
De olhos bem fechados, ou no original, Eyes Wide Shut é um filme, por incrível que pareça, de Natal! Criado por Stanley Kubrick e estrelado por Nicole Kidman e Tom Cruise, a obra britânico-estadunidense de 1999 tem como gêneros principais drama e suspense, mas nos leva por caminhos variados entre o erótico, o mistério e brinca com as sensações dentro de nossos psicológicos. É baseado no romance Traumnovelle, (Breve romance de sonho), de Arthur Schnitzler, em que os protagonistas da história também exploram os temas da sexualidade, da moralidade, da identidade e da fronteira entre a realidade e o desejo. O que caracteriza um retrato psicológico profundo da sociedade vienense da época (1926), especialmente em relação às normas sociais e à repressão, tema que também estava sendo pesquisado e discutido nos estudos pioneiros de Freud.
O título do filme em si, “Eyes Wide Shut” (que de forma literal pode ser traduzido como “olhos abertamente fechados”), já demonstra um paradoxo. Como você pode estar, ao mesmo tempo, com os olhos (eyes), bem abertos (wide), e fechados (shut)? Desse modo, configura também uma metáfora para o estado de negação que Bill mantém ao longo de sua vida, por enxergar as situações cotidianas e não ter consciência dos problemas matrimoniais que tem, nem das preocupações da esposa. Sua posição como protagonista nos leva ao entendimento de uma “cegueira moral e crítica”, seja voltada para suas próprias inseguranças, prepotências, e para a complexidade do mundo em que vive, não apenas no que diz respeito à sexualidade, mas também em relação ao status social, classe e poder. Um símbolo disso é o assédio moral que recebe somente por caminhar na direção de um grupo de jovens que começam a tentar ofendê-lo e atacá-lo com termos de cunho pejorativo, e ao final chegam a empurrá-lo agressivamente.

Deuses e monstros
A parte mais marcante do enredo é a crítica lasciva e bem construída ao redor da elite novaiorquina, e sua decadência. Curiosamente, este é o último filme de Kubrick, que morreu apenas cinco dias depois do lançamento.
Tem-se sempre um clima de suspense e também uma tensão sexual silenciosa rondando a atmosfera do filme. Eyes Wide Shut lança o protagonista numa jornada em busca do desconhecido, alimentado pela vontade de entender o desejo da esposa, o qual não reconhece em si mesmo, e também na busca por se auto afirmar no processo.
Vemos Kubrick utilizar o espaço, a música e a edição como táticas para criar uma imersão e tensão constante, uma técnica que lembra o trabalho de Alfred Hitchcock em filmes como Psicose (1960) e Janela Indiscreta (1954), também traçando outro paralelo com “uma tradição hitchcockiana” de colocar o homem comum em uma situação extraordinária. E, assim como Caio Bogoni descreve em sua crítica, “Stanley Kubrick, como um bom contador de histórias visuais, faz dos menores eventos algo interessante ao ilustrá-los tão significativamente”.
Sua repercussão na crítica varia muito, principalmente por causa das cenas de orgia. A narrativa começa com a história de um casal perfeito, que foi convidado a passar a noite em uma festa de véspera de Natal, por Victor Ziegler, um magnata da alta sociedade novaiorquina. Durante a festa Bill e Alice Hartford recebem atenção de diversas personalidades e são bastante cortejados, porém, na comemoração, Bill é chamado para socorrer uma prostituta que teve uma overdose. O fato deve ser mantido em segredo. Depois disso, em uma discussão acalorada durante um momento privativo do casal, Alice (Nicole Kidman), ao ouvir que o marido não sentia ciúmes dela, revela a Bill (Tom Cruise), suas fantasias sexuais com um outro homem. Isso leva Bill a visualizar em sua imaginação a cena da traição da mulher, mas seu inconsciente tenta cancelar essas imagens dentro de sua própria mente.
Mulheres também sentem desejo?
