Virginia Woolf e sua irmã Vanessa Belll, mesmo tendo sido ensinadas por tutores, não tiveram acesso à educação formal avançada, como seus irmãos em Cambridge, o que era comum durante a virada do século XIX para o século XX. Ainda assim, sempre foram instigadas a estudar e adquirir conhecimentos, principalmente por terem uma mãe que vinha de uma família de editores, e um pai, que, como literato, frequentava e recebia visitas da alta sociedade literária de Londres. “A room of one’s own”, ou “Um quarto todo seu” em português, um dos ensaios mais famosos da autora, nasce desse ambiente, mas pode ser localizado mais exatamente no entreguerras, nos quatro anos que estão entre o final da Primeira Guerra Mundial e o começo da Segunda. O livro nasce de diversas palestras proferidas por Woolf, na Universidade de Cambridge, sobre o tema da mulher e da ficção, e seu trabalho caminha, de forma categórica, no modernismo britânico, contendo o fluxo de consciência, caminhando para dentro do entendimento da sensibilidade, e de como traduzir sentimentos profundamente enraizados na humanidade para o papel.
Em um dos trechos de “Um teto todo seu”, a autora critica a falta de espaço dedicada aos almoços e jantares em romances, e anuncia que, no ensaio dela, eles terão sua cota. Os romancistas, naquela época majoritariamente homens, na tentativa de colocar somente o que era supostamente essencial em livros, acabam se esquecendo de que haviam muitas coisas que “valiam a pena” ser inseridas dentro de um romance.
“É curioso o fato de que os romancistas têm um jeito de fazer-nos crer que os almoços são invariavelmente memoráveis por algo muito espirituoso que se disse ou muito sábio que se fez. Raramente, porém, desperdiçam uma palavra sequer sobre o que se comeu. Faz parte do consenso dos romancistas não mencionar sopa, salmão e pato, como se sopa, salmão e pato não tivessem importância alguma, como se ninguém jamais tivesse fumado um charuto ou bebido um copo de vinho. Aqui, no entanto, tomarei a liberdade de desafiar esse consenso e de dizer-lhes que o almoço, nessa ocasião, começou com filés de linguado num prato fundo sobre o qual o cozinheiro da universidade espalhara uma cobertura do mais alvo creme, não fossem, aqui e ali, manchas castanhas como as dos flancos de uma corça. Depois disso vieram as perdizes, mas enganam-se se isso lhes sugere um par de aves implumes e escuras num prato. As perdizes, numerosas e variadas, vieram acompanhadas de todo um séquito de molhos e saladas, picantes e doces, cada qual na sua ordem de entrada: batatas, finas como moedas, mas não tão duras; couves-de-bruxelas, folhudas como botões de rosa, porém mais suculentas. E mal havíamos terminado o assado e seu cortejo, o garçom, silencioso, talvez o próprio Bedel numa manifestação mais branda, pôs diante de nós, enrolado em guardanapos, um doce que se erguia em ondas de açúcar. Chamá-lo pudim, aparentando-o assim com o arroz e a tapioca, seria um insulto. Enquanto isso, os copos de vinho tinham se tingido de amarelo e de vermelho, tinham-se esvaziado, tinham-se enchido.”
Em outra parte, ela versa sobre o desenvolvimento de um texto, em que um escritor versa sobre a inferioridade das mulheres, e o porquê de achar que sua pesquisa valia o espaço que ocupava. Ele, enquanto escrevia seu artigo, nunca parou para questionar sua utilidade, se o que ele escrevia era bom ou não, se a forma como escrevia era correta, e se valia a pena alguém ler um escritor como ele. Questionamentos que muitas mulheres têm ao começarem a escrever.
“Mas, enquanto refletia, estive inconscientemente, em minha languidez, em meu desalento, desenhando uma figura no local onde, como meu vizinho, deveria redigir uma conclusão. Estive desenhando um rosto, um corpo. Era o rosto e o corpo do professor Von X, entregue à redação de sua obra monumental intitulada A INFERIORIDADE MENTAL, MORAL E FÍSICA DO SEXO FEMININO. No desenho, não era um homem que fosse atraente para as mulheres. Era corpulento, tinha queixo grande; para compensar, os olhos eram bem pequenos; o rosto era muito vermelho. Pela expressão, parecia trabalhar sob alguma emoção que o fazia cravar a caneta no papel como se estivesse matando algum inseto nocivo enquanto escrevia, mas, mesmo depois de matá-lo, não se dava por satisfeito; precisava continuar matando; mesmo assim, persistia alguma razão de fúria e irritação.”
