A dor de ser a única – qual o lugar de mulheres negras nos ambientes universitários? 

“E eu estou rodeada por
Espaços brancos,
Onde dificilmente eu posso adentrar e permanecer.
Então, por que eu escrevo?
Escrevo, quase como na obrigação
Para encontrar a mim mesma
Enquanto eu escrevo”

Enquanto eu escrevo, Grada Kilomba

Tive contato com esse texto da Grada Kilomba em uma aula. Estava passando por situações difíceis e ele ficou em minha cabeça por um tempo, me fazendo pensar em como é difícil ocupar espaços brancos, especialmente o da Universidade.

Quando criança eu queria ser diferente, queria que o meu cabelo fosse mais liso e a minha pele mais clara. Hoje percebo que tudo isso nasceu dos desenhos, brinquedos e produtos que eu consumia.

Na adolescência eu comecei a aprender a gostar mais de mim mesma, do jeito que sou e a me aproximar de mais pessoas negras também. Por questões de pertencimento, acolhimento, coletividade e até mesmo conforto.

Ao passar na Universidade, vim parar em um ambiente completamente diferente do que eu havia criado e que vivia na minha cidade. Desde criança meus pais incentivaram a mim e ao meu irmão a estudar, então não cursar faculdade nem passava pela minha cabeça. 

Quando passei na UFOP minha primeira opção nunca foi morar em república, mas não teve jeito, pelos custos e pela localidade eu fui para uma. Pensei que seria legal, pois as “piores” características que algumas repúblicas tradicionais têm – e eu não queria – eram “batalha” e “trote”. Outro ponto é que os slogans das repúblicas pregam que são lugares acolhedores, para criar laços e fazer amizades.

A partir daí, acho que me perdi. Talvez pelo deslumbre de um novo ciclo, por conhecer pessoas novas e acreditar pertencer a algo novo (spoiler: eu não era pertencente). Pensei ter encontrado um lar para passar os quatro anos de graduação, e esqueci que eu não sou uma pessoa que geralmente pertence a esses locais. Apesar do sistema de cotas, a Universidade continua sendo um espaço branco, do mesmo jeito que é masculino e patriarcal. Ainda que alguns cursos tenham mais mulheres cursando. Não é só sobre a maioria, mas sobre se sentir confortável e pertencente naquele local.

Mesmo com a maioria das pessoas na Universidade sendo branca, aqui em Mariana há diversidade. De qualquer forma, desde que cheguei deixei avisado que não queria permanecer morando em uma casa na qual eu fosse a única mulher negra. Disse isso mais de uma vez,  várias vezes e não fui escutada. Tudo isso acabou me silenciando internamente também, que deixei de dar minha opinião em outras decisões. Parecia que eu não tinha voz. Após cinco períodos, nenhuma caloura negra “combinava com a casa” e alguma caloura branca, dentro do padrão de beleza, “era mais legal ou divertida”. Eu só enxerguei a dimensão de tudo quando uma dessas calouras começou a ter atitudes racistas e me tratava diferente das outras. Às vezes me ignorava e quem era cobrada de ir atrás de explicações era eu. 

Uma coisa que me dói ainda é o fato de eu ter esperado chegar a esse nível. Eu sei que a culpa não é minha, mas acho que esse sentimento é inevitável. Pois eu tenho consciência racial e um olhar, mas não consegui aplicar à minha própria vida. Eu sempre faço o exercício do pescoço em todos lugares onde vou e dentro da minha própria “casa” eu não encontrava nenhuma pessoa negra. Me agarrei à ideia de que um dia poderia ter e em algum momento minha voz poderia ser ouvida. Mas nunca foi. E por vezes, as pessoas que deviam ser minhas amigas me fizeram pensar se  “esse é um problema real?”

“Branco sabe quem é negro. Nós, negros, é que nos confundimos (e nos dispersamos!)”. Essa frase é o título de um artigo da escritora Cidinha da Silva. E é isso: por um momento, morando em uma cidade universitária e em república, eu posso ter esquecido que eu era diferente, mas a branquitude nunca esquece, mesmo que inconscientemente elas fazem as distinções.

No livro E eu não sou uma mulher?, bell hooks discute e questiona sobre o lugar das mulheres negras na sociedade e nas discussões feministas e de raça. “Quando falam de pessoas negras, o foco tende a ser homens negros; e quando falam sobre mulheres, o foco tende a ser mulheres brancas”.  Nesses últimos meses eu me senti sem lugar. Morando com pessoas que se dizem progressistas, e dizem se importar comigo, mas em nenhum momento eu me senti acolhida ou compreendida. Na verdade, eu realmente não me senti uma mulher ou um ser humano, digno de empatia.

Ando pensando bastante em uma famosa frase da escritora Angela Davis que sempre é usada: “Não basta não ser racista, é necessário ser anti racista”. E hoje, mais do que nunca, eu tenho certeza disso. É fácil dizer que não concorda com racismo, postar em redes sociais e até mesmo fazer algum trabalho acadêmico, mas diante da atitude de uma pessoa próxima não tomar nenhuma medida. 

Por causa de alguns comentários, disfarçados de elogios e brincadeiras, eu me senti uma extraterrestre, uma mulher exótica. Por ter o cabelo cacheado e volumoso. Nunca pensei que isso aconteceria agora, depois de já ter passado por uma transição e por vários processos envolvendo estética e autoestima. A sensação é de que o racismo é um acúmulo de feridas que nunca se curam e todas as vezes que algo acontecer ela vai abrir mais um pouco e eu vou me sentir como aquela criança que não se via na TV. E como são violações não tão explícitas, a dimensão do quanto ela afeta a saúde mental e autoestima é menor.

Excluir o senso de comunidade e pertencimento é um ato de violência. Não apoiar ou acolher uma pessoa após ela te dizer que foi vítima de racismo também é uma violência. 

E por isso eu escrevo. É  um desabafo. Uma forma de procurar fazer algo com tudo que sinto. Pois esse tipo de violência machuca muito o emocional e o psicológico e eu nem sei como me curar ainda. Não é qualquer pessoa que entende a dimensão de algumas palavras e atitudes na vida de uma mulher negra, e as pessoas que moraram comigo não entenderam. Também escrevo por não conseguir ser forte, como geralmente dizem que nós temos que ser. Porque eu sofri racismo e as pessoas que me machucaram, as que se calaram diante disso, continuam vivendo a vida com leveza. E eu continuo com esse peso sobre mim, procurando me perdoar, pois eu sei que viver em um corpo que está mais sujeito à violências físicas ou psicológicas não é culpa minha e isso não me define. 

Em minha mente eu me pergunto se existe alguma forma de passar por isso sem pensar que algo deveria acontecer. Não acho que seja um sentimento de vingança. Mas de justiça ou reparação, apesar de que, agora, nem sei mais o que é justiça. Pois nada tiraria a dor de mim.

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