Autora do livro A vida nunca mais será a mesma, a jornalista Adriana Negreiros conversa com o Ariadnes sobre violência contra mulheres, um projeto de jornalismo informado pelos feminismos e as dificuldades de produzir uma obra jornalística sobre uma experiência que ela compartilha com as personagens: a violência sexual.
Na obra, além de narrar sua história e a de outras mulheres, ela traça um panorama histórico que envolve legislação, Judiciário e política para demonstrar que, longe de ser um acontecimento individual, o estupro diz respeito a toda a sociedade.

Queria começar perguntando como você chegou nas histórias que você narra no livro, naquelas personagens?
Eu fiz um trabalho mesmo de investigação jornalística, de técnicas do jornalismo, pra encontrar aquilo que a gente chama nas redações de personagens, considerando o livro como uma grande reportagem. Estabeleci como um dos primeiros passos encontrar personagens que contassem aquela história para além da minha. Comecei a fazer a garimpagem de uma forma convencional para uma repórter. Na época eu tinha tido muito contato com grupos de leituras de mulheres e de livros escritos por mulheres, por causa do meu livro anterior [Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, de 2018].
E aí eu sabia, porque havia participado de alguns encontros, que, para além de discutir o livro em questão, havia uma espécie de terapia coletiva que acontecia ali. Especialmente porque Maria Bonita lidava com muitas questões íntimas, como violência sexual. Nesses encontros isso acabava por despertar nas participantes uma necessidade de contar essas histórias. Então um primeiro passo que adotei para encontrar os personagens foi pedir às organizadoras desses clubes de leituras que dissessem nos encontros que eu estava fazendo um livro sobre violência sexual e gostaria de ouvir histórias. A partir daí eu já consegui alguns personagens.
O segundo método foi perguntar para as pessoas conhecidas se conheciam alguém que estivesse disposto a contar essa história anonimamente. A partir daí consegui pelo menos uma personagem. E um terceiro caminho que adotei foi utilizar as redes sociais. Na época eu tinha um perfil no Facebook, escrevi que estava fazendo uma pesquisa sobre violência sexual e gostaria de ouvir mulheres, e assim também eu consegui outras histórias. Quando eu tinha um conjunto de histórias que não eram similares, que cada uma delas contava uma perspectiva da violência sexual, reuni essas histórias, as personagens que eu achava que eram as mais significativas, e comecei a fazer as entrevistas.
Claro que no processo de garimpar eu recebi muito mais ofertas de relatos do que pude usar. Tinha histórias que não eram exatamente aquilo que eu queria contar ou o que aconteceram num marco temporal que não pretendia abordar. Selecionei as que eu achava que diziam a respeito à história que eu pretendia contar.
Você tem mais ou menos noção de quantas mulheres chegaram a você?
Foram muitas. Até fiquei surpresa, foi muita gente. Especialmente quando eu coloquei no Facebook, porque tinha um alcance maior, muita gente me escreveu. Eu diria que 90% de mulheres. Houve também homens que me escreveram para contar que haviam sido vítimas de abuso sexual. Mas eu meu foco eram as mulheres, né? Então não fui adiante nessas conversas com os homens.
Tive que reduzir para um terço, talvez um quarto, do que tive de retorno e o que efetivamente utilizei no livro. Quando eu comecei a pesquisa pensei ‘Vai ser muito difícil encontrar quem queira contar a história’. E depois a dificuldade era filtrar aquelas que eu achava que tinham a ver com o livro. E também dizer para as pessoas que haviam se oferecido pra contar as histórias que infelizmente não poderia utilizar. Mas aconteceu o inverso do que eu imaginava, tive mais personagens do que eu tinha espaço para contar as histórias delas.
Imagino que não tenha sido um processo fácil entrar em contato com todas essas narrativas que chegaram para você.
Escrevi esse livro no auge da pandemia. Eu morava em Portugal e a gente estava bem confinado mesmo. Então foram nove meses do começo, do momento em que decidi escrever o livro, até entregar para a editora. Nove meses que eu não saía de casa, e fiquei muito absorvida pelas histórias. Foram nove meses assim, bem pesados, em relação aos temas.
