Mulher indígena da etnia pataxó, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Ouro Preto, indivíduo-coletivo, Raquel Pataxó conversa com o Ariadnes sobre sua trajetória pessoal e como sua “caminhada de volta ao mundo” é acompanhada por uma comunidade inteira. Desde a demarcação de sua identidade no ambiente universitário até a inserção dos conhecimentos indígenas na prática de pesquisa e cotidiano acadêmico, ela se guia por meio dos sopros ancestrais para executar a tarefa de estar no mundo.
Raquel fala sobre os significados do 19 de abril, data que marca o Dia dos Povos Indígenas/Originários, e o que é preciso para estarmos informadas e atentas para não reproduzir estereótipos, mas sim reconhecer a luta e existência desses povos que precedem a organização de mundo que conhecemos. Os desafios são diversos e a tarefa é árdua, mas, como destaca a professora, é fundamental que as pessoas aliadas não sejam cercas, mas sim trilhas para prosseguir.

“A luta também se faz pela sobrevivência.”
Gostaria que você se apresentasse falando sobre seu nome completo, idade e contando um pouco da sua trajetória de vida:
Meu nome é Raquel Mota Mascarenhas, mas eu prefiro Raquel Pataxó. Tenho 38 anos, nasci numa cidade que se chama Itamaraju mas eu cresci num lugar vizinho que se chama Prado. São cidades que se constituem dentro do estado da Bahia. E o território de Itamaraju, a princípio, né, antes de ser uma cidade emancipada, pertencia a Prado. E Prado, antes de se tornar um aldeamento no século XIX, pertencia à cidade de Capitania de Estado de Porto Seguro.
Mas todos esses territórios, todas essas cidades, onde têm muitos aldeamentos também indígenas, assim como o Prado, foi no século 19 construído como um aldeamento indígena, para que fosse colonizado um território que é indígena e é um território do povo, da etnia que eu pertenço, que é a Pataxó.
Então, eu venho desse lugar, ou seja, eu cresci no território. Mesmo que dentro de uma localidade, a princípio, classificada como um espaço urbano, no território de Prado. Então, meus parentes, meus ancestrais estão e permanecem ali onde eu nasci, de onde eu vim. Porque nós estamos ali há muitos milênios de anos.
Então essas sobreposições de divisões coloniais, imperiais, republicanas, etc, elas foram se sobrepondo a esse lugar. Eu vim de lá e costumo falar que eu dei a volta ao mundo, tô dando a volta ao mundo, mas eu vou voltar para casa. Um dia eu volto para casa.
Dando sequência, gostaria que você descrevesse os significados de ser professora, pesquisadora, assistente social e mulher indígena. Como isso te constitui como identidade?
Eu vivi nesse lugar, nessa minha terra, nesse meu seio ancestral até os 19 anos. Então com 16 anos, quando eu concluí o Ensino Médio, eu tinha muita vontade de continuar estudando. Porque eu tinha vontade de entender o mundo, entender as coisas, as relações, coisas que eu não entendia, não compreendia muito bem. E eu sempre achei, uma forma de eu continuar achando respostas. E quando a gente começa essa trajetória, a gente começa muito por um desejo, embora a gente não saiba muito bem onde é isso vai dar.
Então eu terminei o segundo grau na minha cidade e fiquei mais ou menos três tentando vestibular, que era muito concorrido. E ainda é muito difícil passar, mas naquela época não tinha política de cotas e não tinha a possibilidade de você fazer o vestibular no seu lugar, no lugar que você reside, na escola que você estudou. Também tinha o deslocamento e para tentar esses vestibulares, até que no terceiro ano que tentei, eu passei.
Fui aprovada para a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e entrei lá no curso de Serviço Social. Antes pensava em fazer Psicologia, porque eu achava que para entender as pessoas e mas eu precisava estudar psicologia. Mas, para o meu grande prazer, eu fiz uma segunda opção e me apaixonei pela profissão. Eu acho que o que eu tô procurando é aqui mesmo, então, permaneço.
Embora a universidade tenha sido um processo difícil; porque é outro jeito de estudar, outro jeito de dialogar com os textos, com o espaço, e eu não cresci nesse ambiente. Formei no tempo esperado, de quatro anos, e trabalhei como pesquisadora com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES) e vi que gostava muito de pesquisar. Porém, também tinha a preocupação com a carreira profissional, então fiz alguns concursos e fui aprovada.
