Eu navegava no antigo Twitter na última segunda-feira, dia 23 de outubro, poucas horas após o ataque a tiros à Escola Estadual Sapopemba, no qual um jovem de 16 anos matou uma estudante de 17 anos e feriu outras duas – um estudante se machucou na fuga. O assunto dividia espaço com a tradicional pauta da minha bolha na rede social – frivolidades, virais, política, notícias, vídeos de animais, até que me deparei com uma imagem do site jornalístico Metrópoles: era um frame (um quadro, uma captura de tela) do vídeo do ataque. A cena mostra o atirador de costas, vestido de preto, encapuzado. Ele aponta a arma para a cabeça da estudante, de costas para ele, enquanto descia uma escada.
Após uma escalada recente desse tipo de massacre no país, o jornalismo foi instado a tomar algumas decisões nesse tipo de cobertura, embasadas por estudos especializados. Uma delas é não divulgar o nome do assassino, pois a notoriedade costuma ser um dos objetivos deles. Outra é não exibir imagens ou vídeos dos momentos dos ataques ou dos corpos das vítimas. Além da revitimização brutal das famílias, há a profanação desses corpos inocentes.
Daí meu espanto, horror, abjeção a essa imagem escolhida pelo Metrópoles para ilustrar o post (e o texto da matéria). Enquanto escrevia este texto, cliquei novamente no link e o post foi excluído. As imagens que agora constam na reportagem são da polícia na frente da escola e do prédio da instituição. Contudo, um vídeo perturbador de uma briga na escola anterior ao ataque, que contaria com o envolvimento do adolescente, continua lá (com o aviso de imagens fortes e imagens borradas).
A conta do Metrópoles no ex-Twitter tem 1,9 milhão de seguidores. Não é possível saber quando a imagem foi excluída, quantas pessoas a viram na rede ou no site do veículo. Eu a vi. E, desde então, ela ressurge e ressurge de modo fantasmático, me assombrando como o tiro que não vi, mas sei que estava lá.
No ensaio O alcance do luto, sobre o conflito na faixa de Gaza, a filósofa Judith Butler escreveu recentemente que “a violência que vemos é a única que conhecemos”. O Metrópoles pode dizer que não exibiu os tiros, que não havia sangue na imagem; que era apenas um instante anterior. Nada disso exime o veículo pela insistência em nos oferecer imagens de uma violência que conhecemos profundamente, cotidianamente. Pelo noticiário, pelas redes, pelas séries, pelos filmes.
Meninas são mortas todos os dias no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, 16,1% das vítimas de feminicídio no país têm até 24 anos. Nos demais tipos de homicídios, as meninas somam 30,7% das vítimas. Em um processo de retroalimentação perverso, a mídia nos exibe essas meninas mortas, mas também mata meninas todos os dias. Vítimas preferenciais de seriados policiais, filmes de horror, corpos de meninas violentadas estão em contínuo display midiático.
Por isso, a perspectiva de que a violência não estaria ali, naquela imagem, é enganadora. Não há tiro ou sangue, mas há ali um homem apontando uma arma para um corpo feminino, que não tem nenhuma possibilidade de reação (uma cena a que já assistimos vezes demais).
Mais do que isso: nenhuma de nós precisa ver o tiro; por conhecermos intimamente essa violência, já sabemos do porvir daquela imagem, fabulamos o disparo e tudo que virá/veio com ele. O jogo entre ver/fabular aqui é cruel e não aponta para nenhuma saída além ou fora da violência.
Assim, a violência dessa imagem pretensamente inócua atinge novamente Giovanna Bezerra, sua família. Me atinge como mãe, pesquisadora, mulher, feminista. Nos atinge continuamente pela banalidade com que um corpo-a-ser-morto de uma menina é circulado nas redes sociais.
Qual seria a explicação para a escolha desta imagem? Que critérios teriam sido usados para exibir aquele frame, aquela cena carregada de violência misógina, em uma reportagem e nas redes sociais? As dificuldades do fotojornalismo contemporâneo em produzir (ou selecionar) imagens que deem conta da complexidade desses eventos violentos são evidentes, mas certamente não podem ser contornadas por saídas fáceis como o congelamento de uma imagem que contém uma expectativa de morte.
Se o jornalismo não quer fazer parte desse circuito escópico que nos dá a ver violências em série contra meninas, é preciso um gesto veemente de recusa desse tipo de imagem em nome da ética jornalística, da afirmação da potência de vida para essas meninas, do compromisso com um luto digno a esses corpos.
Por Karina Gomes Barbosa
