A feminilidade no horror slasher

No cinema, os filmes são classificados por categorias narrativas, os gêneros cinematográficos, como o romance, a comédia, o drama, o horror e vários outros. Dentro desses existem os subgêneros. No horror, há os filmes sobrenaturais, que geralmente retratam possessões ou a presença de forças além da compreensão humana, com clássicos como O Exorcista (1973) e Invocação do Mal (2013). Também existem os filmes de found footage, que simulam gravações amadoras de eventos aterrorizantes, como em A Bruxa de Blair (1999). O horror corporal explora transformações físicas grotescas e a degradação do corpo, como em A Mosca (1986). 

No gore, a violência explícita e chocante é o foco, como em Jogos Mortais (2004). Outros subgêneros incluem o terror teen, voltado para jovens e geralmente envolvendo mistérios ou perseguições, como em Pânico (1996); o terror psicológico, que lida com a mente e o medo do desconhecido, como em O Iluminado (1980); o trash, que abraça o absurdo e o exagero, como em O Ataque dos Tomates Assassinos (1978); e o thriller de horror, que combina tensão e elementos sobrenaturais ou humanos, como em Corra! (2017). Por fim, o slasher, um subgênero marcante, que ganhou destaque especialmente nos anos 80, trazendo histórias sangrentas de assassinos em série, com armas brancas, perseguições intensas e vítimas marcadas pelo destino. 

O nascimento do slasher 

A palavra “slasher” vem do verbo em inglês to slash, que significa cortar ou retalhar. Esses filmes têm como característica principal a presença de um assassino, que utiliza armas brancas (como facas, machados ou serras) como método de ataque, além de um figurino ou máscara memoráveis que se tornam marcas registradas.

Nos slashers, o assassino é muitas vezes o personagem mais marcante, tornando-se o ícone das franquias, como Michael Myers (Halloween), Jason Voorhees (Sexta-Feira 13), Leatherface (O Massacre da Serra Elétrica), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo). Além disso, os filmes frequentemente seguem um padrão narrativo envolvendo um grupo de jovens – geralmente imprudentes – que são perseguidos e assassinados, enquanto uma única sobrevivente, a famosa Final Girl (Garota Final, em português), consegue escapar do massacre. Porém, também é comum nesse subgênero que as mulheres sejam a maioria das vítimas, com mortes muito violentas. Exemplo disso é Michael Myers ser conhecido como “o matador de babás” e Jason Voorhees como “caçador de  jovens que fazem sexo”. 

Embora o slasher tenha se consolidado como um subgênero na década de 1980, suas origens podem ser rastreadas até filmes dos anos 60 e 70. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, é frequentemente citado como um precursor do gênero, com sua câmera subjetiva que coloca o público na perspectiva do assassino. Outro exemplo é Tortura do Medo (Peeping Tom, 1960), que também explora o ponto de vista do agressor.

Um filme que também fez parte do surgimento do slasher, porém menos conhecido pelo grande público, é Black Christmas (1974). A obra introduziu elementos que seriam cruciais para o gênero, como um grupo de jovens vítimas e a visão subjetiva do assassino. Entre os fãs do subgênero, é considerado um dos primeiros slashers modernos.Mas foi com Halloween (1978), dirigido por John Carpenter, que o slasher encontrou sua forma definitiva, como conhecemos hoje. O filme popularizou a figura do assassino mascarado – Michael Myers –, cujas motivações são quase sobrenaturais. Ele persegue suas vítimas com frieza e utiliza facas ou o próprio corpo para matar. Além disso, introduziu ao público a Final Girl mais famosa do horror até então: Laurie Strode, interpretada por Jamie Lee Curtis.

Laurie Strode em “Halloween” (1978)

A construção das personagens femininas

Afinal, quem são as Final Girls? É provável que você já tenha lido ou escutado esse termo em algum momento. Foi citado pela primeira vez pela professora de estudos de cinema estadunidense Carol J. Clover no livro Men, Women, and Chainsaws, de 1992 (Homens, mulheres e serras elétricas, em tradução livre). Resumindo, a Final Girl é a personagem que tem desenvolvimento psicológico e introdução no início do filme. No final, é ela quem enfrenta o vilão da história, desafiando os papeis tradicionais de gênero, derrotando-o por conta própria ou sendo resgatada no último instante por alguém, como um policial. Sua sobrevivência é retratada como um “privilégio”, pois ela tem uma suposta superioridade moral, já que, diferentemente de seus amigos, ela evita certos comportamentos considerados transgressivos, como sexo e uso de drogas.

Clover também nos diz que essas personagens femininas são escritas a partir do olhar masculino. Laura Mulvey cunhou pela primeira vez o termo male gaze (olhar masculino), em seu ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema. E o conceito tem a ver com a forma de representar as mulheres através de estereótipos e estigmas masculinos. O olhar masculino no cinema transforma as mulheres em objetos de desejo, reduzindo sua profundidade psicológica e relevância narrativa em favor da perspectiva masculina heterossexual. Seus sentimentos e desejos são secundários, e sua presença muitas vezes não impacta a trama. Além disso, o conceito exclui olhares queer ou homossexuais, focando na visão masculina heteronormativa.