No entanto, muito pelas conversas que tinha com as professoras, fiz o processo de mestrado e entrei. Tive algumas questões familiares e precisei atrasar um pouco essa conclusão, mas, nesse meio tempo fui chamada para outro concurso que tinha feito para trabalhar no Tribunal de Justiça no interior do Espírito Santo.
Mas como tudo isso dialoga com o fato de eu ser indígena? Bom, trabalhando no tribunal, eu não me encaixei muito bem. Apesar de gostar do trabalho como assistente social, o ambiente também era muito diferente. Assim como a universidade era diferente. Eu tive um pouco de dificuldade em me adaptar em relação a como estudar e como são esses outros vínculos no início, mas depois eu me adaptei também. Entendi como funcionava.
Mas eu não consegui me integrar, não consegui ter uma receptividade. E no tribunal de justiça especificamente, tanto no que tange à forma de vestir, de falar, que você aprende. Eu aprendo, eu sou um ser humano, eu sou capaz de aprender. Mas, mesmo aprendendo e executando, eu não me sentia feliz. Então eu tracei um objetivo de sair de lá. Durante esse processo, eu vim tentar o concurso da Universidade Federal de Ouro Preto.
Eram três vagas. Uma era para cota de pessoa negra e duas vagas de ampla concorrência. Todos esses concursos, essas entradas na universidade, de graduação, de mestrado, a gente tá falando de um contexto que também não tem cotas indígenas.
Eu acho que isso dialoga muito com o que o que significa ter um indígena, ter uma mulher indígena, um homem indígena, um jovem indígena nesses espaços. É um esforço muito grande, não só intelectual, mas como também de saúde mental, saúde física, e é um esforço bem complexo. E eu tenho essa personalidade que às vezes vai ficando muito inquieta nos lugares, apesar de eu ser uma pessoa na aparência muito calma, por dentro estou em outra frequência.
“Sou como um rio. O rio você olha se não tem onda, se você comparar com o mar. Mas, por dentro, as correntezas do rio são fortes.”
Ingressei no doutorado em 2019 na [Universidade] Federal do Rio de Janeiro, mas em 2020 veio a pandemia e retornei para minha terra, fiquei lá no período da quarentena toda. Durante a pandemia eu pensei muitas vezes em não voltar para a UFOP. Principalmente por conta dessa necessidade constante de lidar com outro mundo. Todos falamos a mesma língua entre aspas, todo mundo fala português. Mas não é a mesma forma de pensar; não é a mesma forma de comer; não é a mesma forma de respirar; é muito diferente.
Então, às vezes, quando a gente vê uma pessoa indígena desenvolvendo uma função comum da sociedade a sensação de cansaço e de adaptação é cotidiana, nunca para. Você sempre tá se perguntando se você está falando propriamente, se vestindo, se comportando, dando um passo necessário, se não tá muito devagar, se está rápido. Porque o mesmo tempo de vida que eu vivi na minha terra, com as relações típicas, é o tempo que eu estou fora nessa caminhada de volta ao mundo.
Estou dando essa volta, mas a verdade é que a gente nunca sai de casa, mesmo não estando nesse território, nessa demarcação da terra. Eu estou no meu território indígena, eu sou uma pessoa indígena. É impossível deixar de ser indígena. Não é só sobre como essa identidade se constitui. Nunca é sobre Raquel, essa pessoa-indivíduo que você tá vendo aqui. Eu sou, e aí esse entendimento que nós, indígenas, temos, de que a gente é um sujeito-coletivo.
Então, o que eu faço aqui, ou o que eu deixo de fazer, se tá certo, se tá errado, são parâmetros a partir desse desse coletivo que eu faço parte. E ainda assim, é um ambiente em que esse esses outros sujeitos coletivos continuam presentes comigo. Não há uma ruptura, mas uma caminhada paralela.
Foi um processo que eu fui caminhando e essa caminhada foi se fazendo. Hoje eu estou entendendo, porque eu acho que nunca é sobre a gente ter uma resposta pronta, porque a gente ainda tá vivendo. Somos poucos indígenas no ensino superior, atuando como professoras. E é muito difícil passar num concurso de ensino superior quando ele não é direcionado para uma indígena. Ou seja, hoje no Brasil a gente não tem previsão legal de ter cotas indígenas para concurso público, embora tenha uma proposta de lei para atualizar a lei de cotas e incluir pessoas indígenas nessa conta. Embora haja casos, em algumas instituições, que essas cotas podem existir, por exemplo. É uma informação que eu tive muito recentemente de que é possível brigar para que isso aconteça.