Para exemplificar melhor, ela usa grandes nomes de sua própria época para descrever que mulheres só conseguiam escrever minimamente bem quando possuíam fundos, (dinheiro de investimentos ou herança), e principalmente, um teto todo seu. E que muitas delas, por terem se acostumado a escrever de uma certa forma, continuariam a impor-se esses malabarismos na escrita, até mesmo depois de terem se consolidado como grandes escritoras.
“[…]concedamos a ela um quarto só seu e quinhentas libras por ano, deixemos que seja sincera e exclua metade do que agora inclui no que diz e, um dia desses, ela escreverá um livro melhor.”
Foto por: Sophia Ribeiro
Depois de participar da palestra “Virginia Woolf como uma pesquisadora ideal”, da brilhante Jeanne Dubino, no dia 15 de Julho, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais, no Auditório G-20, entendi que ‘Um quarto só seu’, (na tradução da editora Bazar do Tempo), pode ser lido como um ensaio de como pesquisar, ou de como iniciar, permanecer e terminar uma pesquisa. Empresto alguns dos tópicos da pesquisadora, compartilhados durante a apresentação, para exemplificar o meu entendimento sobre a lógica do livro aqui discutido. Nos seis capítulos do livro temos:
Virginia iniciou seus questionamentos sobre as diferenças de tratamento e financiamento entre mulheres e homens, chegou a uma questão central e começou a investigar dois campi, “Oxbridge” (Oxford + Cambridge), majoritariamente masculino, e Fernham, majoritariamente feminino. Esteve presente em um almoço luxuoso em “Oxbridge” e também em um jantar modesto em Fernham. Após estar nesses dois mundos, de certa forma, distintos, inicia suas pesquisas na Biblioteca Britânica, após ter a permissão de adentrar aquele espaço concedida por um homem, já que em um primeiro momento tinha sido barrada por um “cidadão de bem” inconveniente.
“Eu a abriria, se não fosse impedida por um cidadão de bem, grisalho, proibitivo, como um anjo barrando os portões do céu com sua túnica preta tremulante ao invés de asas brancas. Me repeliu em baixo tom, enquanto me afastava com as mãos, dizendo que senhoras só são permitidas na biblioteca se acompanhadas por um Membro da Faculdade ou providas de um cartão de visita.” – tradução da equipe de suporte do evento da Jeanne Dubino.
“Devo tê-la aberto, pois instantaneamente surgiu dali, como um anjo da guarda a barrar o caminho com um agitar de túnica negra, e não de asas brancas, um cavalheiro súplice, grisalho e gentil, que lamentou em voz baixa, e fez-me sinais para que saísse, porque as damas só eram admitidas na biblioteca acompanhadas por um Fellow da faculdade ou providas de uma carta de apresentação. Que uma biblioteca famosa tenha sido amaldiçoada por uma mulher é motivo de total indiferença para ela. Venerável e calma, com todos os seus tesouros seguramente trancafiados em seu seio, ela dorme complacentemente e, no que me diz respeito, há de dormir para sempre. Nunca despertarei esses ecos, nunca buscarei novamente essa hospitalidade, jurei enquanto descia os degraus, enfurecida.” – tradução de Vera Ribeiro, para a editora Círculo do Livro.
Capítulos 2 e 3: Ela transita entre esses dois locais, e descreve em ricos detalhes os diferentes pensamentos que surgem a partir desses espaços. Chega à comparação entre William Shakespeare e a fictícia Judith Shakespeare, irmã do escritor. Ela tem uma presunção/conjectura/previsão interessante no capítulo 2:
“Em cem anos […] as mulheres terão deixado de ser o sexo protegido. Logicamente, participarão de todas as atividades e de todos os trabalhos que antes lhes eram negados. A babá carregará carvão. A quitandeira vai operar uma máquina. Todas as suposições baseadas nos fatos observados quando as mulheres eram o sexo protegido terão desaparecido – como, por exemplo. . . de que mulheres, sacerdotes e jardineiros vivem mais do que as outras pessoas. Retire-se essa proteção, exponham-nas aos mesmos trabalhos e atividades, convertam-nas em soldadas, marinheiras, operadoras de máquinas […]. Quando ser mulher deixar de ser uma atividade protegida, pensei eu abrindo a porta, tudo poderá acontecer.”
Coincidentemente, enquanto lia esse ensaio, também tive a experiência de participar de outro evento, dessa vez do Observatório Caleidoscópio, que realizou um seminário sobre mulheres na ciência e violência de gênero na universidade. Lancei mão da lógica de Woolf em busca de material para escrever seu artigo “As mulheres e a ficção”, para entender “As mulheres e a ciência” não como excludentes um do outro, e sim “as mulheres com a ciência”, ou até mesmo “as mulheres na ciência”.
“Mas que relação tem tudo isso com o tema de meu artigo, “As mulheres e a ficção”? Foi o que me perguntei ao entrar em casa.”
