Mulheres acompanham mulheres: o cuidado é historicamente feminino

Nos últimos dias tenho tido mais contato com o dia a dia hospitalar, na área do câncer de mama especificamente. Com isso, tenho confirmado uma percepção que já havia tido antes: a presença feminina é a que comanda esse ambiente. Apesar do tipo de câncer estar principalmente vinculado às mulheres, homens também podem desenvolver a doença, em números reduzidos, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer

Ao observar tantas mulheres, não somente que estão em tratamento, mas também que as que estão junto com elas, fico imaginando a divisão de cuidados nas famílias, pois muitas vezes ocorre a sobrecarga das figuras femininas em um momento em que todos deveriam estar envolvidos. Segundo pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Mastologia, 70% das mulheres são abandonadas pelos parceiros ao serem diagnosticadas com câncer, o que só piora toda a situação, pois além de estar passando por um momento de fragilidade na saúde, passam também em seus relacionamentos. 

Todo esse cenário soma-se ao cotidiano que estou vivenciando e transforma-se em uma conclusão difícil e complexa: nós, mulheres, não podemos contar nem mesmo com nossos companheiros, a quem tanto nos dedicamos por toda a vida e de quem cuidamos quando necessário. A facilidade que um homem tem de se isentar de responsabilidades é tão grande que, mesmo em um momento péssimo para todas as pessoas ao redor, ainda assim eles recebem cuidados básicos – como comida feita, roupas lavadas e uma casa limpa. Enquanto isso, muito provavelmente uma mulher está assumindo mais responsabilidades do que deveria, cuidando de outra que está doente, de um homem ou de si mesma – quando não são as três tarefas simultaneamente. 

A cultura do cuidado foi direcionada a nós desde sempre, quando nossos direitos básicos nem haviam sido definidos e o único lugar que ocupávamos era dentro de casa (ou em trabalhos forçados, como a mão de obra escravizada ou em classes mais pobres, em que o trabalho também era uma realidade). No entanto, essa herança perpetua-se de uma forma tão latente e brutal que nos sentimos na obrigação de realizar a maior parte dos serviços ou o acompanhamento de uma paciente em grave estado de saúde. 

Como Guacira Lopes Louro afirma em O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade, nós fomos socializadas de corpo e mente para ocupar lugares pré-determinados, e isso não deixaria de ser observado nas práticas de cuidado. As brincadeiras a que meninas estão expostas são totalmente voltadas para funções domésticas, como cozinhar, brincar de boneca e arrumar as coisas de casa. Todo esse conjunto nos condiciona, desde a primeira infância, a dar assistência para todos.  

Ser mulher é, muitas vezes, cuidar mais do outro do que de si mesma – um ótimo exemplo é a maternidade, em que as mães trabalham até a exaustão física e mental –, mas, ao chegar a uma situação limite, quem cuida de nós mesmas? A resposta segue na mesma linha, pois é muito provável que outra mulher cuide. Até quando? Como é possível romper com essa prática adoecedora do cuidado tão inerente? 

Acredito que muitas mudanças podem ser observadas em direção à independência e conquista de direitos por conta da luta feminista, porém não têm sido suficientes para equilibrar essa situação que continua nos impedindo de descansar mente e corpo. A exaustão feminina também está ligada à preocupação contínua com afazeres domésticos, profissionais e com a saúde de toda a família. Como nos livramos desse sentimento? 

São respostas em construção por enquanto, mas é sempre bom reforçar que não precisamos carregar todo o peso do cuidado sozinhas. Procurar apoio e nos manter perto de pessoas que nos fazem bem é fundamental nesse processo, para que não fiquemos doentes e impossibilitadas de dar qualquer suporte para quem tanto amamos. 

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