Eu passei no concurso não evidenciando esse conhecimento indígena, mas sim porque eu absorvi e soube reproduzir um conhecimento que era estritamente acadêmico. E hoje eu tô entendendo muita coisa, mas eu não quero que outros indígenas sejam aprovados a partir desse processo, por exemplo, por que eu passei. Eu acho que a gente tem que ser aprovada por inclusive demonstrar esse conhecimento [indígena].
Não acho que seja necessariamente uma responsabilidade ou culpa dos indivíduos que constituem essa banca, mas é a reprodução de uma estrutura mesmo, de um racismo que é estrutural da sociedade como um todo. Mas que a gente pode fazer enfrentamentos.
Pensando no âmbito da UFOP, como é para você estar em uma universidade que não visibiliza ou discute questões e identidades indígenas? Ainda que no território de Ouro Preto/Mariana, a gente tenha presença próxima de alguns povos.
Olha, hoje nós temos nesse território muitas pessoas, esses sujeitos coletivos. Então a gente fala que onde um está, o nosso povo está. A gente entende que quando tem um indígena, aquele povo está presente ali. Principalmente porque somos esses sujeitos coletivos.
Em Ouro Preto, a gente tem indígenas de várias etnias, não só dentro da UFOP, que a gente tem Pankararu, Pataxó, Puri, tem Guarani. Mas a gente tem um povo específico, originário desse território, que é o povo Borum-Kren. É importante demarcar ainda que é um território vítima de mineração, o que traz migrantes que também são indígenas, que estão circulando para além de territórios demarcados ou de contexto de aldeamento, pode-se chamar assim. A gente tá falando de pessoas e povos indígenas que circulam consciente ou inconsciente com muito medo.
São povos que circulam com medo, porque a gente tem a memória de que o corpo indígena é um alvo. Então aqui, há 500 anos, 525 anos nesse território, onde entendemos como Brasil, os nossos corpos são alvo. Alvo de violência física, sexual, psicológica, financeira, vários tipos de violência.
Então, nem sempre você vai ver em corpo indígena todos os adereços necessários para você intuir que aquela pessoa é indígena. E às vezes você vai conviver com indígena por muitos anos e ele não vai te contar, por vários motivos; às vezes por falta de segurança, às vezes por um medo que é maior do que a confiança que ele tem, seja nas pessoas com quem ele vive, seja na instituição que ele faz parte, seja no território onde ele está, ou até mesmo a ausência de outros sujeitos indígenas.
Porque estou falando isso? Porque eu sou um desses exemplos. Eu estou em Mariana há 10 anos e nasci sabendo que eu era indígena. Eu sempre soube que eu era indígena. Como eu falei, eu vivi no meu território, minha família cresceu ali, são várias gerações que permaneceram no território e contam essas histórias. Claro que uma história violentada, fragmentada, que é reconstituída até hoje. Eu sou mais um elemento de reconstituição dessa história, mas muita coisa é tirada da gente por conta dessas violências, pelo medo também dessa afirmação pública de ser indígena.
A gente tem uma falsa impressão de que na sociedade como um todo nós somos vistos de forma dominante como algo positivo. Quando, na verdade, na história do país, a gente é visto como um grupo populacional que vai ser superado, que o ser indígena é algo primitivo e que a gente vai ser assimilado, integrado, civilizado e deixaremos de ser indígenas. Mas há 500 anos a gente tá afirmando que não. Que ser indígena é uma identidade coletiva, cultural, política e que nós vemos essa identidade como dispositivo.
Mas por que eu estou falando isso? Porque há dez anos eu estou Mariana na universidade, mas não é há 10 anos que eu publicizo isso da forma mais ampla possível, não. A grande maioria das pessoas não sabem ou não sabiam que eu era indígena, não porque eu negava ou escondia, mas porque eu não declarava isso a qualquer pessoa, por quê? Por conta dessa trajetória de medo.
Como é que eu digo que eu sou indígena numa instituição que eu não vejo nenhum indígena, que eu não tenho nenhum colega indígena, que as violência todas que eu conheço desse território vítima de mineração são de uma violência extrema? Eu me sinto sozinha nesse território.
