
“Is there anything so undoing as a daughter?” – Silco
(Será que há uma ruína maior do que uma filha?)
A segunda temporada de Arcane, recentemente lançada pela Netflix, constrói um universo que engloba algumas constelações de afetos e sentidos dentro das estruturas familiares. Apesar de esse não ser o foco da série, esse texto vai discorrer nesse sentido. Acredito que a maior parte das dinâmicas da história começa no núcleo familiar, ou na falta deste. Em uma análise dos sentimentos evocados por meio da animação, tracei alguns paralelos entre a construção de personagens femininos dentro da ficção e a influência da família. Aproveito para recomendar a série, que caminha entre discussões de segregação, desigualdade social, trauma, poder, tecnologia, guerra, infância e família, vale a pena assistir!
AVISO: Contém spoilers sobre a série, leia por sua própria conta e risco.
Jinx X Vander X Silco X Vi
Jinx não nasce Jinx. Ela originalmente foi nomeada como Powder, e é uma das personagens centrais de Arcane. Sua trajetória é uma das mais trágicas e complexas de toda a série. Desde criança, acompanhamos sua luta por sobrevivência e as marcas profundas em sua personalidade advindas de seus traumas. A jovem órfã é moradora de Zaun (cidade fictícia da série) e vive com sua irmã mais velha, Vi, e seu pai adotivo, Vander. Powder é uma menina sensível, insegura e frequentemente a vemos em um lugar de destaque ou sobressalência, como se ela não se encaixasse nos lugares que quer ocupar. Em uma tentativa de não ser excluída, ela sempre tenta ajudar e agradar os outros, o que tende a resultar em desastres. A primeira parte da tragédia é ter presenciado, tão nova, o assassinato de seus pais por oficiais de Piltover (outra cidade ficctícia da série), o que se transmuta em um sentimento de profundo ódio pela população de lá.
A segunda parte da tragédia começa quando, durante uma missão em Piltover, ela causa uma explosão que mata vários de seus amigos, levando-a ao sentimento de culpa e à rejeição de sua irmã Vi, sua única parente viva, já que Vander também morre posteriormente, tentando salvar as duas filhas adotivas. Após o episódio, Powder é resgatada pelo controverso Silco, porém a história deles está emaranhada em muitas outras histórias do passado. Silco era amigo próximo de Vander, assim como era de Felicia, mãe de Power e Violet (nome completo de Vi). Juntos, os amigos tinham planos de reerguer Zaun e criar um local próprio para o desenvolvimento das futuras gerações. Após a morte dela, Vander e Silco divergem em suas projeções de como construir e alcançar esse progresso e, por causa disso, acabam brigando e se tornam inimigos.
Silco, por sua vez, torna-se um líder violento e criminoso de Zaun, e a adota como filha, mudando seu nome para Jinx. Esse é um episódio simbólico da trama, já que “Jinx” pode ser traduzido como azar e foi uma das últimas palavras que ela escutou de sua irmã antes de ficarem longo tempo separadas. Sob influência de Silco, Jinx se transforma em uma figura caótica e imprevisível, que ativamente busca destruição. Silco, embora a trate de maneira protetiva, também a manipula e utiliza sua vulnerabilidade para moldá-la de acordo com seus próprios interesses, incutindo nela um profundo sentimento de inadequação e dependência emocional.
Pertencimento
A personagem de Jinx é marcada pelo traço de instabilidade emocional, alternando entre momentos de vulnerabilidade e explosões de violência. Ela busca incessantemente a aceitação e um local de acolhimento, principalmente por parte de Vi, mas é consumida pela culpa e pela rejeição que constantemente sente, acreditando que essa relação nunca será a mesma. O que nos leva ao motivo de ela continuar em sua relação tóxica com Silco, que é igualmente ambígua: embora ela o veja como uma figura paterna e, consequentemente, assimila sua imagem com um local seguro, o vínculo deles alimenta sua espiral de autodestruição. Ela começa a criar armas e explosivos que são utilizadas por Silco. Sua jornada em busca de amor e pertencimento, combinada com a tentativa de ser vista e aceita, demarca também um ciclo de violência, que é alimentado pelos traumas do passado, o que a torna uma personagem terrivelmente trágica.
Embora não seja uma relação biológica de pai e filha, organizei as características de Jinx e Silco dentro de um entendimento de uma paternidade distorcida e um vínculo estruturado pela manipulação, o amor tóxico e a dependência.