Eu passava o dia inteiro envolvida com essa pesquisa. Os dias em que tinha que fazer as entrevistas eram os piores, porque eram relatos muito, muito complicados de ouvir. Muitas vezes, as personagens não conseguiram contar de primeira o que havia acontecido, elas pediam para que a gente conversasse depois, em outro momento, para que elas pudessem se recompor.
Todas as conversas, exceto uma, foram virtuais, por causa da pandemia e porque eu estava em Portugal. Uma das personagens por acaso morava em Portugal, uma brasileira que havia se mudado para lá, e com ela consegui conversar pessoalmente. Todas as outras foram virtuais, e foram conversas muito difíceis.
Tinha a dificuldade que era fazer a entrevista e a dificuldade maior, que era depois transcrevê-las. Eu ficava ouvindo aquilo com muito mais detalhes e também me questionando se havia sido correta o suficiente para abordar aqueles casos com as personagens. Esse processo era muito mais complicado. Realmente não foi fácil, mas foi o que deu para fazer.
Quando você se preparou para as entrevistas, você usou algum manual, de como conduzir entrevistas com perspectiva de gênero ou usou mais sua experiência como jornalista?

Foi mais a minha experiência como jornalista mesmo, porque entrevista é o que nós jornalistas fazemos o tempo inteiro, então obviamente eu já tenho uma certa conduta que utilizo nas entrevistas que utilizei também para esse livro. Mas havia uma diferença fundamental em relação às entrevistas que sempre fiz como jornalista: é que eu estava numa posição diferente. Todas as entrevistadas sabiam que eu contaria no livro a minha história, que eu tinha passado por aquilo que queria ouvir delas. Isso já estava dado desde o começo, e já me colocava numa posição diferente do jornalista convencional que vai ouvir uma história que não conhece ou pela qual jamais passou.
Então todos os nossos padrões de objetividade e de distanciamento, todos os meus padrões foram colocados em xeque, porque a minha posição naquela relação era diferente da que eu usualmente tenho quando vou entrevistar alguém. É de muito mais proximidade. E quando eu disse isso para todas as entrevistadas, já se estabeleceu uma relação de cumplicidade entre mim e elas que foi fundamental para que a história corresse de forma mais fluida. É uma cumplicidade que nós jornalistas sempre procuramos criar com o entrevistado para que a entrevista renda. Mas nesse caso nem precisei de um esforço muito grande para isso porque a cumplicidade já estava dada, desde o começo.
Também tinha outro aspecto que diferenciava das entrevistas convencionais que é o fato de que eu não tinha como fazer uma pesquisa prévia sobre a entrevistada. Eram figuras anônimas sobre quem eu não sabia nada, exceto uma que eu conhecia. O que eu dizia era ‘Me conte sua história’, já no começo. Não tinha uma pauta pré-definida de perguntas, tinha perguntas genéricas que fazia a todas. Basicamente os temas que me interessavam no livro: a história em si, obviamente, e especialmente como essas mulheres passaram a lidar com o medo.
O medo era um componente muito importante para mim no livro, e os impactos que aquilo teve na vida dessas mulheres, na sequência. Como elas conseguiram levar suas vidas após a violência sexual. Tinha uma metodologia que era intuitiva, mesmo, e com essas diferenças em relação a uma entrevista convencional.
Você falou dessa questão dos critérios de objetividade… O tipo de projeto a que você se dedicou não é muito convencional no jornalismo. E, além disso se refletir nas entrevistas, como você explicou, como foi escrever em primeira pessoa parte considerável do livro? Em relação à posição normal do jornalista, que não está tão dentro do que está narrando?
Eu sabia que não tinha como ter um distanciamento daquela história por um motivo óbvio, né? Quando eu pensei no projeto do livro, não tinha pensado em contar minha história logo no começo. Eu tinha pensado em fazer um livro sobre a cultura do estupro, um livro reportagem sobre estupro no Brasil.
Eu agi dessa maneira porque é assim que nós jornalistas costumamos fazer. Nós nos distanciamos daquilo que pretendemos narrar. Aí comecei a pensar que devia procurar personagens, e no meio dessa reflexão sobre qual seriam os caminhos do livro, eu pensei ‘Bom, mas a personagem cuja história eu conheço melhor é a minha própria história. Talvez não faça sentido eu abrir mão dessa história em nome de uma suposta objetividade jornalística’.
