHM8e8nD

    Sob uma perspetiva feminista ambientalista, o filme revela que o manguezal não é apenas um ecossistema, mas também um corpo-território, já que a relação dessas mulheres com as águas é de profunda interdependência, ou seja: a saúde do mangue reflete diretamente a saúde das pescadoras.
    Contudo, essa ligação é ameaçada por um modelo de desenvolvimento predatório. As grandes indústrias e o turismo de massa não só contaminam as águas com efluentes químicos, mas também introduzem toneladas de resíduos plásticos que sufocam o berçário da vida marinha. Para as marisqueiras, o plástico e o esgoto no mar são uma mancha em algo que elas consideram sagrado, agentes de degradação que dificultam a pesca, ferem os corpos durante a cata e simbolizam a invasão do capital sobre os recursos comuns.


    Outro ponto alarmante é a invisibilidade institucional. O documentário denuncia como o Estado falha em reconhecer a mariscagem como uma profissão de risco e de importância econômica vital. Esta negligência dificulta o acesso a benefícios previdenciários e ignora as patologias específicas enfrentadas por essas mulheres. O adoecimento não é apenas fruto do esforço físico, mas da exposição a um ambiente degradado pela morte do ecossistema. Doenças ginecológicas, dermatológicas e respiratórias surgem como sintomas de um ambiente contaminado por metais pesados e resíduos sintéticos.
    A resistência apresentada no documentário é, portanto, uma luta pela vida. Ao reivindicarem a demarcação dos seus territórios, reconhecimento dos seus direitos e o fim da poluição, essas mulheres exercem uma política de cuidado que contesta a lógica da necropolítica industrial. Existe uma dignidade que se recusa a ser apagada. A luta das Mulheres das Águas é um clamor pela justiça socioambiental e pelo reconhecimento de que a proteção do futuro passa, necessariamente, pela despoluição das águas e pela garantia de que o mangue continue a ser um espaço de vida e não de resíduos.

    Precisamos falar de micro-plásticos

    A questão do lixo, em suas diversas formas, desde o resíduo doméstico até o lixo tóxico industrial e a poluição plástica nos oceanos, constitui um dos maiores desafios éticos e ambientais da atualidade. A análise desses materiais revela não apenas o impacto ecológico, mas também as desigualdades sociais e a resistência de grupos que atuam na linha de frente da limpeza do planeta, como o que ocorre em Manila, capital das Filipinas.

    O lixo tóxico, por exemplo, é composto de materiais que possuem propriedades físicas, químicas ou biológicas que apresentam riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Isso inclui resíduos industriais, metais pesados (como mercúrio e chumbo), pesticidas, lixo hospitalar e eletrônico.

    Diferente do plástico visível, o lixo tóxico muitas vezes atua de forma silenciosa, contaminando o solo e os lençois freáticos, e entrando na cadeia alimentar. No contexto de comunidades tradicionais, como as marisqueiras, o lixo tóxico das grandes indústrias e refinarias de petróleo (cof cof, Petrobras cof cof), manifesta-se no corpo das mulheres através de doenças crônicas e contaminação do pescado, configurando o que muitos teóricos chamam de racismo ambiental.

    Reportagem da BBC News Brasil destaca que a poluição oceânica é alimentada por um sistema de correntes circulares chamadas giros oceânicos. Existem cinco grandes giros no planeta (Pacífico Norte e Sul, Atlântico Norte e Sul e Índico) que funcionam como uma espécie de banheiras de hidromassagem gigantes, acumulando detritos em áreas conhecidas como “sopas de plástico”. E esse plástico não se decompõe totalmente, ele se fragmenta em micropartículas, que por sua vez não estão apenas na superfície, mas descem pela coluna de água, sendo ingeridas e até inaladas pela vida marinha, entrando permanentemente no ecossistema.

    Rio de Janeiro (RJ), 30/07/2025 – Ressaca no mar acumula lixo plástico na praia do Leme, após passagem de um ciclone extratropical. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Uma grande parte do lixo oceânico (cerca de metade) vem de equipamentos de pesca perdidos ou abandonados, que continuam matando animais indiscriminadamente.

