“O Império dos Sentidos” traz ao debate o limite do prazer humano

Foto: reprodução filme

O Império dos Sentidos (In the Realm of the Senses, no título original) é um filme franco-japonês de 1976 dirigido pelo cineasta Nagisa Ōshima e protagonizado por Eiko Matsuda (Sada Abe) e Tatsuya Fuji (Kichizo Ishida). Em 109 minutos o diretor explora a nudez, o sexo e a liberdade sexual, tendo produzido primeiro filme de arte a utilizar cenas não simuladas de sexo, explorando os limites do ato no relacionamento entre os dois personagens. O drama erótico incrementa a produção com elementos ficcionais com a história real do romance entre Sada e Kichizo, que aconteceu em 1936 e teve como desfecho o limite sexual testado, ao longo de toda a relação, pelo casal.

Ambientado no contexto do Japão entre-guerras, o ponto de partida do filme se dá com a chegada da ex-prostituta na casa de seu senhorio, Kichizo, onde ela vai começar a trabalhar. Logo a partir da primeira interação é estabelecida a sintonia sexual que é destrinchada até o final da narrativa, permeando toda a história de amor. O contato inicial também apresenta o dono do estabelecimento em uma posição de poder que, ao longo da história, é desmoronada pela pulsão do desejo sexual de ambos, colocando-o como submisso à Sada.

A partir disso temos uma virada no filme, com Sada controlando e se colocando como a dominante não só na relação, mas na história. Não à toa, “a moça não é normal, ao se colocar em cima do amante no ato sexual” foi uma das justificativas na época para a censura do filme no Brasil. Mesmo que lançado na década de 70, em uma época com produções pornográficas efervescentes, a moral e os bons costumes predominavam. Moral essa que é apresentada no filme com a obscenidade trazida à cena e colocando o espectador dentro do quarto, como vouyer.

A prática do voyeurismo é posta no filme a todo momento, desde a primeira vez em que Sada vê Kichizo, quando ele está em um contato íntimo com sua esposa e é espiado por ela e uma outra funcionária. Nagisa coloca aquilo que comumente estaria fora da cena, o obsceno, para dentro do filme e traz o sexo como tema central. Aquilo que seria realizado na privacidade, é apresentado no filme com cenas em close-up, em riqueza de detalhes.

Mesmo diante de censuras, a crítica não deixou de considerar a produção artística de Nagisa. “Pode a pornografia ser arte?” é o questionamento que a pesquisadora Vitória Ravazio estabelece a partir do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) nomeado “Um estudo sobre erotismo e pornografia a partir da recepção crítica de O império dos sentidos no Brasil”. Vitória traz para o debate o contexto social e histórico do lançamento da produção. Além disso, ela nos apresenta pontos pertinentes para entender a questão levantada pela mostra de filmes do projeto Ariadnes Toda Nudez será Castigada.

Produzido no Japão e circulado, inicialmente, na França, o filme nasceu com a proposta de apresentar a pornografia na arte cinematográfica. A produção foi realizada a partir da proposta e apoio da produção do mecenas francês Anatole Dauman, que exigiu a realização de um filme pronográfico. Com a fama de Nagisa já difundida na França, O Império dos Sentidos teve o espaço necessário para explorar os limites da época da nudez no cinema. 

Remontando à época antiga de um Japão que possuía uma produção literária erótica fortemente apreciada pela classe mais abastada, Nagisa faz uma crítica ao cenário da época, que é militarizado e com fortes influências ocidentais. Assim como outro filme da mostra,A Criada, sua produção explora o sexo que foi profundamente explorado da Era Heian até a Kamakura. Encontra-se, então, no sexo o fio condutor para estabelecer um discurso sobre a história de uma nação que tem o sexo como parte do imaginário cultural. 

A partir da obstinação de Sada por Kichizo, o filme explora os diversos sentidos sensoriais que o sexo pode proporcionar. Obcecada pelo chefe casado, a jovem estabelece o controle daquele homem que, para ao fim do longa, passa a ser apenas um corpo com interações sexuais. A partir de um determinado momento o sexo não encontra mais espaço na casa de Kichizo, onde sua esposa reside. Logo, com a necessidade da Sada de ter o momento com ele, o casal vai para uma casa de campo onde as práticas sexuais estão imersas. 

Com noites ininterruptas de sexo, apresentadas explicitamente na produção, a narrativa, que é ancorada nos estímulos do sexo, se consolida. A crítica de cinema Dana Stevens (2013) afirma: “O Império dos Sentidos não é sobre sexo. Ele é sexo”. Assim, a partir desse momento, o filme traz diversas propostas para experiências sensoriais ao espectador. Com o quarto do casal com cheiro forte do sexo ininterrupto, que o casal se recusava a interromper, o espectador é inserido no obsceno que configura o sexo. Dentro do quarto com os personagens, o espectador é convidado a participar dos estímulos sexuais realizados a partir do uso de comidas e da recusa da jovem de pausar o ato nem para seu parceiro dormir.É em um contexto sobre a discussão nas redes sociais da representação do sexo nas produções cinematográfica que filmes como O Império dos Sentidos retomam a discussão sobre o ato sexual, diante de uma geração cada vez mais incomodada com o sexo no cinema.

Por Gabriel Maciel

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