O olhar masculino no cinema também reforça a passividade das mulheres, que são apresentadas como portadoras de significado, mas não como criadoras dele. Elas não controlam a cena, apenas existem para serem observadas de forma objetificada. Enquanto isso, os homens raramente são sexualizados da mesma maneira, pois o cinema tradicional não convidaria as mulheres a desejá-los. Para participar desse olhar, a mulher precisa se identificar com a perspectiva masculina, assumindo o papel de observadora sob os mesmos moldes da objetificação que a exclui.

Apesar disso tudo, no slasher as final girls quebraram um pouco a dinâmica de identificação entre gêneros, fazendo com que os homens também conseguissem se colocar no lugar daquela personagem feminina e torcer por sua vida. Clover sugere que isso se dá pois o filme slasher “resolve” a fetichização eliminando as personagens femininas ao longo da trama e reconstruindo a final girl com características tradicionalmente masculinas, como no auto-resgate e lutar para se tornar uma heroína. Assim, mesmo quando uma mulher sobrevive, é apenas porque ela se adapta às exigências de um cinema dominado pelo olhar masculino.

Sally Hardesty após sobreviver do Leatherface em “O Massacre da Serra Elétrica” (1974)

No cinema de horror, especialmente nos filmes slasher, o terror é representado como feminino, pois expressões intensas de medo e vulnerabilidade, como gritos e súplicas, são tradicionalmente associadas às mulheres. Como aponta Clover, enquanto as mortes masculinas costumam ser rápidas e ocorrer fora de cena, as vítimas femininas são perseguidas e torturadas por mais tempo, permitindo que sua angústia seja explorada visualmente. Essa lógica reforça a centralidade do olhar masculino, que não apenas objetifica e elimina as mulheres, mas também transforma sua dor e fragilidade em espetáculo. Ainda, acrescento que o fato de todas as Final Girls serem brancas, e em sua maioria loiras, reforça essa fragilidade e explica a ausência de protagonistas negras, pois elas não são vistas como pessoas indefesas e merecedoras de compaixão por sua luta em busca da sobrevivência. Ou são retratadas como transgressoras que devem ser eliminadas, especialmente quando hiperssexualizadas – outro estereótipo frequentemente associado às mulheres negras.

A exclusão não se limita apenas às Final Girls, mas se estende ao próprio cinema de horror, que é majoritariamente dominado por produções norte-americanas. A hegemonia desses filmes dita padrões estéticos e narrativos, restringe a diversidade de representações e marginaliza personagens racializados, dificultando a ampliação de olhares que fujam da perspectiva branca e ocidental, embora algumas produções recentes busquem romper com esse modelo, como os filmes de Jordan Peele. 

O gênero slasher também reforça o fenômeno de culpabilizar as mães, principalmente pela criação na infância, pelo destino violento de seus filhos, como exemplificado nos filmes Psicose e Halloween, onde a figura materna é associada à origem da violência. Esse processo pode ser analisado a partir da psicanálise, especialmente pelas teorias freudianas sobre a relação dos filhos com suas mães.

Sigmund Freud teorizou que a relação primária da criança, especialmente dos meninos, com a mãe envolve tanto um vínculo de afeto quanto uma tensão decorrente do Complexo de Édipo. Nesse sentido, a mãe pode ser vista simultaneamente como uma figura de desejo e como uma ameaça à independência do filho, gerando um conflito psíquico que, no cinema de terror, é frequentemente representado de maneira distorcida e violenta. Em Psicose (1960), Norman Bates não apenas internaliza a presença materna a ponto de incorporar sua identidade, mas também vê sua sexualidade como algo punível pela mãe, desencadeando sua violência. O filme reforça a ideia de que a maternidade excessivamente controladora e castradora pode levar o filho à loucura e ao homicídio, ecoando estereótipos da “mãe sufocante” que, segundo a psicanálise, impediria o desenvolvimento saudável da masculinidade.

Em Halloween (1978), a figura materna é menos explícita, mas a culpa pela violência de Michael Myers ainda recai sobre sua criação, reforçando a ideia de que a falha materna na infância é a raiz do comportamento assassino. O terror slasher, de forma geral, perpetua esse imaginário ao apresentar assassinos que frequentemente têm uma relação problemática com a mãe, seja pela ausência, pelo excesso de proteção ou por uma sexualidade reprimida e distorcida.

Além do fator psicanalítico, há um simbolismo visual presente no slasher que reforça a conexão entre violência, desejo reprimido e gênero. O ato de esfaquear, central na coreografia desses filmes, muitas vezes remete a movimentos eróticos, o que intensifica a associação entre sexualidade e violência. A faca, como um símbolo fálico, é usada para penetrar os corpos das vítimas de maneira agressiva e repetitiva, transformando a cena de assassinato em um espetáculo de dominação, punição e fetiche. Essa lógica se alinha à construção dos assassinos masculinos no slasher: muitas vezes, sua violência é desencadeada por frustrações sexuais e um desejo de exercer controle sobre figuras femininas.