    A maioria do lixo visível nos oceanos na verdade permanece perto da costa. Por isso, a limpeza de rios e estuários, como o trabalho dos Guerreiros do Rio nas Filipinas, mencionado na reportagem da BBC, é a forma mais eficaz e barata de impedir que o plástico chegue aos giros centrais. 

    E nos grandes centros urbanos?

    Enquanto a poluição atinge os oceanos, nas cidades, a primeira barreira de contenção contra o avanço dos resíduos são os catadores de materiais recicláveis. O projeto Pimp My Carroça, de São Paulo, surge como um movimento social e cultural para tirar esses trabalhadores da invisibilidade e dar-lhes dignidade. Através do grafite e da reforma das carroças, o projeto transforma ferramentas de trabalho em obras de arte, forçando a sociedade a enxergar o catador. Eles atuam na base da pirâmide da reciclagem: se o lixo tóxico e o plástico não chegam aos rios e, consequentemente, aos oceanos, é em grande parte graças ao esforço manual e exaustivo desses profissionais, que muitas vezes trabalham sem equipamentos de proteção, assim como as voluntárias filipinas citadas na reportagem da BBC.

    Percebe-se que o problema do lixo é uma questão de gestão da morte e da vida. A jornalista Zoë Carpenter, ganhadora do prêmio James Aronson de Jornalismo de Justiça Social e foi finalista dos prêmios Livingston e National Education Writers, fala que “alguns dizem que a poluição plástica é uma distração para o maior problema das mudanças climáticas, mas a minha conclusão ao fazer esse relatório é que tudo faz parte do mesmo problema”. 

    A reportagem da BBC mostra que o plástico vagueia pelo mundo, transportando inclusive espécies invasoras. Combater o lixo tóxico e a poluição marinha exige mais do que tecnologia, exige uma mudança na ética e responsabilização aos principais poluidores. É necessário reconhecer que o descarte não existe na realidade, já que o lixo que sai da nossa vista em terra acaba por aparecer no estômago de uma tartaruga no meio do Pacífico ou no sistema circulatório de uma marisqueira no Nordeste brasileiro. A preservação ambiental é, indissociavelmente, uma luta por direitos humanos e visibilidade social.

    Para quem tiver interesse, recomendo também outro documentário The Story of Plastic, sobre a vida do plástico, está disponível na plataforma Vimeo: https://vimeo.com/449085864/e8bc7ddbcd

    A canção que se segue é um hino de resistência entoado pelas marisqueiras do Nordeste brasileiro. A música ecoa durante suas viagens de barco pelo ambiente, simbolizando a luta inabalável pela defesa do território, da água e do modo de vida artesanal. A letra é um potente clamor por liberdade, justiça e pela preservação do manguezal, contestando a degradação ambiental e reivindicando o reconhecimento e a dignidade dessas resistências:

    Chegou a hora de defender / Nosso pedaço de chão

    A terra é nossa isso por direito / Respeite nossa tradição

    A nossa luta é por terra e água / Do litoral ao sertão

    Lutamos por igualdade / com liberdade garantir o pão

    Vem companheiro / Chega de indecisão

    Vem engrossa a fileira / Desfralda a bandeira da libertação

    Vem companheira / Esse é o nosso momento

    Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

    Vamos juntos engrandecer / Nosso jeito de viver

    Com território preservado / Nosso pescado é pra valer

    Agora resta se organizar / Para impedir a degradação

    Queremos é liberdade / Justiça, garra, determinação

    Vem companheiro / Chega de indecisão

    Vem engrossa a fileira / Desfralda a bandeira da libertação

    Vem companheira / Esse é o nosso momento

    Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

    Da pesca artesanal / Ecoa um grito no ar

    Por território pesqueiro / Para viver e trabalhar

    De norte a sul Ô que coisa linda / Ver a classe organizada

    Juntando homens e mulheres / Seguindo a marcha em caminhada

    Vem companheiro / Chega de indecisão

    Vem engrossa a fileira / Desfralda a bandeira da libertação

    Vem companheira / Esse é o nosso momento

    Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

    Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

    Letra e música: Das Neves (PE), Teba (BA), Manuel Roberto (PA), Gilmar (BA)

    Serviço:
    Título original: Mulheres das Águas
    Onde assistir: Youtube
    Gênero: Documentário
    Classificação: Não informada.
    Classificação da autora: Livre para todos os públicos.
    Justificativa: O documentário não trata de temas que necessitem de classificação indicativa.

