Retratos e reflexões das mulheres sertanejas em No Rancho Fundo 

Foto de divulgação dos personagens da novela.

No dia 15 de abril, segunda-feira, foi ao ar o capítulo de estreia da nova telenovela das seis, No Rancho Fundo, da Rede Globo. A novela se passa no interior do Cariri em distritos fictícios do sertão nordestino. Gravada em cidades de Minas Gerais e Salvador, a Mina da Passagem em Mariana foi um dos palcos de filmagem e por isso o primeiro capítulo foi exibido em um telão em frente a igreja São Pedro dos Clérigos.

Divulgação da exibição do primeiro capítulo em Mariana – MG

Antes mesmo de ser lançada a novela já gerou polêmicas. No mês passado, quando a Globo divulgou a foto do núcleo principal, alguns internautas criticaram a representação de pessoas que vivem no sertão nordestino. O humorista Whindersson Nunes disse em seu Twitter: “Quero estar vivo quando fizerem novela com nordestinos ricos” e outras discussões foram tratadas na rede social. Outros usuários do Twitter levantaram  questões sobre a caracterização, algumas pessoas apontaram que os personagens parecem estar “sujos” e outras especularam que a maioria das obras brasileiras que se passam no Nordeste se resumem a retratar fome e miséria. 

Mas a discussão que será levantada aqui é sobre as representações das mulheres sertanejas na nova trama, que vai de mulheres independentes e empoderadas a mulheres inocentes, sonhadoras e indefesas, algumas reforçando estereótipos. Em No Rancho Fundo acompanhamos a história da família Leonel e seus 10 membros. Zefa (Andréa Beltrão) é a matriarca e trabalha garimpando na beira do rio para sustentar a família, enquanto seu marido, Eurico (Alexandre Nero), fica em casa. A filha Quinota (Larissa Bocchino) é a protagonista e é uma jovem apaixonada por Marcelo Gouveia (José Loreto), mas o amor não é correspondido e ele só quer usá-la.

O personagem de Alexandre Nero é caricato, tão pacato e infantilizado que chega a ser bobo. Ele espera ser servido pelas filhas enquanto a esposa trabalha fora. Em uma das cenas iniciais as filhas se recusam a servi-lo, e vão levar a marmita para a mãe, subvertendo o papel tradicional das mulheres na família e sociedade. Na novela, e em várias famílias do Brasil, esse é o papel da mãe: como mostram algumas pesquisas, 48% dos lares brasileiros têm como principais responsáveis pelo sustento da casa e dos filhos as mulheres.

Na primeira aparição de Zelda, mãe e provedora da família protagonista, está no garimpo, com roupas consideradas masculinas, para conseguir trabalhar e ter respeito garantido. Personagem forte, que sabe se defender sozinha e deixa claro que mulheres não dependem dos homens para viver. Faz de tudo para proteger as filhas.

Quinota é retratada como uma menina ingênua e, atraída por Gouveia, se deixa levar em seu papo de amor. No final do capítulo, Quinota é flagrada pela mãe, à noite, de camisola e aos beijos com Marcelo Gouveia, que saiu da cidade e foi até o sertão para a encontrar e fazer promessas. Zefa ao encontrar os dois fica chocada e nervosa e o primeiro capítulo acaba ali. 

Por fim, a novela explora e agencia os papéis de gênero, retrata uma mãe forte, guerreira e provedora que acredita que suas filhas são inocentes. Desse modo, os tabus e estigmas em torno da inocência da juventude, as expectativas sociais sobre o comportamento esperado das mulheres e a sexualidade feminina estão presentes naquela família e podem ser desenvolvidos ao longo da trama. 

Por Ana Rodrigues

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