
Era manhã de uma quarta-feira e eu estava indo para o ponto de ônibus quando fui abordada pelo seguinte aviso: “Não corre que eu vou te pegar!”. Essa frase me paralisou e, quando olhei, era um homem alto, em cima de uma bicicleta mexendo em sua mochila. Antes que pudesse raciocinar, corri desesperadamente e gritei por ajuda, quando, outro homem que passava pela rua disse: “Vem comigo!” Eu fui.
Não pensei nem por uma fração de segundo – que mais pareceram horas –, mas concluí que precisava sair dali o mais depressa possível, não importava com quem e como. Corri alguns quilômetros até chegar em terra firme, pois o que aconteceu tinha sensação de afogamento. Ficou tudo bem no final das contas, mas nunca mais fiz esse caminho.
Será que ficou tudo bem mesmo? Já que nunca mais consegui fazer esse caminho, fiquei com dores musculares a semana inteira por conta da tensão e receosa de andar sozinha por qualquer rua daquele bairro. O medo me paralisou e me privou de andar livremente. Não foi só comigo, uma colega acabou de passar por isso, agora em 2023.
Ela estava voltando do almoço, plena tarde em Mariana, quando viu um homem encostado num barranco, sem camisa. Sem óculos, ela não identificou os movimentos que aquele cara estava fazendo. Quando se deu conta, viu que ele estava se masturbando e, como se fosse uma mensagem instantânea de seu cérebro, correu para longe dali. Era o caminho de todos os dias para sua casa, o caminho mais rápido, que ela nunca mais fez.
Meu caso foi em 2019, o dela, no mês passado, junho de 2023. Os casos aconteceram em cidades e estados diferentes, o primeiro na cidade do Rio de Janeiro, o segundo em Mariana. Apesar de termos muitas diferenças, de idade, de estado, de situação, temos também aspectos em comum. O que esses casos fizeram conosco foi nos privar de utilizar um espaço público por causa do medo. Medo de ser surpreendida novamente pelo mesmo assediador, medo de outros, medo desse homem saber onde eu moro e entrar. É como se o medo pautasse tudo que fizéssemos a partir dali.
A sensação de desalento, por exemplo, é um ponto que nos liga diretamente. É como se nossos corpos e nossas existências pudessem ser invadidas por qualquer um, a qualquer momento. Eu tinha 15 anos nessa época e estava indo para a escola, pelo caminho mais próximo. Era óbvio que eu já andava depressa e não ficava “dando bobeira”, afinal eu sabia que aconteciam assaltos por ali, mas esse episódio me mostrou que não importava o quão precavida eu era, não era o bastante – nunca é.
O caso de assédio em Mariana é um pouco diferente, pois, como ressalta a estudante, “é um lugar tranquilo, que estamos acostumadas a andar sem medo, voltar de rolê e realizar nossas atividades”. E, por isso, não imaginava que poderia acontecer nesse ambiente tão familiar, afinal, era seu caminho para casa. Infelizmente ela não foi a única, e nem será a última, a sofrer esse tipo de abuso em um caminho comumente utilizado por estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, que tem colecionado uma série de acontecimentos como esse aos arredores de seus campi.
Na imagem do início desse texto, a frase em destaque é: “ATENÇÃO! Aviso importante! Não passe sozinho pelo caminho das Moitas.”. O caminho é o que liga o campus ICHS até a moradia estudantil, popularmente chamada de “Moitas”. Mas, para quem é esse alerta? Ele se diz universal, direcionado a todos aqueles que realizam esse caminho, mas tem um recorte muito específico: as mulheres que passam por ali. E esse é um dos pontos principais que liga meu relato com o da UFOP: somos avisadas, impedidas e aconselhadas por pessoas próximas a não realizar mais os mesmos caminhos, aqueles em que sofremos assédio.
Mas quem deveria parar de frequentar um ambiente público sou eu, ela e tantas outras mulheres ou alguma medida de segurança e acolhimento das vítimas deveria ser tomada? Nos diversos casos de Mariana, foram pessoas ligadas à universidade que relataram esses abusos e, ainda sim, nada mudou. Aliás, mudou: foi colocado um cartaz dizendo para não fazer o caminho sozinha, ou seja, nos privando de exercer um direito básico de ir e vir. Importante lembrar que quando nossa única motivação para estar inserida em uma cidade é a Universidade em que estamos, é dever dela nos garantir segurança dentro e fora dos portões.
Em “Mulheres em viagens: limiar entre a experiência de liberdade ao medo da violência de gênero”, Jaqueline Lemos realiza uma reflexão sobre essa garantia da mobilidade, relacionando algumas escritoras viajantes famosas como Nellie Bly, Nísia Floresta e Soledad Acosta de Samper com os perigos de ser uma mulher trafegando sozinha pelo mundo. Um trecho que gostaria de destacar é:
“O mundo é perigoso para mulheres viajantes? Ou seria perigoso para as mulheres em qualquer situação, inclusive dentro de casa ao lado de pessoas conhecidas?”
Estar no mundo sendo mulher não é fácil, temos medo o tempo todo – às vezes mais intensamente, após passar por episódios como esses. Esse medo paralisa, dói e nos cerceia de atividades tão comuns como voltar para casa por aquele caminho cotidiano. No entanto, precisamos de atitudes das universidades, das prefeituras e de qualquer outra instância possível: não dá mais para responder com um cartaz, não dá mais para mudar um caminho, é preciso ação.
Por Lia Junqueira