    Sophia Helena Ribeiro

  • Desafios do enfrentamento às violências de gênero na universidade

    Duas mulheres sentadas em cadeiras em um auditório, à frente de uma tela de projetor.
    As professoras Heloísa Buarque de Almeida e Daniela Osvald em evento sobre violências de gênero na Universidade de São Paulo. Foto: Sophia Ribeiro/Ariadnes

    Em um movimento que reforça a pressão por mudanças estruturais no Ensino Superior, a Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) sediou, no último dia 25 de março, o debate Violência de gênero, enfrentamentos e desafios. O evento, transmitido ao vivo no marco das celebrações dos 60 anos da unidade, reuniu especialistas para discutir o assédio sexual, o racismo e as barreiras jurídicas que ainda protegem agressores no ambiente universitário.

    Heloísa Buarque de Almeida (FFLCH-USP), falou sobre o assédio sexual e a cultura institucional, trazendo uma perspectiva da antropologia e da experiência da Rede Não Cala, destacando como o assédio sexual se nutre de hierarquias rígidas e do medo de represálias acadêmicas, princiaplemnte quando lidamos com professores “estrela”.

    O “campo minado” jurídico foi apresentado por Fabiana Severi (FDRP-USP), que abordou a complexidade de transformar denúncias em processos efetivos. O enfrentamento jurídico exige que as instituições abandonem a neutralidade burocrática e adotem uma perspectiva de gênero que reconheça as assimetrias de poder.

    O evento também contou com a presença de Carolina Bezerra (UFJF), que aprofundou a crítica ao expor o pacto narcísico da branquitude e do patriarcado na academia. Ela discutiu como a exclusão de corpos negros e femininos resulta no epistemicídio (o apagamento sistemático de formas de conhecimento que não se alinham ao padrão eurocêntrico e masculino). O pacto narcísico da branquitude é um mecanismo de defesa coletivo em que o grupo dominante (branco) se reconhece apenas em seus próprios espelhos, excluindo e silenciando o outro para manter sua imagem de superioridade e evitar a angústia da realidade.

    Na academia e nos espaços intelectuais, o pacto se manifesta na infantilização do negro. Para Lélia Gonzalez, a academia opera como uma festa de brancos que detêm o monopólio da fala, enquanto negros são infantilizados como infans (aqueles que não têm fala própria, no latim) e reduzidos a meros objetos de estudo. Isso permite que o saber branco se pretenda superior à própria vivência negra, ignorando propositalmente as categorias de raça e sexo para manter a lógica da dominação.

    Para a mulher negra, esse pacto é duplamente violento, já que a articulação entre racismo e sexismo tenta domesticá-la nos papéis de mulata ou doméstica, apagando sua agência como a mãe preta que efetivamente forjou a língua e os valores da cultura brasileira.

    O evento na ECA contou com o apoio de entidades representativas como a ADUSP (Associação dos Docentes da USP) e núcleos de diversidade, sinalizando que a pauta deixou de ser um debate restrito a coletivos para se tornar uma demanda central da administração acadêmica.

    Portaria nº 45 da CAPES

    Ainda no contexto da visibilidade pública das discussões sobre violências de gênero no Ensino Superior, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) publicou em 30 de março de 2026, a Portaria nº 45 da CAPES, que estabelece um novo marco regulatório sobre o tema. O documento impõe diretrizes e ações para a prevenção e o enfrentamento ao assédio moral, ao assédio sexual e às violências de gênero, além de discriminações decorrentes do racismo, capacitismo, etarismo e LGBTIfobia no âmbito dos Programas de Pós-Graduação (PPGs).
    Com essa medida, o combate à violência deixa de ser uma escolha da coordenação para se tornar uma exigência. As novas normas são resultado de debates recentes e pressões da sociedade civil, que vêm alterando as recomendações éticas em critérios de permanência dos cursos.