Um aspecto que me fez pensar sobre tudo isso foi o meu encontro com as teorias feministas, porque na epistemologia feminista existe uma grande valorização da experiência, dos relatos em primeira pessoa, contrariando toda aquela ciência positivista, aquela ideia de que o sujeito e objeto não podem se confundir. Então eu já estava muito contaminada por essas teorias feministas que valorizam a experiência.
Isso me fez pensar que talvez fosse valioso eu contar a minha história, juntando um pouco do jornalismo com o feminismo, com a teoria feminista. Isso me levou a me assumir como personagem. Mas num segundo momento, depois que decidi que ia contar a minha história, pensei que ia ficar esquisito, do ponto de vista estilístico, uma narrativa em primeira pessoa e depois uma narrativa em terceira pessoa. Pensei ‘Como é que eu vou juntar isso para que fique coerente no livro?’.
Então comecei a escrever me tratando como uma terceira pessoa. Eu tinha decidido que não ia revelar quem as personagens eram, mesmo que elas quisessem, porque quando elas contam essas histórias, não contam apenas as histórias delas, mas as de muitas outras pessoas envolvidas, e seria muito complicado lidar com tanta gente envolvida. Pedi a elas que escolhessem um nome que as remetessem à infância. Eu também havia escolhido um nome para mim, Andreia, porque era como eu deveria me chamar, mas depois acabei me chamando Adriana.
Comecei a contar a história da Andreia, e mandei para minha editora os primeiros capítulos. Ela leu e disse ‘Olha, Adriana, se você não quiser falar que é você, não tem problema nenhum, mas acho que dá para a gente encontrar um caminho’. Porque a minha intenção era ao final do livro, no epílogo, dizer que Andreia era eu, mas a minha editora achou que ficava esquisito. E realmente ficava esquisito, porque eu falava coisas sobre mim que só poderia saber se fosse eu, como pensamentos, esse tipo de coisa que eu não tinha como obter a partir de uma entrevista.
No terceiro momento eu reescrevi esses primeiros capítulos como Adriana, em primeira pessoa, e foi muito melhor, porque fiquei muito mais à vontade e acho que o livro acabou ficando muito mais interessante. Também acabei encontrando uma maneira de não ficar esquisito do ponto de vista da narrativa, separando em blocos o que era minha história e o que era a história das outras personagens, de maneira que o texto não ficasse confuso.
Estava certa de que naquele livro, por todas as circunstâncias, por mais que eu tentasse narrar a questão legal, a questão política que está relacionada à violência sexual, da forma mais objetiva possível, claramente ali eu era um sujeito entranhado na história.
O que a gente aprende nos estudos feministas não pode ser desvalorizado, do personagem com seu conhecimento situado. Tanto que a epígrafe do livro é uma citação da Donna Haraway, uma feminista que fala muito sobre o lugar do sujeito como produtor de conhecimento. [Fiz isso] Certa também de que a minha experiência era valiosa para que a gente pudesse refletir a respeito daquele tema.
Numa entrevista que a Adriana Ferreira da Silva fez com você e Débora Diniz, você fala que a decisão de coletivizar essas histórias tinha a ver com a postura feminista de que o pessoal é político, de que a violência não é apenas algo que acontece isoladamente com as mulheres. De que outros modos o feminismo informa o livro? Há nele outras pistas do seu encontro com o feminismo?
Pois é, junto com a experiência, certamente a premissa fundamental desse encontro entre o jornalismo e feminismo é a ideia de que a minha história não era uma história individual. A nossa tendência no jornalismo é contar casos, de tais personagens, dando às vezes a impressão de que aquelas histórias são muito pontuais. E no caso da violência sexual, o que acontece é que geralmente as histórias são contadas quase como um exoticismo.
Uma mulher que foi estuprada, às vezes ela vai para o noticiário quase como se fosse um uma mulher vítima de um raio, como se fosse algo muito raro de acontecer. A gente percebe muito isso no noticiário sobre violência sexual. Quando eu decidi contar a minha história e a história de outras mulheres, a ideia era exatamente mostrar que eram histórias individuais mas que contavam uma história maior, coletiva.
Se a gente pegar os números sobre estupro no Brasil, os dados são assustadores. É de fato uma epidemia de violência sexual. Nesse sentido, a escolha por contar a minha história e de outras mulheres, muitas delas bem diferentes de mim, era identificar esse aspecto coletivo da violência sexual.