Eu andava nos campus, olhava para as pessoas e eu precisava de gente. Eu sempre pensei: os parentes tão aqui, mas eles devem estar escondidos igual a mim. Porque é um ambiente muito hostil para ser indígena, muito violento. Quando aconteceu a pandemia, eu pensei em não voltar para cá, em pedir um desligamento da UFOP. Mas ao mesmo tempo que eu sentia isso, eu senti também um chamado para continuar. É difícil, mas tem que continuar. Não é sobre ser fácil, é sobre continuar a carreira. Então, eu permaneci na universidade, mas eu decidi, e foi uma decisão muito confiante de que eu ia tornar esse fato algo público.
Público no sentido que era impossível para mim não mais estar nesse lugar. Eu não queria mais me adaptar, não iria seguir algumas normas e padrões de reprodução do conhecimento, de comportamento, porque, ainda que eu tenha aprendido, eu fazia isso como uma forma de adaptação e não como uma forma de constituição de quem eu sou.
No momento que eu faço isso, eu vou encontrando outros indígenas que resolveram nos seus próprios caminhos fazer a mesma coisa. Então assim, na nossa cosmogonia, a gente entende que, quando um anuncia, todos são anunciados. Então, se nós estamos aqui, eu e você escondidas, e eu sempre uso essa analogia, se eu estou aqui num grupo de indígenas e um sai de trás da árvore, de trás da moita, de trás da do esconderijo, anuncia que tem gente atrás. A gente tem outros. Então, para mim foi um movimento muito ancestral mesmo, porque no momento que eu voltei da pandemia e que eu vim com com essa proposta de trabalho, de fazer isso numa outra perspectiva, numa perspectiva que me trazia felicidade e validade para mim, na minha existência e de estar na universidade, eu encontrei outros sujeitos que estavam fazendo isso também.
Inicialmente encontrei o Danilo, o cacique Danilo Borum-Kren, que estava ingressando na universidade, como o primeiro indígena que entrou como estudante a partir de cotas. Encontrei também o Xipu-Puri, que já estava terminando a graduação. Hoje a gente sabe que vários outros indígenas passam por essa universidade sem necessariamente publicizar essa identidade, esse pertencimento por fatores esses que são de memória dessas violências institucionais.
Nem todo indígena vai se anunciar nesse estereótipo que a gente imagina, que é o indígena que chega, fala, se declara e já ocupa o espaço e tá ali para lutar. A luta também se faz pela busca de sobrevivência, de permanecer vivo.
Então, existem muitos segmentos indígenas que permanecem vivos, mas não necessariamente se colocando publicamente, defendendo seus direitos, buscando sua sobrevivência, lutando para que haja um respeito e a permanência dos seus descendentes, mas não necessariamente fazendo isso em espaços públicos e de amplo conhecimento.
A ideia de fazer essa entrevista surgiu quando estávamos debatendo sobre o dia 19 de abril, que marca o Dia dos Povos Indígenas/Originários e a relação com a comunidade universitária. Sendo assim, o que você destacaria como o ponto central da discussão? O que estamos “celebrando” neste dia?
Acho que é muito importante que nesse dia, dos povos indígenas, não é somente uma mudança de nome, mas é a provocação para uma mudança de conteúdo, de conteúdo político, de conteúdo cultural, uma mudança de sentido coletivo. Sobre o que são os povos indígenas que são indígenas desse território antes dele ser dominado e ser estruturado a partir do capitalismo.
Então, esses povos que estavam aqui antes desse processo de dominação, de invasão, eles guardam formas de ser, de viver, modos de viver que não têm uma centralidade na mercadoria. Ao contrário, tem uma centralidade na produção da vida. Então, são modos de ser que vão ser muito diversos, muito plurais.
É muito importante que os endereços, que as as grafias, que os cantos estejam nesse dia, por exemplo, dentro da escola, mas trazendo a resistência. Dia 19 de abril, ele permanece, a gente não abre mão dele, porque ele tá demarcado na cultura popular, escolar, cultural. Mas a gente retoma esse dia. Retoma exigindo que, inclusive, nada sobre nós seja feito sem a gente, né? Nada sobre nós sem nós tem sido um mote muito grande desse dia 19 de abril.
O mês de abril também como uma demarcação dessa invasão dos territórios indígenas, ele vai também impulsionar a constituição do ATL, que é o Acampamento Terra Livre, que esse ano fez 21 anos. Um ganho desse acampamento foi a constituição de uma organização nacional, que tem várias etnias, vários povos indígenas, demarcando que nós sempre nos organizamos coletivamente.