    O que muda?

    Com o novo respaldo legal da CAPES, a expectativa é que os Programas de Pós-Graduação passem a implementar, ainda neste semestre:

    • Cursos obrigatórios de formação sobre assédio para docentes e discentes;
    • Canais de denúncia mais acessíveis e integrados ao sistema FalaBR;
    • Transparência nos relatórios de gestão sobre casos de discriminação e violência.

    A implementação dessas políticas passa a ser um indicador direto para a qualidade e regularidade dos cursos em todo o país. Do mesmo modo, o debate na ECA reafirma que a universidade brasileira de 2026 não aceita mais o gênio acadêmico estrelinha como justificativa para abusos de poder.

    Marcela Pauline e Sophia Helena Ribeiro

  • Projeto Ariadnes promove oficina de cobertura ética e responsável de casos de lesbocídios 

    Oficina ofertada no dia 09/04, por Maria Clara Soares, integrante do Ariadnes. Foto: Ana Beatriz Justino/Ariadnes

    No dia 09 de abril, às 17h, o Projeto Ariadnes deu continuidade às atividades de formação para jornalistas locais e estudantes de jornalismo iniciadas em 2025 com a oficina: “Como noticiar casos de lesbocídios? Reflexões sobre uma cobertura ética e responsável”, ministrada por Maria Clara Soares, integrante do Ariadnes e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFOP. Voltada à comunidade jornalística da Região dos Inconfidentes, a iniciativa busca desenvolver tópicos e sugestões para uma cobertura ética e responsável de casos de lesbocídios.

    Diante de um cenário de violências e a partir da ausência de formações específicas no curso e na região, a oficina trouxe casos específicos em que a cobertura jornalística culpabilizou as vítimas ou descredibilizou os testemunhos. Os episódios foram analisados individualmente com o objetivo de capacitar os(as) profissionais a incorporar uma perspectiva de gênero e sexualidade em suas práticas. Além deles, a oficina também apresentou procedimentos e possibilidades de cobertura.

    No curso, o termo lesbocídio foi apresentado como a morte de mulheres lésbicas por motivos de lesbofobia, ou seja, pelo ódio, repulsa ou discriminação contra a existência lésbica, como descrito pelo Dossiê sobre Lesbocídio, de 2018. A partir da definição concreta da violência, a oficina trabalha como os lesbocídios, mesmo em coberturas rápidas e urgentes, podem ser noticiados com rigor ético e sem apagar a identidade das vítimas. 

    Maria Clara destaca, durante a formação, que o lesbocídio não é tipificado isoladamente na lei brasileira e, na maioria dos casos, é enquadrado como crime de feminicídio. Diante disso, ela enfatiza a importância de uma abordagem jornalística responsável, capaz de contextualizar corretamente os crimes, além de reforçar o compromisso da notícia com a responsabilidade social.

    Por Nicolle Soares

  • O Brasil é o “país do futebol”, mas futebol não é “coisa de mulher”

    A imagem captura um momento de pura euforia e triunfo do time feminino do Fortaleza Esporte Clube. No centro do gramado, sob a luz dos refletores e o brilho de fogos de artifício que saltam ao fundo, as jogadoras celebram a conquista de um título importante. Elas vestem o tradicional uniforme tricolor, com listras horizontais em azul, vermelho e branco, e muitas trazem medalhas de ouro penduradas no pescoço.