Já durante a segunda exposição, “‘Rompendo o silêncio’: violência de gênero em uma universidade pública”, ministrada por Cris Cavaleiro, temos outro dado, ainda mais chocante que o primeiro. O número de casos dentro desses espaços primordialmente educacionais é gritante. Mesmo se uma mulher tiver acesso à educação, provavelmente/possivelmente ainda terá que lidar com a violência de gênero, assédio moral e físico, invisibilização da denúncia, perseguição, sequestro intelectual, entre outros inúmeros fatores que podem ser consultados na pesquisa da Cavaleiro, assim como podem ser visualizados, mais especificamente, no caso Boaventura, (que contém inúmeras denúncias de pesquisadoras), estudo realizado pelo observatório Ariadnes.
“A pergunta eterna: porque nenhuma mulher escreveu notável literatura, enquanto homens, aparentemente, eram capazes de cantiga e soneto. Quais eram as condições vividas pelas mulheres, me perguntei […].”
Retornando ao estudo do ensaio de Woolf, conseguimos traçar essa temporalidade, proposta, em um primeiro momento, quando esta:
Capítulo 4: Encaminha novos questionamentos, e consequentemente, uma nova pesquisa, em que esboça a história parcial da literatura feminina britânica. Assim como a cronologia de Daiane Silveira Rossi, que desenvolve uma linha do tempo com os dados das cientistas brasileiras, trazendo esse entendimento para um local próximo de nós, mulheres latino-americanas, tem-se um movimento de montar as peças do quebra-cabeça, procurando entender quais mulheres escreviam, e em quais condições. Chegamos aos ilustres nomes de: Lady Winchilsea (1661-1720), Margaret of Newcastle (1623-1673), Dorothy Osborne (1627-1695), Aphra Behn (1640-1689), Charlotte Brontë (1816-1855), Emily Brontë (1818-1848), George Eliot (1819-1880) e Jane Austen (1775-1817).
Capítulo 5: Desenvolvendo sua própria narrativa, ela cria uma história de uma escritora contemporânea, Mary Carmichael. Virginia Woolf sempre foi uma autora profunda, só que não teve problemas em se aventurar no que é considerado, muitas vezes, “trivial”. Com variedade e alcance, Woolf consegue retratar a experiência de disforia de gênero, assim como de transsexualidade, e de bissexualidade, de forma imersiva e descritiva, e notavelmente, à frente de seu tempo. Escreve desde a perspectiva de um cão até a imagem de uma mariposa presa no vidro, que, isolada, bate suas asas entre as quatro dimensões de uma janela em que se debate furiosamente. Nesse capítulo em específico, (5), de “Um teto todo seu”, ela descreve uma escrita de um romance lésbico, e como nenhum dos escritores modernistas sequer imaginava escrever textos envolvendo isso, por causa da decência e da moral. Assim, considerando, ela novamente repete sua previsão de cem anos, dessa vez indicando que, depois desse tempo, as pessoas vão aprovar a escrita de “Life’s Adventure”.
“Virei a página e li… Desculpem-me uma interrupção tão brusca. Há algum homem presente?[…] Posso ficar tranquila que aqui somos todas mulheres? Então posso lhes contar que as palavras que li imediatamente a seguir diziam: “Chloe gostava de Olivia…”. Não se sobressaltem. Não enrubesçam. Vamos admitir aqui na privacidade aqui de nosso grupo que essas coisas às vezes acontecem. Às vezes, mulheres gostam de mulheres. […] Concedamos a ela mais cem anos, concluí lendo o último capítulo – narizes e ombros nus se mostravam desnudos contra um céu estrelado, pois alguém abrira a cortina na sala de visitas –,[…], um dia desses, ela escreverá um livro melhor. Será uma poeta, disse eu colocando Life’s Adventure, de Mary Carmichael, na ponta da prateleira, daqui a cem anos.”
Em um movimento final, de conclusão do que pode ser considerado um tutorial, a autora:
Capítulo 6: Pede para que suas leitoras escreva. Woolf escreve de forma prosaica, uma ode revolucionária. Ela determina que, nós mulheres, devemos nos reerguer dentro da literatura. Devemos escrever sobre o que for, mas devemos escrever. Retomando essa imagem criada em nosso imaginário da irmã de Shakespeare, que caso existisse, poderia ser igual ou até mesmo mais celebrada do que o irmão, principalmente se fosse criada com as mesmas referências e educação que ele, mas que nunca saberíamos, pois a ela não foi direcionado/concedido o direito e ambição da escrita. Como conclusão, Woolf pontua que vale a pena:
“Mas sustento que virá se trabalharmos por ela [Judith Shakespeare], e que trabalhar para isso, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.”
Passei semanas tentando escolher exatamente sobre o que escrever, e chego ao final desse texto entendendo que, ao menos, escrevi alguma coisa.