Arcane evita reduzir suas protagonistas a papéis unidimensionais de filhas obedientes ou rebeldes. Jinx, por exemplo, é uma figura que resiste ao controle, mas sua jornada também é marcada por uma busca desesperada por aprovação, seja de sua irmã, de figuras paternais como Silco ou até do mundo em geral. Ela se torna um ícone aos olhos da população de Zaun, e inconscientemente evoca no imaginário de todos que é preciso resistir à violência institucional infligida por Piltover. Porém, não o faz propositalmente e não alimenta as expectativas dessas pessoas oprimidas. Essa dualidade subverte o estereótipo da “boa filha” que tradicionalmente permeia as narrativas femininas, e também dá destaque para a complexidade da mente feminina, explorando seus aspectos psicológicos, fugindo um pouco desse espaço de ficção, e humanizando essas existências com dilemas naturais de nossa psique. Eu a considero como uma anti-heroína, já que ela não é totalmente (e nem chega a se tornar), uma vilã. Para alguns ela é uma mártir, uma guerrilheira, uma louca e, no fim, demasiadamente humana — uma humana demasiadamente traumatizada. Ao contrário de Vi, que evoca a imagem da heroína, se une a Piltover em busca de aliar-se com os “inimigos”, utiliza de ferramentas opressoras em seus conterrâneos, e após isso inicia uma caça à Jinx, em busca de conter a destruição da irmã.
A figura paterna substituída
Jinx teve contato com o pai biológico na infância Também teve o carinho e o cuidado de Vander. Em contraste, Silco nunca foi ou agiu como o pai dela, mas assume um papel paterno por se enxergar na figura abandonada e traída de Jinx, um paralelo de sua relação com Vander. Ele se torna, então, a única pessoa que a aceita e a entende, mesmo que de uma forma perversa e deturpada, já que não a vê como uma filha (pelo menos não no sentido tradicional), mas como uma ferramenta para atingir seus próprios objetivos.
Controlando-a emocionalmente, alimentando sua insegurança e sua necessidade de aprovação, percebe-se também uma possessividade, o que pode demarcar uma dependência mútua, já que Silco também foi abandonado. Ele precisa da lealdade de Jinx para realizar seus planos, enquanto Jinx, por sua vez, precisa da validação e da aceitação dele. Ele ajuda a criar essa nova identidade para ela, enquanto a mantém isolada, e Jinx cresce com o entendimento de que seu valor está diretamente ligado ao quanto ela pode agradar Silco. Seu amor é condicionado a como ela se comporta e a seus feitos, o que acaba exigindo muito do que resta da sua sanidade.
Silco só demonstra “carinho” por Jinx em certos momentos, já que ela é uma peça valiosa para o seu jogo de conquista e expansão, o que indica que ele não a enxerga mais como pessoa, e sim como arma, alimentando a falsa ideia de que ela é tudo o que ele precisa. Essa dinâmica muda completamente quando Jinx mata Silco.
Culpa
Ela perde a capacidade de discernir entre o real e o ilusório (constantemente ela é retratada ouvindo vozes), o que a leva a ter transtornos ilusórios. A culpa persegue o seu consciente e, como exemplo disso, Jinx continua escutando e conversando com Silco mesmo após sua morte, semelhante ao que ocorre depois da morte de Claggor e Mylo.
A sombra do novo velho trauma
A figura de Silco, em vez de ser um modelo de amor protetor, torna-se uma sombra que a impede de se recuperar de seus traumas e de se encontrar como sujeito. O abandono a marca profundamente. Antes da morte de Silco, Jinx se via entre dois mundos: a lealdade à figura do “pai” e o desejo de ser amada pela irmã. O conflito entre esses sentimentos é um dos motores centrais de seu sofrimento, até ela encontrar Isha, que se torna uma espécie de irmã mais nova. Jinx também parece presa em outro ciclo devido aos traumas, ela não cresce; na série vemos ela como uma figura extremamente imatura, muitas vezes presa na eu “menina”/”criança”. Vemos então, seus ataques de raiva sem sentido, como símbolo de que esta não amadureceu, mudança percebida somente nos episódios finais, em que ela assume a responsabilidade de seus atos, e volta com atitude e aparência diferente.

Vi X Jinx X Vander
Trauma, perda e abandono moldam o ambiente de Zaun, de maneiras imprevisíveis e destrutivas. A relação entre Powder e Vi, que começa com amor e proteção, se transforma em uma separação dolorosa. Powder se sente traída pela irmã e Vi sente profundamente a dor e a culpa de tudo que lhes ocorreu, por imaginar que deveria zelar e cuidar da irmã mais nova. Esse distanciamento é a peça principal dessa relação conturbada. Ela anseia reconciliação, mas é incapaz de escapar das sombras. Vi é uma das vítimas das circunstâncias e de um sistema que, esquematicamente, a abandonou.
Essa relação também revela como as responsabilidades e expectativas impostas a filhas mais velhas recaem desproporcionalmente sobre elas. Vi assume o papel de protetora de sua irmã após a morte dos pais, o que reflete uma representação comum em narrativas femininas: carregar o peso emocional e físico da sobrevivência da família. Essa dinâmica levanta questões sobre como as filhas são frequentemente moldadas pela obrigação de cuidar, mesmo em detrimento de seus próprios desejos e desenvolvimento pessoal.