O ponto focal da cena é o troféu prateado, erguido bem alto por uma das atletas, simbolizando a vitória coletiva. Ao redor dela, o grupo transborda alegria: algumas jogadoras gritam de felicidade, outras sorriem abertamente para as câmeras ou usam seus próprios celulares para registrar a eternidade do momento. Atrás do grupo, um grande painel roxo com a marca da competição emoldura a cena, enquanto a fumaça branca das celebrações pirotécnicas preenche o ar, conferindo uma atmosfera épica e vibrante à fotografia. É uma celebração que exala união, força e o orgulho de levar o troféu para casa.
    Time feminino do Fortaleza foi campeão da 1ª edição da Copa Maria Bonita em 2025. Foto: Fortaleza Esporte Clube

    Todo ano de Copa do Mundo, somos convidadas e convidados a celebrar o futebol do nosso país. Trata-se, na realidade, de um movimento comum entre os brasileiros, embora seja claro que esse prestígio se restrinja ao futebol masculino. O samba e o futebol ainda operam como nossos embaixadores culturais e podem ser temas muito pautados – especialmente quando se trata do esporte com a genialidade de Pelé, conhecido como o maior de todos os tempos. Orgulhamo-nos do “rei”, enquanto silenciamos sobre o fato de termos também a maior de todos os tempos em atividade: Marta. Aos 40 anos, ela continua sendo uma força incomparável no esporte, que nem sempre recebe o mesmo valor em nossa identidade nacional.

    O país de Marta é o mesmo em que um time feminino foi desligado em prol de um time masculino que não fez um trabalho bem-feito. No ano passado, o Fortaleza anunciou o encerramento das atividades do futebol feminino (Leoas) para 2026, citando restrições orçamentárias e decisão da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), um modelo de constituição de empresa criado pela Lei 14.193/2021, que permitiu aos clubes de futebol brasileiros migrarem de sua estrutura clássica (associações civis sem fins lucrativos) para um formato de empresa. 

    A ironia é: a medida interrompe a trajetória de uma equipe que, no mesmo ano, foi vitoriosa, conquistando o Campeonato Cearense, a primeira edição da Copa Maria Bonita e o acesso à elite nacional (Série A1). Por que as mulheres seguem pagando pelos erros dos homens?

    Entendo o futebol como algo muito 8 ou 80: ou você ama ou você odeia. Para quem não curte e acompanha, o cenário é o seguinte: no mesmo ano dos títulos das Leoas, o time masculino do Fortaleza disputava a Série A do Brasileirão, a elite. Cair para a Série B é, para o torcedor, semelhante a levar uma facada. Em um ano de 114 pontos disputados, a equipe masculina conquistou apenas 43, nem metade. Um elenco formado por atletas que deixaram a desejar no desempenho ao longo do ano.

    Enquanto eles afundavam o clube, as Leoas faziam história: título do Cearense em cima do maior rival e uma vaga inédita para a Série A1. A gestão escolheu cortar quem vencia para tentar salvar quem só fracassava. Ao menos, o regulamento da CBF prevê que, com a interrupção do feminino, a equipe masculina ficará suspensa por dois anos de competições organizadas pela Confederação.

    Além disso, quando mulheres denunciam essa disparidade de gênero no esporte, são alvos de misoginia e machismo. Foi o caso da jornalista Renata Mendonça, que, em 2025, foi ofendida pelo presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista (BAP), que a chamou de “nariguda da Globo” após ela reportar a precarização da estrutura do futebol feminino do clube.

    Sua denúncia mostrava ao público a péssima situação em que o CT feminino se encontrava, mesmo que, no ano de 2025, o Flamengo tivesse uma folha de pagamento que chegava à casa dos R$40 milhões e registrasse um faturamento anual de R$2,071 bilhões. No entanto, esse valor é investido prioritariamente no futebol masculino, visto que os maiores salários do futebol feminino rubro-negro giram em torno de R$ 50 mil mensais. 

    Renata Mendonça é uma das figuras de maior destaque na luta pela ascensão do esporte feminino e posicionou-se publicamente sobre o caso no programa Sem Censura, da TV Brasil, afirmando que o ataque foi misógino e direcionado à sua aparência, e não ao conteúdo técnico de sua reportagem. Fica nítido, portanto, que as mulheres são atacadas e punidas em qualquer instância do esporte. Seja ao trazer uma denúncia, ao lutar por condições básicas de trabalho ou provar o seu valor em campo, o sistema reage com hostilidade. No fim, o ataque pessoal àquelas que lutam pela causa apenas esconde a incapacidade de muitos, como o caso de Luiz Eduardo Baptista (BAP), em aceitar que o protagonismo feminino não é uma ameaça. 