Uma das partes mais interessantes é que a traição revelada pela mulher aconteceu somente em seu pensamento, e Bill Harford fica o tempo todo visualizando a esposa consumando a traição, mas, em paralelo, fica sempre tentando fugir dessas imagens. Esse poderoso e inóspito lugar do inconsciente, que o desejo reprimido permeia, afeta Bill, e começa a se desenvolver sua jornada do herói, com ambientação noturna e natalina, dentro de uma Nova York que passeia, simultaneamente, entre o familiar e o estranho. Como exemplo, temos a sequência em que ele visita a loja de fantasias “Rainbow”, que, por causa do horário, estava fechada. Porém ele toca a campainha procurando por um de seus pacientes (o proprietário anterior da loja), que para sua surpresa se mudou, e a propriedade passou a ser de um homem húngaro.
Ainda na loja, em uma cena diferente, ele entra em contato com um mundo de permissividade sexual, em que ele vê a filha do húngaro em uma situação sugestiva de um ménage à trois, ou sexo a três (um encontro sexual ou relacionamento entre três pessoas), com outros dois homens asiáticos. Em um primeiro momento, o pai parece decidido a chamar a polícia para denunciar o caso, porém o desdobramento deságua na sugestão de que tudo teria um preço, ou seja, que o seu silêncio poderia ser comprado.
Em paralelo, quando Alice dança com um húngaro, durante a festa do início do filme, ele estava abertamente cortejando-a e fazendo propostas de encontros extraconjugais, e apresenta o seguinte questionamento:
“Não acha que um dos encantos do casamento é tornar o fingimento uma necessidade para ambas as partes?”

Casamento como uma instituição falida
O filme também caminha para uma reflexão sobre o casamento e os relacionamentos. Há o exemplo de casal perfeito, com atores que são coroados como “America’s Sweethearts”, ou seja os queridinhos da América, que inclusive formaram um casal fora do cinema, muito popular na mídia, e principalmente, muito esteticamente atraentes, representando um ideal de beleza construído para as telas do cinema. Como discutido durante a mostra, Nicole Kidman, em sua primeira aparição, tem uma aparência que nos remete à pintura da Vênus de Botticelli, uma aparência singular e perfeita em alusão à deusa da beleza.

Durante o filme, vê-se frames de seu corpo nu, exposição que simboliza uma vulnerabilidade tanto dela quanto de outros personagens. Os corpos nus aparecem constantemente, principalmente os femininos, o que leva o espectador a entender que estes estão sempre disponíveis, e até mesmo dispostos e sujeitos ao livre acesso, sem qualquer contexto emocional imediato, o que, particularmente, cria uma sensação de desconforto e ruptura das noções de consentimento.
A nudez não é glamourizada, mas sim apresentada de forma impessoal e até distorcida, o que sugere, de certa forma, que apesar de estarem fisicamente “expostos”, os corpos femininos estão, emocionalmente separados e isolados, como demonstrado pelo uso de máscaras durante as cenas de orgias. Muitas vezes, indicam uma forma de esconder a identidade, permitindo que essa nova persona tenha a liberdade de agir sem expor as próprias vulnerabilidade emocionais ou psicológicas.
No ambiente das orgias na mansão secreta, Bill encontra a nudez dessa forma descaracterizada e/ou despersonalizada. As pessoas são apresentadas como corpos sem rosto, ou seja, são apenas objetos em uma espécie de “mercado de prazer”. Refletido na “alienação” advinda do uso da nudez, que evita qualquer tipo de conexão emocional ou afetiva, Bill parece existir fora dessa relação, não percebendo os signos da sua própria sexualidade e da sua percepção do desejo humano. Logo, ele é descoberto como não pertencente àquele ambiente, e é condenado a “pagar por isso”, porém, uma das participantes do culto aparece e recebe o “castigo” em seu lugar. Isso demarca outra significante do filme, que é a liberdade e alcance que as mulheres têm por usufruírem e entenderem de sua sexualidade, enquanto o protagonista, que é reprimido, depende da ajuda destas personagens para adentrar em diversos locais, e principalmente, a explorar a própria sexualidade a partir disso.