Ainda no meu encontro com o feminismo, há uma autora, acho que é a Iris Marion Young, que fala muito sobre essa relação do público com o privado e como a gente aprendeu ao longo da história que o espaço de segurança da mulher é o espaço da intimidade, da privacidade.
Isso que faz com que as mulheres sejam colocadas na esfera privada e não ocupem os espaços públicos do poder. Ao longo do livro, algo que ficou muito claro a partir das histórias das personagens é que o espaço da intimidade é que é o espaço de perigo para muitas mulheres. As estatísticas também mostram que a maioria dos casos de abuso sexual ocorre dentro de casa, tendo como algozes pessoas muito próximas.
Então eu diria que a teoria feminista tem sido para mim um guia para que eu possa contar uma história. Foi bastante nesse segundo livro e foi também no Maria Bonita. Acho que não existe uma metodologia feminista, ao modo da ciência tradicional, não existe um método cartesiano pra gente aplicar na produção desse conhecimento, mas acho que existe uma ética feminista que nos conduz ao longo de uma investigação. O fato de eu ser uma mulher feminista faz com que eu conte o livro de uma maneira diferente do que se eu fosse um homem. Certamente a história seria outra.
Esse encontro com o feminismo inclusive é o tema do meu projeto de doutorado. Estou investigando se existe uma metodologia feminista para contar histórias de vida de mulheres e parto da hipótese de que não há, que na verdade há essa ética feminista, que nos conduz e que faz com que a gente tenha um olhar diferente sobre algumas questões.
Também é uma aproximação muito grande com jornalismo, porque o que a gente faz no jornalismo é sempre procurar os ângulos cegos de uma história. Contar uma história de um jeito diferente, como ninguém nunca contou. Se a gente se guiar pelo feminismo a gente vai contar todas as histórias por um ângulo diferente, porque as histórias sempre foram contadas pelo ângulo que os homens viam, não pelo ângulo que as mulheres viam.
É um livro pós #MeToo, inclusive nele você fala sobre o movimento e como ele abala um pouco a opinião pública. Você acha que tem impactos do #MeToo ou da reverberação do movimento na existência do livro e depois na circulação, na recepção dele?
Acho que sim. Acho que esse livro só foi possível por causa da popularização do feminismo, quando houve um espaço para que as mulheres pudessem contar sobre as violências que sofreram e um espaço de acolhimento para essas histórias. Acho que o #MeToo e todos os movimentos para que as mulheres quebrassem o silêncio nessa década, como a campanha #meuamigosecreto, incentivaram muitas mulheres, inclusive famosas, a contarem as histórias que haviam sofrido. A diferença é que o acolhimento era diferente, pela própria força dos diversos feminismos que se mostravam a partir dali. Uma força que muitas vezes era midiática, né? Claro que há muita apropriação do feminismo por parte do capitalismo, mas de certa forma a gente encontrou um terreno de acolhimento para que essas histórias fossem ouvidas e não fossem necessariamente ridicularizadas.
Isso incentivou a mim também. O meu caso ocorreu em 2003, eu já era jornalista e era uma história que eu podia ter contado há muito mais tempo. Mas só me senti validada para contá-la agora, tanto tempo depois. E certamente foi o meu encontro com o feminismo que me deu força para fazer isso. Não fosse o feminismo, eu jamais iria contar essa história, porque sei que ela não teria o mesmo acolhimento, que eu seria ridicularizada, que alguém poderia dizer que foi culpa minha, que eu tô fazendo drama com algo que partiu de mim.
Todas essas questões que a gente tem discutido nos últimos tempos fazem com que a gente tenha mais espaço. Não à toa, junto com meu livro houve uma série de outros livros que tratavam do tema, tanto na ficção quanto na não-ficção. Isso não é um uma coincidência, é um sinal do espírito do tempo.
Você falou no começo da entrevista sobre a questão do medo. E no livro você narra outros episódios em que houve gatilhos, até na apuração do Maria Bonita. Relatar publicamente desse jeito sua história teve um efeito também subjetivo pra Adriana, enquanto uma mulher que sofreu uma violência sexual?