O que, particularmente, é muito bem construído e desenvolvido na série, porém ainda reflete alguns estereótipos dentro da construção narrativa de personagens femininas, não escapando desse denominador comum que é a espiral de autodestruição acarretada pelo peso das obrigações dentro desse espaço de cuidadora. E, brilhantemente, a série também mostra como as mulheres, especialmente as filhas, muitas vezes carregam o legado emocional de suas famílias ou comunidades.
Nesse espaço da falta da maternidade, acredito que é refletido como um cenário onde as duas são constantemente moldadas ou definidas por padrões masculinos de autoridade, reforçando como a maternidade é frequentemente negligenciada na construção das jornadas femininas em ficção. Após a morte da mãe e do pai, elas são forçadas a se tornarem personagens autossuficientes, e vivendo em um ambiente hostil para mulheres, e acabam rodeadas da presença e do exemplo masculino. Também é importante tocar no ponto da dificuldade das filhas em afirmar sua independência emocional. Tanto Vi quanto Jinx têm suas identidades marcadas pela influência de figuras paternas, e sua luta para romper ou redefinir essas relações é uma metáfora potente para o processo de emancipação feminina.
Mel Medarda X Ambessa X Kino
Mel Medarda é uma personagem muito sofisticada, que participa de um grande jogo de influência na política de Piltover, a próspera e rica cidade do progresso. Ela é uma das Conselheiras da cidade, no posto de uma das líderes mais proeminentes na criação de leis e decisões que afetam tanto Piltover quanto Zaun. Mel é uma mulher de inteligência ímpar, habilidades diplomáticas excepcionais e um desejo claro de manter o status quo, de forma a aumentar seu domínio, o que é posteriormente explorado dentro da série por meio das ambições e expectativas de sua mãe, Ambessa Medarda.
Na série, ambas buscam desenvolver grande influência na luta por controle e status. Com diferentes papéis e atitudes, suas histórias ilustram questões de poder, política e manipulação. Mel é apresentada, muitas vezes, como manipuladora, principalmente no início de sua relação com Jayce (outro conselheiro da cidade), por oferecer apoio político e emocional para ele, ajudando-o a obter influência e, ao mesmo tempo, se beneficiando de sua ascensão. Ela então, se aproveita de suas habilidades sociais e políticas para alcançar seus objetivos e proteger seus próprios interesses com uma fachada de refinamento e ,civilidade. É implacável quando se trata de alcançar suas ambições, signo da hierarquia marcante da alta sociedade de Piltover. Sua postura política é cautelosa e estratégica, seu objetivo exterior é manter a cidade livre de quaisquer ameaças externas, especialmente vindas de Zaun.
Ambessa Medarda é de outra nação, Noxus, conhecida por sua cultura belicista. Como líder de uma família poderosa, é uma personagem mais enigmática e agressiva, e faz tudo ao seu alcance para proteger, consolidar e expandir o poder da sua família. Simboliza, dentro da trama, uma figura autoritária e militarista, com uma visão mais direta de como alcançar e manter o poder, muitas vezes usando a força e a guerra como instrumentos da “paz”.
Seu ideal político para trazer estabilidade em Piltover diverge de Mel, e sua postura é mais intolerante em relação a ameaças e a qualquer tipo de insubordinação. O relacionamento das duas é marcado por uma dinâmica complexa, na qual Ambessa exerce grande influência sobre a filha, principalmente por ter medo de perdê-la, como ocorreu com seu filho, Kino, levado pelos opositores/inimigos de Ambessa. Seus excessos em relação à força e ao poderio militar camuflavam o medo de perder Mel para a Rosa Negra, conflito que é herança das suas relações com o pai de Mel.
Herança e legado
Ambessa acredita que somente através da força é possível garantir a ordem, o que contrasta com o estilo de liderança de Mel, que representa a nova geração de líderes mais diplomáticos e estratégicos. A mãe, por sua vez, encarna essa política ultrapassada de Noxus, que só entende a linguagem da guerra, revelando como o patriarcado e as expectativas de gênero moldam as trajetórias das mulheres em busca de poder. O contraste entre a liderança feminina baseada na força (representada por Ambessa) e a liderança mais estratégica e diplomática (representada por Mel) também abre uma reflexão interessante sobre como cargos “tradicionalmente” associadas ao gênero feminino, como a diplomacia e a flexibilidade, ainda são vistos como menos “legítimos” e eficazes do que as abordagens mais agressivas e militares, consideradas masculinas (mesmo que essas características estejam transpostas em uma mulher).