    Tem quem justifique não assistir ao futebol feminino porque “não é tão bom”. É difícil despertar interesse com investimentos escassos, transmissões raras e horários ingratos. Mas fica o questionamento: por que ver 11 homens, arrastando seu seu time para a Série B para depois ganharem milhões em outro clube (já que com as constantes janelas de transferência, um jogador pode trocar de escudo várias vezes em um curto período, priorizando dinheiro em vez da história) é mais interessante do que ver mulheres jogando um bom futebol e conquistando títulos?

    O problema não é o futebol, é quem joga. As grandes emissoras acabam moldando esse consumo, alterando grades para exibir jogos masculinos desinteressantes em horário nobre, enquanto hesitam em investir nas mulheres. Isso em um cenário onde o futebol feminino vive um momento de popularidade, com 73% de aprovação popular e audiência crescente (alta de 41% na TV Brasil em 2025). A emissora pública é fundamental na luta pela visibilidade da modalidade. Pelo terceiro ano consecutivo, a TV Brasil transmite os principais campeonatos de futebol feminino do país. Essas transmissões estão integradas à estratégia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), gestora do canal, de valorizar o esporte feminino no país, ampliar o acesso das pessoas aos campeonatos e promover a aproximação entre o público da emissora e a modalidade. 

    O Brasil se prepara para sediar de forma inédita a Copa Feminina de Futebol no ano que vem, mas será que estamos prontos? Apesar de a seleção feminina acabar de se sagrar campeã do FIFA Series 2026 com 100% de aproveitamento, não existe valorização. Em contraste, a seleção masculina amarga um jejum de títulos desde 2019, perdida em trocas de treinadores e inconsistência, e ainda sim é endeusada. 

    Diante desse cenário, o critério de valorização torna-se óbvio. Não avaliamos a qualidade do jogo, avaliamos o gênero de quem veste a camisa. Como aponta Silvana Vilodre Goellner (2005), “se tratando de um país como o Brasil, onde o futebol é discursivamente incorporado à identidade nacional, torna-se necessário pensar o quanto este ainda é, para as mulheres, um espaço não apenas a conquistar, mas sobretudo a ressignificar”. 

    Isso quer dizer que, embora o futebol seja um símbolo nacional, ele possui mecanismos que afastam as mulheres, demonstrando a dificuldade com a presença feminina, seja nos campos ou na cobertura. O contexto mostra a urgência na transformação dos significados associados a esse espaço. No país do futebol, a vitória de uma mulher ainda vale menos que o comodismo de um homem.

    Por Marcela Pauline

  • All Her Fault: mulheres e papéis de cuidado

    Lançada em novembro de 2025, All Her Fault é uma minissérie, baseada em livro homônimo, disponível na Amazon Prime Video. A história mostra a vida da família Irvine ao ter seu filho pequeno, Milo, sequestrado; a partir desse acontecimento, a trama segue Marissa Irvine (Sarah Snook) procurando o menino e, principalmente, lidando com o julgamento das pessoas ao seu redor.

    A imagem é um pôster promocional de uma série intitulada “All Her Fault”. O fundo é em tom azul claro, e no centro está o título em letras grandes e claras.

O design é composto por recortes geométricos que mostram diferentes rostos de personagens, como se fossem peças de um quebra-cabeça. À esquerda, há uma mulher loira com expressão séria e preocupada, em destaque. Ao redor dela aparecem outros personagens: um homem parcialmente visível à esquerda, uma mulher loira à direita com olhar intenso, e dois homens na parte inferior direita, todos com expressões tensas ou desconfiadas.