Sim. Percebo que sim. Eu publiquei Maria Bonita, meu primeiro livro, e morava aqui em São Paulo. E Maria Bonita me deu muitos insights sobre a questão da violência sexual. Não à toa, e uma prova de que o feminismo está certo, quando eu contei a história da Maria Bonita, a violência era um elemento central. Acho que meu inconsciente foi me guiando ali, porque até então quando se falava sobre as cangaceiras, esse era um assunto secundário, quando muito, porque nem se mencionava, era algo que nem estava ali no escopo das discussões sobre o cangaço, a violência sexual a que as cangaceiras haviam sido submetidas. O livro ficou muito concentrado nisso, e na sequência eu assinei um contrato para escrever outro livro, em que ainda tô trabalhando, mas sempre pensando ‘Puxa vida, tem essa história do estupro, isso merece um livro’.
Eu só bati o martelo de que ia escrever esse livro depois de uma conversa com minha editora, mas quando eu já morava em Portugal. Fui para lá em 2018 e, numa viagem que fiz ao Rio, me encontrei com minha editora e decidi escrever o livro. Acho que o fato de estar longe do centro dos acontecimentos, de onde eu tinha sido violentada, fez com que eu tivesse mais coragem para escrever o livro.
Eu tinha uma série de medos. Eu tinha medo de encontrar o agressor, de ele já ter sido solto, ou de reviver aqueles cenários, de acontecer de novo. [Em Portugal] Eu estava num espaço que julgava protegido. E acho que era, de certa forma, era uma cidade pequena, onde eu tinha tudo mais ou menos sob controle. Foi muito importante para mim escrever o livro naquele espaço de segurança. Me deu muito mais coragem, e uma série de medos que eu carregava comigo aqui em São Paulo já não tinha lá. Por exemplo, eu ia para o supermercado de carro e achava que nada ia me acontecer, ia ao shopping center, dirigia e não ficava olhando para todos os retrovisores.
Coisas que parecem banais, mas faziam muita diferença na minha rotina. Passei quatro anos morando em Portugal. Lancei o livro e fui fazer outras coisas da vida e, no final do ano passado [2022], decidimos voltar. Quando a gente falava em voltar, eu pensava ‘Puxa vida, lá vou eu viver com medo de novo’, e isso me aterrorizava muito. Retornamos para São Paulo e eu noto agora que essa é uma questão que já não é só minha. Já falei tanto sobre isso, já compartilhei tanto essa história e já discuti tanto, já falei tanto sobre esse medo, que essa nova vida é mais suave nesse aspecto do que era antes.
O medo, o pavor que eu tinha, que era muito constante, era aumentado por eu manter um segredo. Era como se eu tivesse um medo que não podia explicar para as pessoas de onde vinha. Quase um medo irracional. Quando eu consegui compreender, após escrever o livro, discutir muito a respeito, nas entrevistas e nas conversas que sempre ocorrem, fui me dando conta de que esse medo não era à toa. Consegui racionalizar um pouco mais.
Acho que hoje eu faço coisas que não fazia antes de me mudar do Brasil. Já consigo ir ao supermercado sozinha, por exemplo, e ir ao estacionamento sem tem que pedir sempre pra um segurança me acompanhar até o carro. Parece um exemplo banal, mas para mim é muito relevante. Acho que tô muito mais apaziguada. Eu sei que o perigo existe, que tá à espreita, mas me sinto mais no controle da situação do antes. E certamente o fato de eu ter escrito livro e ter falado sobre isso, de não ser mais um segredo que eu carregava, para mim teve grande valia.
E tem outro aspecto que é interessante. Antes de escrever o livro, sempre que alguém falava sobre violência sexual eu ficava incomodada, até vermelha. Eu não entendia porque ficava assim, porque as pessoas nem sabiam o que aconteceu comigo. Eu achava que de alguma maneira a pessoa estava invadindo um segredo que eu tinha. Depois que publiquei o livro, deixou de ser segredo e já não me constranjo mais com essa com essas referências. Certamente isso tem a ver com esse processo de cura pela fala ou pelo relato.
Ainda nessa linha, o que se fala muito sobre esses eventos traumáticos, como a violência sexual ou violência doméstica, é que são muito lacunares, porque a memória eventualmente fica bloqueada, você se lembra de partes, não se lembra de outras. Quando você foi costurar isso narrativamente, como você lidou com essa tensão de uma tendência do jornalismo a contar histórias completas, que façam um sentido, que não tenham furo?