As expectativas familiares e sociais que recaem sobre Mel refletem a pressão constante que mulheres em posições de poder enfrentam. Ambas têm seus próprios interesses, e as diferenças entre elas se tornam um ponto de atrito, especialmente à medida que Mel tenta se estabelecer politicamente e lidar com as expectativas de sua mãe, que ainda vê o poder através de uma lente mais controladora. O conflito entre mãe e filha reflete a diferença de abordagem dentro de uma mesma linhagem em busca de controle. Enquanto personagens como Jayce têm suas ambições apoiadas e validadas, as protagonistas femininas frequentemente lidam com dúvidas, subestimação e a constante necessidade de provar seu valor diante de figuras autoritárias. Esse contraste revela como o patriarcado impõe condições desiguais para o desenvolvimento de filhos e filhas, refletindo uma dinâmica de gênero que se perpetua até mesmo em universos fictícios.
Orianna X Singed X Vander
Singed é um cientista/alquimista que é corrompido pela culpa da morte prematura de sua filha, Orianna, e então cria a Cintila, uma espécie de químico que foi utilizado para preservar o corpo dela. Posteriormente passa a ser comercializado como droga, o que vicia uma grande parte da população de Zaun, e até mesmo de Piltover. Quando Singed encontra o corpo de Vander quase morto, ele acaba resgatando-o para utilizá-lo em seu experimento que torna Vander em Warwick, um humano transmutado em lobo. Salva a vida de Vander mas prejudica severamente sua sanidade, pois agora, em sua versão monstruosa, ele é movido pelo cheiro de sangue e pela carnificina.
Orianna, a jovem mulher que é transformada em máquina, representa também essa relação com o poder científico de Singed, que como um homem da ciência não permite ser limitado pela ética e cria a narrativa de que teria passe livre para realizar atos inumanos em nome do amor e devoção que tinha pela filha. Eu gostaria de demarcar que o caso de Singed e Orianna simboliza a forma como homens buscam o controle de corpos femininos, já que ele não permitiu que a própria filha morresse, trazendo-a de volta como uma espécie de autômata/robô.
Sua mecanização, construída a partir do desejo de seu pai por ideais de “perfeição” e “controle”, também pode ser lida como uma redução voluntária do corpo a objeto, removendo sua humanidade para moldá-la de acordo com padrões de desejo masculino, já que ela acaba perdendo sua autonomia, seus desejos e sua essência. Mulheres são frequentemente vistas como objetos a serem moldados, corrigidos, protegidos ou controlados para atender às expectativas diversas que lhes circundam.
Por fim, gostaria de celebrar o enorme sucesso da série em retratar histórias femininas complexas, com personagens bem escritas e imaginadas. League of Legends, o jogo em que Arcane se baseia, é um jogo conhecidamente racista, misógino e preconceituoso no geral, e quando paramos para refletir “que 74% da população brasileira joga online e que o jogo League of Legends é um dos jogos mais jogados atualmente – contando com mais de 8 milhões de jogadores ativos”, é de certa forma revolucionário que a série trate de romances lésbicos, protagonistas mulheres, metáforas de dinâmicas de poder e gênero, assim como reflexões em relação à gênero e família. Mesmo que esse não seja o tema principal da história, ainda assim traz visibilidade positiva para essas causas, principalmente dentro da esfera tóxica dos jogadores de LoL.
Aproveito para recomendar o estudo da Bruna Cristina Assali Pires sobre o “Comportamento tóxico de jogadores de League Of Legends pela ótica de Winnicott”, que foi citado aqui em cima. Ela conseguiu, “a partir da análise de dados, […] observar que a realização de comportamento tóxico advém, principalmente, de homens héteros, entre a faixa dos 18 anos aos 27 anos, que investem um bom tempo do seu dia jogando League Of Legends, comumente relatando que não se afetam com eventuais comportamentos tóxicos e que, inclusive, acreditam que ofensas no meio virtual possuem menos peso do que na realidade.”
Ou seja, temos provas concretas que os jogadores de League of Legends apresentam e/ou estão habituados a esse ciclo de toxicidade, e que “alguns comportamentos tóxicos são mais permitidos que outros”. O texto de Pires não é sobre Arcane (e sim sobre LoL), mas versa sobre uma parte da fanbase do material que inspirou a série, o que traz um importante viés para quem é aficionado pela lore.
Essa crítica tenta oferecer diferentes perspectivas da experiência de ser uma filha dentro de Arcane, explorando as nuances da responsabilidade, do sacrifício e também da busca por identidade. Sob uma lente feminista, a série pode ser lida tanto como uma crítica, quanto como uma exploração das pressões sociais que moldam as experiências das mulheres, especialmente no contexto familiar. Ao colocar o desenvolvimento dessas histórias no epicentro, desafia-se alguns estereótipos, porém é possível notar que questões de gênero entram em conflito até nas histórias que acreditamos serem mais progressistas.
Por Sophia Helena Ribeiro
