No dia 27 de junho, foi transmitida a primeira live da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, ela foi entre as pesquisadoras Heloísa Buarque de Almeida, da Universidade de São Paulo, e Valeska Zanello, da Universidade de Brasília, a conversa foi mediada pela pesquisadora Patrícia Valim, da Universidade Federal da Bahia. A live marca a abertura da campanha #AssédioZero, que foi idealizada pela Rede Brasileira de Mulheres Cientistas e busca caminhos de enfrentamento para esse problema tão profundo que é o assédio dentro do ambiente acadêmico. A proposta da campanha é debater, por meio de lives mensais, acerca desse tema e ao final do ano reunir em um livro esses ensinamentos, reflexões e estratégias pensadas em rede.
A Rede Brasileira de Mulheres Cientistas foi criada no período da pandemia de Covid-19, tempos em que a ciência e pesquisa estavam sendo intensamente desvalorizadas. A rede vem com o intuito de dar mais visibilidade para a produção acadêmica feminina e também atuar em sua defesa. O início deu-se a partir de uma Carta de Lançamento assinada por mais de 3000 cientistas brasileiras. É um trabalho contínuo e árduo, mas que almeja melhores condições de trabalho e vida para todas essas mulheres.
Os atravessamentos na vivência feminina presentes no âmbito acadêmico e profissional – sendo estudantes, docentes ou pesquisadoras – são repletos de abusos de autoridade, machismo estrutural e assédios – coloco aqui no plural pois são incluídos os assédios morais, sexuais e outros –, sendo assim, elas discutem sobre possibilidades de mudança e discussão de casos já existentes. As pesquisadoras ressaltam a desigualdade e hierarquização inseridas dentro desses locais, em que servidores estão acima de alunas e alunos, doutores estão acima de mestrandos e mestrandas e todos os tipos de classificação.
É colocado na live que a universidade nada mais é do que a reprodução do mundo exterior, em que existe o racismo, a misoginia, a LGBTQIA+fobia e tantos outros. Indico aqui a pesquisa Violência contra a mulher no ambiente universitário (Data Popular/Instituto Avon, 2015) com números nos trazem esse alerta:
Heloisa relembra as recentes mudanças jurídicas no assunto tratado aqui , em que estupro, assédio e violência sexual são termos relativamente novos e necessitam de maior entendimento e compreensão não só dentro das instituições de ensino mas em todos os lugares. Inclusive, a Lei responsável por essa pauta acabou de ser alterada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, para instituir o “Programa de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Sexual e demais Crimes contra a Dignidade Sexual e à Violência Sexual no âmbito da administração pública, direta e indireta, federal, estadual, distrital e municipal.” – confira a legislação completa aqui. Na live, Heloísa relata os casos na USP em que alunas a procuraram em busca de ajuda, também por conta da rede universitária “Não Cala USP”, em que professoras se mobilizam para ajudar em situações de assédio dentro da universidade.
Os casos dessa natureza tornam-se nebulosos por conta da falta de compreensão do que é abuso de fato, se aquela situação é agressiva e/ou ameaçadora ou se é “somente paquera”. No entanto, um ponto essencial é a relação de desigualdade de poder, em que as alunas ficam coagidas por seus professores e orientadores a realizarem aqueles pedidos indiscretos e até mesmo aceitar convites impróprios por conta da possibilidade de serem prejudicadas academicamente. Outro ponto é a dificuldade em aceitar que está sendo vítima de um assédio, justamente por pessoas que – possivelmente – costumávamos admirar.
No entanto, a normalização desse tipo de comportamento é algo comum na esmagadora maioria das experiências, em que o assédio é praticado na frente de uma sala de aula cheia e a resposta é a risada dos colegas e uma aluna envergonhada. Esse é um exemplo de caso que se repete e torna-se modus operandi dos agressores, que é praticar a violência na vista de todos e agir com naturalidade, fazendo com que o episódio não seja visto de forma negativa e sem que haja punição.
O que as pesquisadoras colocam como prioridade na conversa é a necessidade urgente da formulação de protocolos para lidar com esses casos e sua institucionalização, na qual práticas comuns deveriam ser aplicadas para punir os agressores e assediadores. Porém, a responsabilização dos assediadores entra em um âmbito complicado que é a mobilização acadêmica acerca do assunto, já que são professores concursados e, muitas vezes, com prestígio profissional.
Esse embate acontece, por exemplo, dentro de conselhos universitários, em que essas pessoas têm influência e poder, e portanto, são “intocáveis”. A virada de chave necessária é tirar o lugar de normalização desse tipo de prática, mas como?
As professoras citam alguns caminhos de solução, como no período de estágio probatório – é o processo que visa a aferir se o servidor recém-concursado possui aptidão e capacidade suficientes para o desempenho do efetivo – inserir formações contra o assédio e violência de gênero. Dessa forma, não há espaço para a justificativa de “eu não sabia que estava cometendo assédio!”. Isso facilita a responsabilização e a eficácia das possíveis punições. Já que, com a existência de uma cartilha – outra possibilidade falada por Valeska e Heloísa – essas regras já estariam colocadas.
Serviço:
Título da Live: “Pelo fim da cultura do assédio no ambiente acadêmico”
Participantes: Patrícia Valim, Heloísa Buarque de Almeida e Valeska Zanello.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Zf_vciEZRsg
Minha classificação : A live aborda temas difíceis e sensíveis, com representações de violência e assédio. Não é indicado assistir com crianças. Contém representações machistas.
Por Lia Junqueira
