Mãe é substantivo feminino de culpa?

Miá Mello na peça “Mãe Fora da Caixa”. Foto: Gabriel Maciel

Esse é um dos questionamentos trazidos pelo espetáculo “Mãe Fora da Caixa”, que explora a possibilidade de gravidez de uma mulher, sete anos após o nascimento de sua primeira filha. Com isso, ela revive em sua cabeça, durante os cinco minutos de duração do teste de farmácia, o misto de sentimentos da maternidade – positivos e negativos –, as memórias, os comentários e a (in)feliz presença paterna. 

Quem interpreta a mulher é a atriz Miá Mello, mãe do Antônio e da Nina, que potencializa o texto com sua experiência pessoal e nos conduz pelos pensamentos e anseios do que é ser mãe na contemporaneidade. A peça é inspirada no livro de Thaís Vilarinho de mesmo nome; a direção é de Joana Lebreiro e o texto é de Claudia Gomes, do blog Humor de Mãe. Todas mulheres, todas mães e todas carregando os incômodos e amores de ocupar esse local tão bem delimitado na sociedade. 

A personagem nos provoca com a verdade sem floreios, desde as dores e sangramentos do puerpério, o cansaço da recém-chegada maternidade, os comentários de outras pessoas até a falta de participação paterna – ainda que ele seja presente – e a vida sexual do casal pós-parto. Perpassando tantos tópicos e situações, Miá chega, ao que parece, a uma conclusão: “Mãe, substantivo feminino de culpa”. Mas por quê? 

Durante a apresentação, nos são apresentados mil motivos para essa afirmação, pois é como se todos os atos, enquanto mãe, te colocassem à beira do abismo. Querer descansar mas ficar apreensiva com o bebê acordar; ir tomar banho e a criança chorar; dar um passeio no parquinho e receber todas as dicas e comparações que você – não – queria ou precisava; é o sentimento de dar conta do mundo inteiro por alguém, mas sozinha. 

Além disso, sabemos que os motivos para as mães ocuparem esse lugar é cultural e socialmente construído pelo patriarcado, machismo e misoginia. O ideal de maternidade se dá desde a concepção, como se fosse uma incorporação do dito instinto e amor incondicional dessa mulher pelo feto que carrega. No artigo “A mãe perfeita: idealização e realidade”, Julia Tourinho vai nos conduzir pelas origens de como essa idealização materna foi construída e passada por profissionais de saúde e pela família tradicional, por exemplo. 

Ao afirmar que mães vão gestar, parir, amamentar, cuidar e amar incondicionalmente suas crianças e sua relação com elas é nata é, no mínimo, cruel. É abandonar a subjetividade daquela mulher e a colocar em um papel sem nem o direito de escolha, e mais ainda, com a pressão de ser uma boa mãe. Sem mencionar outras pessoas que ocupam esse papel, como homens trans que gestam ou pessoas que assumem o cuidado e a maternagem. Mas o que é uma boa mãe? O inconsciente coletivo acredita em uma ideia mais ou menos assim: uma pessoa que abdique de seus desejos pessoais em prol dos cuidados com a(s) criança(s), que dê amor e bons ensinamentos, como a educação e a religião – é a criação de uma mãeesposa, conceito de Marcela Lagarde, discutido no artigo Precisamos Falar Sobre O Cativeiro Das Mulheres: A Figura Da Mãesposa Como Um Modelo De Aprisionamento No Audiovisual, da Universidade Federal de Pelotas. 

Além disso, manter tudo organizado, bem limpo e bonito – tanto em casa quanto em relação à criança –, oferecer uma boa alimentação, brincar e ser saudável também são fatores essenciais no desempenho da maternidade ideal. Tudo isso com paciência, dedicação total e, claro, sem a “ajuda” paterna, pois a mãe boa é a que dá conta de tudo. Mas, refletindo sobre o artigo, a peça e a vida real, a mãe perfeita não existe – e nem vai existir.

Acredito que uma das principais mensagens de “Mãe Fora da Caixa” é nos trazer para a real, em que as mães vão errar, porque também são seres humanos. É como um abraço de acolhimento e reconhecimento de todas as mães que sentem-se culpadas pelas mil e uma coisas que faziam e, pior, sentiam-se sozinhas nessa. Mas também, os pais – e a sociedade machista – precisam entender que a criação é algo compartilhado, correspondendo a um dos fundamentos feministas contemporâneos, que é a ética do cuidado. Ela deve ser adotada por todas as pessoas e posta em prática já. 

No final, a atriz reforça, para mães e futuras mães, que a “ajuda” do pai não faz sentido. Esses homens, os pais, não deveriam estar ajudando, como se fosse uma participação coadjuvante, mas sim, assumindo papel de igualdade nos cuidados das crianças, o que é dever das duas pessoas. Até porque, com uma nova perspectiva, a mudança corresponde à dinâmica da vida pessoal e sexual dessas pessoas, com mais fluidez no processo. 

Miá comenta ainda sobre a quantidade de homens na plateia – o que também foi uma surpresa para mim –, eram muitos! Escutar relatos femininos e refletir sobre como eles nos impactam e, mais ainda, o que podemos fazer, na prática, com isso, é mais do que importante. O que esperamos com isso é a criação de uma consciência maior sobre os desafios e a importância da presença paterna no desenvolvimento de uma criança. 

Infelizmente a peça só teve uma única apresentação em Ouro Preto, mas vou deixar as redes de Mãe Fora da Caixa e uma dica valiosa sobre maternidade e maternagem, que é um Projeto da Universidade Federal de Pernambuco, “Maternagem, Mídia e Infância”.

Texto por Lia Junqueira.

Deixe um comentário