A meu favor, eu tinha o fato de que na época do crime eu precisei escrever e-mails para a minha advogada contando o que tinha acontecido. Foi até sugestão dela, que disse ‘Olha, como você é jornalista, vai ter mais facilidade em escrever a história do que me contar. Você vai escrever com todos os detalhes que puder’, porque são muito importantes para o trabalho dos advogados. Eu recuperei esses e-mails que tinha enviado, que eu já não tinha mais e ela tinha nos arquivos do processo.
Só reli esses e-mails quase 20 anos depois, não lembrava de muita coisa. Quando você lê, revive tudo aquilo. Estava quase escrevendo uma matéria quando contei o que tinha acontecido comigo, pela riqueza de detalhes, quase uma tentativa de me distanciar um pouco. Tinha até um certo cuidado com o texto na hora de escrever os e-mails, o que parece meio esquisito, porque afinal de contas era uma situação traumática, mas talvez fosse uma forma também de encontrar um distanciamento, né? Como se aquilo não tivesse acontecido comigo, como se estivesse contando a história de outra pessoa.
Esses documentos me ajudaram muito na reconstrução da história e também outras coisas, como agendas da época, trocas de e-mails com outras pessoas. A partir daí fui fazendo uma investigação jornalística sobre o meu próprio caso e uma coisa vai puxando a outra, vai fazendo lembrar. Naturalmente, também tem muita edição da memória, né? Waly Salomão fala que a memória é uma ilha de edição. Mas é uma história que eu construo a partir do meu passado e também muito a partir do que consigo reconstruir. Eu não tinha a pretensão de produzir um documento objetivo, no sentido de ser absolutamente indubitável em relação a qualquer questão, porque a gente sabe como é a nossa memória. Mas fiz um esforço muito grande para contar a história, entre muitas aspas, como aconteceu, ou seja, como ser fiel aos fatos.
E algumas lacunas são apresentadas no livro, tem coisas que realmente não me lembro, não tenho como reconstruir e eu digo isso. Por exemplo, no dia em que fui fazer o B.O. na delegacia, não tenho nenhuma lembrança. Lembro de poucos detalhes e o que eu conto é a partir do próprio B.O.: o horário, quem me atendeu e tudo mais. No livro eu digo que só posso contar porque eu tenho o B.O. Não lembro de nada do que aconteceu naquele dia. Não sei se me sentei, se tomei água, café, nada.
No caso da das personagens, eu adotei a mesma estratégia. Contei a história a partir da lembrança delas, da memória delas. Elas eram as minhas fontes, e também havia lacunas que elas não conseguiam preencher, e essas lacunas estão devidamente apresentadas, e pontos que não se conectam. Porque isso também é uma informação muito relevante.
No caso da violência sexual há uma tendência do Judiciário de tentar exigir da vítima que ela conte a história sem nenhuma contradição, como se ela fosse uma testemunha privilegiada e distanciada daquele fato, e não um sujeito envolvido naquela situação de violência, e portanto sujeita a todos os traumas e a todos os esquecimentos decorrentes.
Isso também foi usado contra mim, porque o processei o shopping center onde fui sequestrada e os advogados do shopping tentavam desclassificar o meu depoimento com base em eventuais falhas ou com base estereótipos. Por exemplo, eles tinham a ideia de uma vítima de violência sexual ensanguentada, sangrando ou com olho roxo, roupas rasgadas, e usavam isso contra mim: ‘Mas ela tava com as roupas recompostas, ela não estava chorando, tava com boa aparência’. Teve até um segurança do shopping ou uma enfermeira, isso está no nos autos do processo, que diz ‘Ela estava nervosa, mas nem tanto’, também reforçando os estereótipos de que a mulher necessariamente tem que estar aos prantos ou descabelada depois. Tanto as lacunas, quanto esses estereótipos, quanto a idealização da vítima e a idealização do agressor, procurei deixá-los bastante evidentes no livro.
Por Karina Gomes Barbosa
Livro: A vida nunca mais será a mesma, 2021
Editora: Objetiva
Gatilhos: estupro, violência doméstica, violência contra mulheres.