Corpos sujeitos
Em vários momentos, a nudez está associada ao poder, especialmente em relação à seita secreta e seus rituais eróticos. As mulheres, em sua maioria, aparecem peladas, sem resguardos em relação à exposição, porém, em um movimento contrário, há uma menor exposição de corpos masculinos nus. O poder, na realidade, advém de quem controla esses corpos, a nudez se transforma, não em símbolo de liberdade ou prazer, mas de controle e submissão. O uso do corpo nu como uma ferramenta para controlar ou manipular os outros se torna evidente, especialmente durante as cenas da festa na mansão, onde as pessoas são forçadas a participar de rituais que despersonalizam e objetificam os corpos, em que um círculo de mulheres nuas ao centro performa uma espécie de ritual, enquanto os poderosos estão completamente vestidos e observam a cena de forma “estrangeira”, de longe. Até mesmo na cena de orgia, muitos dos participantes olham de fora, como em uma espécie de plateia durante a performance do sexo, o “voyeurismo” tem um lugar de destaque entre os fetiches praticados.
Além disso, ao pensarmos na seita como significante, esta aparenta ser uma metáfora para uma estrutura social ou política oculta, em que as normas de poder e controle operam nas sombras. Vê-se então, a sexualidade como uma forma de dominação. Existem corpos que recebem prazer, e os corpos sujeitos a oferecer prazer, mas não a recebê-lo, em um culto ao corpo e aos instintos, porém não de forma animalesca. A nudez, bastante presente e descaracterizada, então, serve como um reflexo dessa dinâmica de poder, em que alguns indivíduos são reduzidos a corpos sem identidade, ou seja, apenas instrumentos para a satisfação dos desejos e manipulação dos outros, e isso ocorre principalmente com corpos femininos.
Ou seja, o desejo incontrolável e a tentação se apresentam nas orgias de maneira sistemática e ritualizada, o que sugere que o desejo humano não é apenas algo instintivo e irracional, mas também uma força que pode ser manipulada, tanto por aqueles que controlam a seita quanto por aqueles que buscam satisfazê-lo. O poder das elites é representado de forma a transcender os limites morais (o dinheiro compra tudo), e também demonstra um claro desprezo pelas convenções sociais, que normalmente sustentam em seu cotidiano. Como exemplo, tem-se a festa de véspera de Natal na casa do magnata Victor Ziegler, em que tudo parece estar dentro da ordem e do que se espera de um evento de anfitriões tão ilustres, porém em um dos cômodos, o dono da casa trai a mulher enquanto usa diversos tipos de drogas, indo contra a fachada moralista e conservadora que apresenta promovendo um evento deste cunho.
Essa busca pelo prazer sem restrições leva, inevitavelmente, a um vazio existencial, pois em diversas cenas a nudez não é acompanhada de qualquer tipo de afeto genuíno, tornando-a vazia e superficial. A prostituta desmaiada no começo do filme é só um corpo, possivelmente entre muitos, e sua morte ou sua vida não simbolizariam nenhuma perda significativa, ou sequer teria qualquer impacto substancial na persona de Ziegler.

Pelados em New York
A própria busca de Bill por prazer é marcada por sua incapacidade de controlar ou entender o que está acontecendo ao seu redor. Mesmo que ele se envolva com várias mulheres ao longo do filme, cada interação demarca uma inabilidade de criar uma conexão real, refletindo, de certa forma, esse vazio, que ele sente tanto na sua própria vida sexual quanto na conjugal.
Nesse sentido, o conflito psicológico dele, especialmente sobre suas inseguranças e ciúmes após a revelação de sua esposa, se atenua. Ao longo do filme, Bill passa por uma espécie de jornada do herói, em busca de respostas, tentando entender sua própria identidade sexual e seus verdadeiros desejos. Nesse processo, ele é constantemente confrontado com a nudez de outras pessoas, com outros corpos femininos, e com experiências sexuais frequentemente frustradas, vivendo situações que o deixam desconfortável e emocionalmente vulnerável de diversas formas. Em muitas dessas cenas, a nudez também pode ser lida junto ao medo e à insegurança de Bill, que, ao ver outras pessoas expostas se sente deslocado e impotente, incapaz de compreender suas emoções.