No topo, aparece a indicação “Peacock Original”, sugerindo que é uma produção original da plataforma.
    Pôster de All Her Fault. Foto: Divulgação Peacock Original

    A partir do momento em que a criança desaparece, Marissa é colocada aos olhos da sociedade como culpada; entre julgamentos e acusações, a matriarca da família se vê pressionada pela população e pela mídia, tendo sua vida exposta. No decorrer da minissérie, percebe-se que a trama se utiliza do sequestro como um acontecimento intermediário: o foco principal é expor e questionar o papel que a sociedade espera de mulheres, em especial ao se tornarem mães.

    Integrantes de uma família de classe alta, os Irvine fazem parte da elite socioeconômica. Assim como eles, as pessoas ao seu redor também têm altos padrões de vida, proporcionando aos filhos a experiência de estudarem em uma escola particular de elevada classe social. Nesse ambiente, as pessoas acreditam e operam de acordo com visões patriarcais de família: o pai deve trabalhar para sustentá-los, enquanto a mãe é responsável por criar e educar as crianças. É nesse mundo que Milo, de 5 anos, é sequestrado. Marissa o deixa brincar na casa de Jacob, filho de Jenny (Dakota Fanning); ao buscá-lo, descobre que foi enganada e seu filho nunca esteve com aquela família.

    No decorrer da trama, Marissa se aproxima da personagem interpretada por Dakota Fanning, ambas conectadas pelas pressões da sociedade: enquanto a protagonista da família Irvine tem sua maternidade questionada pelo sequestro do filho, Jenny é julgada por ter contratado a principal suspeita do caso, Carrie, como babá. Juntas, as mulheres enfrentam não só os julgamentos da mídia, mas também familiares, que perpetuam os estereótipos de família tradicional.

    Partindo dessas ideias, é importante analisar como as mães da obra ficcional se conectam com a realidade. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais – 2023, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 2,5 milhões de mulheres não trabalhavam em 2022 para cuidar dos afazeres domésticos e parentes: cenário que também é pano de fundo para a trajetória das personagens femininas de All Her Fault. É importante ressaltar que esses dados não correspondem diretamente à vida das protagonistas, tendo em vista a posição de privilégio social e econômico que ocupam; porém, a minissérie mostra mulheres que, mesmo no topo da pirâmide econômica e social, também sofrem com a pressão de assumir o papel de cuidadora nas tentativas de contrapor as expectativas da sociedade. Mesmo sendo exemplos de carreiras bem sucedidas e mães dedicadas, são alvos de diversos questionamentos de seus ciclos sociais sobre as escolhas de se dedicarem a outra atividade a não ser os filhos, sendo colocadas como negligentes.

    Ao se tornarem mães, mulheres sofrem com a pressão de uma sociedade que perpetua papéis de gênero tradicionais – uma estrutura onde o homem possui o poder concentrado em si mesmo enquanto a mulher deve se tornar cuidadora das crianças e dos afazeres domésticos. Perspectivas como essas são baseadas em versões estereotipadas do que é ser mulher e de família, mesmo com estudos que apontam gênero como uma construção social, independente de sexo. De acordo com a filósofa Judith Butler em Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, “[…] a distinção entre sexo e gênero atende à tese de que, por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é culturalmente construído: consequentemente, não é nem o resultado causal do sexo nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo”. 

    Muito além de um thriller que busca culpados, a trama é um retrato da vida de uma parcela de mulheres, integrantes de um ciclo social majoritariamente branco, hétero, cis e de classe alta; apesar de ser um recorte da sociedade, o problema ressoa em todas as mulheres que, constantemente, são colocadas em papéis de cuidado — até onde o julgamento e as expectativas da sociedade prejudicam sua vida? Como os pais se ausentam da criação dos filhos, muitas vezes até dificultando a rotina familiar? E, principalmente, até que ponto as mulheres aguentam viver em rotinas exaustivas, sendo cobradas e julgadas a todo instante?

    Serviço:

    Título Original: All Her Fault
    Onde Assistir: Amazon Prime Video
    Duração: 8 episódios
    Gênero: Suspense psicológico e mistério
    Classificação Indicativa: 16 anos
    Nossa Classificação: 16 anos
    Justificativa: Violência e temas sensíveis

    Por Maria Vital