A gente precisa de instrumentos de organização eficazes para lidar com essa violência institucional, pois quando falamos de 19 de abril, falamos também da necessidade da demarcação de terras e contra o Marco Temporal. São duas grandes bandeiras hoje que a gente levanta durante o mês de abril inteiro. A gente fala em abril para dar visibilidade a uma luta que é feita todos os dias.
É tanta violência que os parentes se sentem sem caminhos para seguir, porque às vezes a gente tá morto-vivo culturalmente. A gente tem um termo para isso, que é o etnocídio. Então, muitas vezes, o ser indígena, o povo indígena, ele é tão inviabilizado de ser quem é que ele cai em adoecimento. E aí vem o suicídio como essa sombra enorme sobre nossas vidas. Mas a gente segue firme. Seguimos firme.
A gente tem uma luta interna, que é a retomada de terra, de identidade e também tem essa luta externa que é exigir que o nosso direito da retomada cultural, da retomada, de terra seja validado.
Você poderia destacar, a partir do seu ponto de vista, quais lutas estão sendo mais deixadas de lado em alguma medida? O que a gente está deixando de olhar quando falamos do mês dos povos originários e indígenas?
Poderia falar muitas coisas, mas eu sempre escuto aquilo que me vem soprado primeiro. Então, como a gente tá aqui no ambiente universitário, eu acho que existe algo que a gente precisa ainda olhar. Na minha tese de doutorado, eu tive bastante dificuldade em trazer o pensamento indígena, não dificuldade minha, mas assim, como fazer com que a academia aceitasse o pensamento indígena e a cosmogonia Pataxó como orientadora da pesquisa, como instrumento de direção da pesquisa.
Não é uma teoria que tá num livro, não é uma estrutura teórico-metodológica que tá super sistematizada, porque nós não fomos possibilitados de fazer isso. Nós estamos fazendo isso agora. Acho que existe uma luta e que estando dentro da universidade, embora eu acredite na potência de comunicação como o Ariadnes tem, de fazer isso ir para fora da universidade, é importante também falar que antes, os indígenas, eram reduzidos a objetos: objetos de pesquisa, objetos de aproximação, objetos a serem conhecidos. Ainda que houvesse um reconhecimento da dignidade cultural do direito à autonomia, ainda eram os sujeitos falando sobre os objetos.
Eram os pesquisadores, não-indígenas, acadêmicos e políticos falando sobre. Hoje a gente tem indígenas enquanto sujeitos, numa estrutura acadêmica, falando, nós somos sempre sujeitos. Mas como professores, como pesquisadores, como produtores, como cinegrafistas, como jornalistas, a gente tem uma massa crescente de indígenas nesses lugares. E isso traz um outro tipo de violência para nós.
Nós que estamos nesses lugares muitas vezes somos inviabilizados ou invisibilizados, no sentido de que é preciso se aproximar da gente, mas não porque a gente fala do jeito certo de ser falado academicamente. Ou porque a gente faz caminhos, de ensino, de pesquisa, de extensão. Mas existe uma luta que é permitir, ou seja, ser aliado para que a gente consiga fazer o que viemos fazer nesses espaços.
É preciso que os aliados não indígenas não sejam cercas, mas sejam trilhas, caminhos onde a gente possa passar para continuar nossa caminhada e seguir a nossa tarefa coletiva que a gente vai cumprir. Eu acho que existe uma luta indígena hoje, no século XXI, nesse primeiro quarto do século, que são indígenas cumprindo funções nesses ambientes que antes nos disseram que se a gente ocupasse, a gente ia deixar de ser indígena.
E hoje existe uma luta sendo feita por mulheres indígenas, jovens indígenas, homens indígenas, população LGBTQIA+, crianças, idosos, que estão ocupando esses espaços dentro da sociedade nacional, mas não por terem deixado de ser indígenas, mas porque estão ocupando esses espaços como instrumento de luta.
Então, é preciso que a gente não seja invalidado como indígena, não seja questionado se nós somos indígenas de verdade. Porque muitas vezes falam: “Ah, mas um indígena de verdade, professor universitário; um indígena de verdade, jornalista? Mas não tá na aldeia, né?” Ou seja, a gente tá cumprindo a tarefa e não estamos sozinhos.
