Apoio e ação contra o racismo

O Ariadnes existe para acreditar nos testemunhos de pessoas que sofreram violências de gênero ou sexualidade no ambiente universitário. E em nossa prática, entendemos que é preciso compreender essas violências entrelaçadas a raça, classe, etnia, deficiência, idade, enfim, marcadores de identidade que delimitam privilégios e opressões.

Ana Luiza está com a gente desde 2023. E ela, assim como muitas, muitos e muites de nós, foi vítima de racismo ou de outras violências e opressões fundadas em nossas identidades, que divergem do que é normalizado (o homem branco cisheterossexual). É ingenuidade pensar que Ana, como mulher negra, vive no mundo com os mesmos privilégios de mulheres brancas e homens negros, por exemplo. Assim como é ingenuidade pensar que, porque o caso ocorreu numa república particular, não diz respeito à universidade.

Nós estamos ao lado dela desde que nos relatou as violências que enfrentou. E continuaremos caminhando assim. Porque o que ocorreu com Ana Luiza não deveria ocorrer com ninguém, e diz respeito a nós. Ficamos felizes por ver a universidade e outras instâncias demonstrando sua indignação ao acontecimento (infelizmente, mais um em uma longa história e entre outros casos recentíssimos). Contudo, repetimos o que temos falado no Ariadnes: é preciso ir além do repúdio.

Assim como é preciso ir além das ações de punição, fundamentais para reprimir outros atos e inibir os perpetradores, para reforçar que racismo é crime; que, embora estrutural, é praticado por pessoas, contra outros sujeitos. Mas não podemos pensar em ações que mitiguem a misoginia, a lgbtqiafobia, a transfobia, o racismo, apenas na chave do que ocorre depois: porque o depois pressupõe que essas violências continuam ocorrendo. Ou seja: não questionam, não tentam desmontar, seu caráter estrutural e histórico na sociedade.

O depois também significa, como nos lembra Débora Diniz, que aquilo que se quebrou, a integridade da Ana e tantas mulheres negras, terá de ser reparado, e talvez nunca fique inteiro novamente. Nossa missão tem de ser, em última instância, evitar a cicatriz. Nossa missão é no antes.

Para isso, não podemos nos esquecer que estamos em um ambiente educacional, e que toda e qualquer medida deve estar fundada em ações educativas. Sem uma transformação na educação, qualquer saída é provisória. bell hooks nos convida a sermos radicais: no combate ao racismo, é preciso ser radical.

A maioria dos, das e des estudantes chega à universidade sem letramento racial. Assim como o corpo docente, o corpo técnico, o corpo de pessoas terceirizadas. Em que medida a Educação Básica e a graduação, no Ensino Superior, nos educam em relação ao racismo e outras formas de preconceito? Aí reside a mais radical das intervenções que a universidade deve fazer: a criação de uma comunidade fundada no respeito, nas alianças, na proteção às vulnerabilidades.

A criação de um departamento, o DEABI, Departamento de Estudos Africanos, Afro-Brasileiros e Indígenas, é passo fundamental neste sentido. A criação de disciplinas eletivas nos cursos não basta: nossa experiência mostra que quem as cursa são justamente as pessoas oprimidas ou aliadas. É preciso oferecer este letramento a toda a comunidade acadêmica, em ciclos básicos obrigatórios, para quem estuda e quem trabalha na universidade.

Defendemos também, há anos, a criação de formações transversais em raça, inclusão, gênero e sexualidade, meio ambiente, entre outras: temas urgentes que possibilitem a uma pessoa egressa da Ufop possa se posicionar e atuar de modo crítico diante do mundo em que vivemos, seja na área que for.

Defendemos, ainda, que a Ufop enfrente as questões estruturais relativas ao sistema republicano que organiza muito da vida estudantil da universidade. Amparo fundamental para estudantes, as repúblicas são foco histórico de violências e preconceitos que precisam ser encarados de frente pela universidade, inclusive nas repúblicas privadas.

Uma república ufopiana só existe em função da universidade. Sem a Ufop, não haveria qualquer república em Mariana, Ouro Preto ou João Monlevade. Não estar no campus, não ser território federal, não significa um ambiente apartado. A instituição precisa se responsabilizar sobre o sistema republicano, em uma perspectiva educativa, e discutir coletivamente este espaço da vida universitária.

O caso da Ana Luiza nos mobiliza pessoalmente; nos fere porque toca em nossos afetos mais próximos; nos dói porque a violentou. Também é importante pelo que simboliza: pela sua cotidianidade e invisibilidade (que, felizmente, dessa vez foi rompida — mas quantas outras vezes não foi?). Que seja um marco não apenas de repúdio, mas de ação. Sabemos que Ana está sendo acolhida pela gestão da Ufop, e isso é essencial. Mas é só um início. 

Equipe Ariadnes

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