Quem são as meninas que estão na moda?

Montagem sobre imagens de divulgação

Dia desses a Folha de S.Paulo anunciou que “ser menina está na moda”. Logo no título, relaciona essa meninice a laços e cor-de-rosa. Na linha fina, continua: moda delicada. O mote da reportagem eram os lançamentos, em 2023, de dois filmes que aludem ao ser-menina: Barbie e Priscila. Ambos são dirigidos por duas mulheres, Greta Gerwig e Sofia Coppola, respectivamente, que têm se dedicado a refletir cinematograficamente sobre diferentes modos de ser menina – mas isso é conversa pra outra hora.

Ao longo do texto, o jornal elenca mais signos dessa meninice que anda na moda: tutu de balé, sapatilha, cetim, tranças, bonecas, presilha de cabelo, gola Peter Pan (han?), meias brancas, a cor do ano da Pantone, peach fuzz (“um tom de pêssego gentil e aveludado”, segundo a própria). Outros elementos dessa onda seriam gastos superficiais e consumismo, jantares entre amigas, Taylor Swift, glitter, montação, amizade (e pulseiras da amizade).

A reportagem aponta que a identidade de menina tem sido performada por mulheres da casa dos 30 anos que ganham bem, têm carreiras e responsabilidades e gastam muito dinheiro com alguns ou muitos dos itens enumerados acima. Diz a Folha que “ser menina — não mulher, mas menina — agora significa experimentação, liberdade e tudo isso pode ser vivido com o poder aquisitivo de uma adulta”. O apelo estético dessa identidade, continua, tem a ver com uma juventude descomplicada e claramente nostálgica.

O texto também traz, é verdade, a contraparte da adolescência como uma idade em formação e filmes de Coppola em que as restrições às meninas aparecem diretamente e passa como um sopro pelas restrições vividas pelas mulheres em 2023.

Um dos sentidos propostos pelo texto é de uma identidade que pode ser consumida – e, não à toa, é fortemente marcada pelo consumismo. Uma identidade, portanto, à venda, para qualquer mulher utilizar. Mas a gente sabe que identidade não se trata apenas de um item numa prateleira que se veste; trata-se de algo que nos atravessa, constitui e também nos assujeita. Além disso, é uma estética que não está disponível a todas as mulheres, apenas às que podem comprá-la e que têm permissão para usá-la.

Esse ser-menina que aparece no jornal também é profundamente marcado por uma hiperfeminilidade retrógrada, em vez de nostálgica, e associa o ser-menina com alguma versão de meninice que nunca viveu a quarta onda feminista, dominada por corpos femininos jovens em assembleia. É muito, muito limitante equacionar ser menina com o universo fru-fru defendido na reportagem e, de novo, privilegia apenas um tipo de feminilidade, jogando para fora do quadro uma infinidade de outras performances de meninas.

Ao se ancorar apenas em Barbie (e Margot Robbie), Priscila (Cailee Spaeny) e Taylor Swift, conta histórias de ser-menina heteronormativas, cis, brancas e do Norte Global. Três encarnações diferentes da bonequinha de plástico tão inatingíveis para meninas (e mulheres) que parecem, mesmo, fantasiosas, irreais, de outro mundo.

Ser menina, ou o ser-menina, a meninice, tem sido, defendo, uma perspectiva secundária dos estudos feministas. Há nichos, sobretudo nos EUA, Canadá e Reino Unido, com tradição de pesquisa, que nos ensinam que a ideia de menina (como a de qualquer identidade) não é fixa; é cultural e envolta em uma série de disputas.

Contudo, há alguns marcos temporais e aspectos singulares das experiências de ser menina na contemporaneidade que não podem ser desconsiderados quando vamos montar essa ideia de meninice que, para a Folha, não existem – e que, claramente, não estão “na moda”, ou seja, ninguém quer consumir. Um dos principais é a vida escolar, que ocupa grande parte da infância e adolescência de muitas meninas (ainda que meninas sejam o grupo que mais está fora da escola hoje, no mundo).

A menarca é um marco temporal vivido pelas meninas cis com impactos profundos em sociabilidade, mudanças corporais, etc. Meninas trans podem enfrentar questões de transição de gênero que também têm impactos no corpo e na vivência social delas.

Os corpos de meninas são os mais sujeitos à violação sexual; do mesmo modo, elas vivem a realidade do casamento infantil, da exploração sexual, do trabalho infantil. São impedidas de exercer várias dimensões da infância e adolescência consideradas “não femininas”, punidas por comportamentos considerados desviantes.

Meninas negras e indígenas são alvos mais constantes dessas e outras violências, como os feminicídios de crianças e adolescentes de povos tradicionais. Meninas vivem a exclusão de espaços públicos, desestímulo ao ingresso nas áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, em inglês), assédios sexuais, adultização.

Em um outro lado da moeda, o jornal The New York Times publicou recentemente uma reportagem assustadora sobre como o ambiente digital é facilmente um pesadelo para meninas, que se tornam presas de pedófilos e abusadores on-line, especialmente no Instagram. Às vezes, com a cumplicidade parental. Há tempos já sabemos dos perigos tóxicos das redes sociais para a autoestima das meninas, mais suscetíveis a transtornos de imagem, pornô de vingança, violência on-line…

Nada disso “está na moda”, nada disso está à disposição para consumo de uma identidade plástica e commodificada pelo capitalismo neoliberal e extrativista, que aposta neste nicho por enquanto – enquanto for lucrativo. As jornadas das narrativas de Barbie Estereotipada e Priscila Presley podem não ser fáceis, mas são muito mais fáceis que as de quaisquer meninas que não sejam Barbie e Priscila, que sejam meninas reais.

Qualquer identidade que ambicione a um “ser-menina” tem obrigação de performar não apenas traços de feminilidade, mas de se engajar com as lutas pela derrubada do patriarcado, sob risco de despolitizar as demandas coletivas que movem os feminismos. Para o capitalismo, é fundamental que desejemos ser Barbie, que evoquemos certos aspectos de uma meninice restrita a poucas (às bonecas plásticas?). Mas o capitalismo também precisa que esqueçamos o que tem feito com as meninas do mundo.

É nossa obrigação não esquecer.

Por Karina Gomes Barbosa

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