Dessa forma, o gênero slasher não apenas reforça a fetichização da violência contra a mulher, mas também perpetua uma visão deturpada da maternidade, responsabilizando as mães pela violência dos filhos e sugerindo que a repressão ou excesso de proteção materna pode levar à loucura e ao assassinato. Esse padrão narrativo não apenas reforça estereótipos misóginos, mas também limita as possibilidades de representação de personagens maternas e femininas no cinema de horror.

O auge e o declínio do gênero
Nos anos 80, os slashers atingiram seu auge. Franquias como Sexta-Feira 13, O Massacre da Serra Elétrica e Halloween estabeleceram fórmulas narrativas que seriam repetidas inúmeras vezes. O assassino mascarado tornou-se quase uma força da natureza, implacável em sua perseguição às vítimas.

Mas, à medida que o mercado foi saturado com produções de baixa qualidade e histórias repetitivas, o gênero começou a perder força nos anos 90. Pânico (1996), dirigido por Wes Craven, subverteu vários aspectos tradicionais do gênero, numa época em que o slasher estava em crise. O filme, com metalinguagem, autorreflexão e piadas com os clichês dos filmes anteriores, renovou o slasher. Sidney Prescott (Neve Campbell), é a final girl do filme: ela luta com o assassino, Ghostface, não é virgem e consegue se salvar sozinha; na verdade, com a ajuda de outra mulher no final. Dessa forma, o filme ia contra tudo o que estava sendo feito no slasher.  Porém, o subgênero não conseguiu sustentar sua popularidade por muito tempo.

O renascimento do slasher nos anos 2020

Após décadas de altos e baixos, o slasher voltou a ganhar força nos anos 2020, resgatando sua estética clássica e, ao mesmo tempo, reinventando suas narrativas. Produções como o reboot de Halloween (2018) e Pânico (2022) trouxeram de volta as icônicas Final Girls para confrontar os assassinos que marcaram o gênero, mostrando que essas personagens femininas não apenas sobreviveram ao massacre original, mas também se tornaram tão centrais à franquia quanto seus antagonistas, os assassinos mascarados.

O lançamento de novos filmes como as trilogias Rua do Medo (2021), da Netflix, e X- A marca da Morte, Pearl (2022) e Maxxine (2024), da A24, fizeram com que o subgênero passasse por uma atualização que combinou nostalgia com estética retrô e moderna, além de várias referências aos filmes dos anos 80. Saudando os slashers antigos, mas trazendo uma narrativa completamente diferente daquele tempo, continuando o que Pânico iniciou, mas de uma forma ainda mais escancarada, fugindo da protagonista inocente, branca e classe média. 

Não são apenas as mulheres lutando pela vida e fugindo de vários assassinos, mas um casal de mulheres – e spoiler – que não morrem no final. Não é apenas a garota que não é mais virgem sobrevivendo, mas uma atriz de filmes eróticos; e não mais um assassino mascarado, mas uma assassina idosa. É interessante ver como estes filmes bebem na fonte do subgênero slasher mas conseguem também subverter várias chaves das representações de gênero. Como em X, em que os homens morrem primeiro que as mulheres e por meio de mortes também brutais em tela.

Para o futuro

O slasher é um subgênero que, apesar de suas limitações narrativas e críticas ao longo dos anos, conseguiu se reinventar e permanecer relevante. Ele não só moldou a forma como vemos o horror, mas também criou ícones culturais que continuam a influenciar o cinema até hoje. Seja pelo apelo nostálgico ou pela capacidade de refletir temas sociais e culturais, os slashers continuam a cortar fundo na imaginação do público. Se antes a sobrevivência era um privilégio das mulheres brancas e moralmente “corretas”, hoje vemos protagonistas que não precisam mais se encaixar nesses moldes para existir.

Apesar disso, o gênero horror e seus subgêneros ainda carregam marcas de exclusão. Durante anos, personagens negros foram relegados a papéis descartáveis, sendo conhecidos por serem os primeiros a morrer e reforçando a ideia de que seus corpos não eram dignos de protagonismo. Diretores como Jordan Peele desafiam esse padrão, colocando personagens negros no centro da narrativa e subvertendo a lógica que antes os condenava à morte precoce. Da mesma forma, filmes recentes, como As Boas Maneiras (2017) e Morte, Morte, Morte (2022), ampliam a representação de gênero e sexualidade, permitindo que mulheres queer e personagens racializados tenham mais espaço na trama. 

Para o futuro do slasher, espero que foque em um horror que muda quem tem direito a viver para contar a história. Antes o gênero reafirmava papeis de gênero e raça limitantes, agora ele pode se tornar um espaço de reinvenção.

Alguns produtos que me ajudaram a escrever este texto: 

Slasher, gore, trash e mais: conheça os principais subgêneros do terror 

Cronologia Slashers – Selvagem Podcast 

Teoria do cinema feminista 101: “The Final Girl” de Carol J. Clover 

Teoria do Cinema Feminista 101: Definindo o Olhar Masculino 

As Final Girls são feministas? 

Por Ana Rodrigues

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