Temos diversos exemplos disso durante o filme: quando duas modelos insinuam relações sexuais a três, ao encontrar a prostituta em coma após uma overdose, ao confortar a filha de um falecido paciente e receber um beijo e uma declaração fervorosa de amor eterno, na cena da loja de fantasias, em seu encontro com a prostituta Domino, e em diversas outras ocasiões. Ele é sempre levado nessa espiral que o força a confrontar sua própria fragilidade emocional e a dificuldade de se comunicar com sua esposa, o que revela o abismo entre o desejo sexual e a verdadeira intimidade emocional. Bill parece sempre estar carregado, em um vai e vem, no espaço limítrofe do desejo e da razão. Em contraponto com as mulheres que o encontram, que parecem alcançar e tomar um pouco do controle do poder que advém da sexualidade, adentrando em espaços que Bill, muitas vezes, não consegue acesso.
Quando Alice revela suas próprias fantasias sexuais, a dinâmica entre ela e Bill se torna mais tensa e desconfortável, pois ele percebe que a mulher que acreditava conhecer profundamente tem desejos e pensamentos que ele não pode controlar ou compreender. A nudez em torno de Alice, especialmente a sua nudez ligada à imaginação de consumar o ato da traição com outro homem, traz, em um primeiro momento, a sugestão de um desconforto tremendo em Bill, por quebrar a ilusão de que uma mulher casada não poderia sentir ou desenvolver desejo por alguém se não o próprio marido.
Para ele, o desejo era completamente masculino, e a sugestão que ele faz à própria esposa (de que os homens só se aproximavam dela por desejarem o seu corpo de forma sexual) demonstra uma ingenuidade muito grande, já que ela mesma tem consciência, inteligência emocional e controle dos desejos: ela não consuma e nem reprime as próprias fantasias. A revelação de que a mulher que ele ama também tem desejos sexuais é algo que ele não está preparado para aceitar.
A relação entre Bill e Alice é, aparentemente, estável, mas a revelação dela sobre suas próprias fantasias e desejos profundos coloca em questão a confiança e a intimidade dentro da instituição que é o casamento tradicional e suas estruturas, ou seja, a ideia de posse. A partir desse ponto, torna-se uma obsessão de Bill controlar, entender e explorar o desejo sexual. Alice, por outro lado, oferece uma visão de um desejo feminino mais livre e confiante, em contraste com a repressão e a insegurança de Bill. Sua lembrança de um sonho que teve, onde se imaginava com outro homem, serve como uma forma de subverter a visão tradicional da mulher como “passiva e submissa”, ou de que as mesmas não podem sentir atração física ou tesão. O filme sugere que as fantasias sexuais e as emoções reprimidas são universais, mas tratadas de maneiras diferentes entre os sexos, principalmente quando pensamos na repressão histórica da sexualidade feminina.

Eyes Wide Shut é, em muitos aspectos, um thriller psicológico, e a paranoia de Bill se intensifica à medida que ele se envolve mais profundamente na esfera secreta de encontros eróticos e rituais misteriosos. O filme utiliza a tensão crescente para criar um ambiente de inquietação, onde nada é totalmente claro, e as situações se tornam cada vez mais ambíguas.
O filme foca o seu enredo em torno de Bill, mas uma parte elementar da narração é a introdução da uma seita secreta, com suas práticas de orgias e rituais, que se torna um dos aspectos mais fascinantes e perturbadores do filme. Essa atmosfera de sigilo e manipulação sugere um mundo em que o poder e o controle estão profundamente entrelaçados com o desejo e a sexualidade. Bill, embora em busca de respostas, não consegue se livrar de sua impotência diante dessa estrutura oculta, e, inclusive, não consegue se livrar de sua impotência frente a diversas outras estruturas de poder, mesmo com o status quo privilegiado que carrega, (branco, cis, hétero, médico, classe média-alta).
Kubrick, famoso por seus detalhes meticulosos e por desafiar as expectativas do público, constrói essa narrativa cheia de simbolismo e pistas, em que nunca chega a entregar respostas definitivas. Há diferentes códigos, que levam a diferentes reflexões da elite social e política, não como um objeto mal formado e sem identidade, mas sim como pessoas, que permeiam e controlam a sociedade. O cineasta reforça a ideia de que há realidades paralelas em nossa vida cotidiana, invisíveis aos olhos da maioria das pessoas. Nesse contexto, qual seria o nosso papel na sociedade, dentro dessas estruturas de poder que se apresentam de maneiras tão determinantes?
Por Sophia Helena Ribeiro