O processo de inserção da população indígena na universidade ainda caminha a passos lentos. Ainda que o número de ingressos tenha crescido, o debate ainda enfrenta desafios com a visibilidade, por exemplo. Nesse sentido, quais estratégias você acredita como possíveis de realizar para inserir não somente o tema, mas as pessoas nesses ambientes? E como promover e articular o diálogo entre saberes tradicionais e os saberes científicos no âmbito da universidade?
Acredito que primeiro é a instituição constituir uma política consolidada de acolhimento. Hoje a gente tem um ambiente de acolhimento, mas que é um coletivo, uma iniciativa de indígenas que estão na universidade, mas a gente tá sempre buscando por mais parentes que estejam nesses espaços. É o Coletivo Parentes, coletivo de indígenas na universidade, que tem professores, técnicos administrativos e estudantes.
Ele foi idealizado pelo Xipu-Puri e quando aconteceu esse encontro entre eu, Danilo e ele. Ele falou assim: “Ah, eu tô aqui, eu quero fazer esse coletivo, mas eu quero encontrar primeiro uns parentes pra gente anunciar que ele existe”. Então, no momento que a gente foi anunciando, o Xipu também já conhecia outros parentes indígenas e a gente vai sempre buscando, conhecendo e convidando para ingressar no coletivo. O coletivo tem o propósito antes de qualquer outro de ser um lugar de segurança.
Um lugar em que você vai encontrar outros indígenas que vão poder te ouvir, te acolher, explicar e contar um pouco da própria vivência na universidade. Porque depois que a gente se encontra e cada um conta a história, a gente vai ver que é tudo muito parecido, dessa caminhada, e o quanto que tem esse estranhamento também, de ser uma outra organização, é uma outra instituição e tal.
É, mas como eu falei, eu acho que é importante que a universidade tenha uma política institucional, e que essa política institucional seja construída com os indígenas. A gente pode ser representado desde que a gente seja ouvido, que é uma bandeira de luta do movimento nacional, a gente não vai aqui reproduzir essa essa existência de outra forma.
Mas a gente tem, por exemplo, postura de professores, de estudantes, do movimento estudantil de uma forma geral, coletivos classistas, sindicatos, que têm uma uma permeabilidade à arte indígena, da literatura indígena. Isso é muito importante também, que em todas as salas de aula, em todos os temas, cabe uma leitura de alguém indígena. Cabe articular o tema daquela disciplina, daquele currículo, daquela profissão com algum aspecto indígena ao longo do curso. Acho que é a gente tá falando de um de uma luta anti-racista, que a gente também tem que enfrentar, precisa de sujeitos não indígenas, para enfrentar e ter essa luta anti-racista.
Durante minha trajetória de pesquisa, eu cunhei um aparato metodológico ideológico que eu chamei de escuta-escrita. Então, é uma escrita que requer uma escuta, e essa escuta ela acontece o tempo todo, uma escuta desses encantados e aqui esses princípios dos antigos que nos orientam para além só do processo iluminador, para além só do livro. Então, o diálogo da universidade desse conhecimento científico, que precisa ser esterilizado, né?
Eu acho que essa palavra define bem o conhecimento nas normas do acadêmico moderno, né? A produção do conhecimento tem que ser esterilizada. Ela toma um banho assim de de cloro, de álcool, porque ela não pode falar sobre encantaria, sobre os antepassados como orientadores, como próprios que nos guiam. E que a gente tem que escutar, senão não tem validade o que a gente tá fazendo.
Prosseguindo com os grupos, a gente tem também o Coletivo Borum-Kren Vivos e Fortes, que também faz esse trabalho na universidade, faz palestra, então é importante também convidar os sujeitos indígenas para estar nesses espaços, para dar visibilidade aos parentes e outros parentes se sentirem à vontade também de se colocar, porque vê que nessa instituição é seguro. Da pessoa se colocar sendo que ela é, ela precisa sentir que tem um mínimo de receptividade. Porque a gente tá falando de sujeitos, por exemplo, quando a gente pensa no povo Pataxó, a gente tá falando de um povo que vive a ameaça de morte. Que tem parentes assassinados, três parentes assassinados no último mês, dezenas de parentes que estão presos, então é desse tipo de violência que a gente está falando.
Ninguém vai levantar uma camisa e falar: “Oh, sou indígena, olha, que coisa maravilhosa”, porque a gente sabe que isso significa um alvo quando a gente não está num lugar seguro. Embora a gente entenda a maravilhosidade de ser indígena, a gente entende que, para o outro, essa maravilha às vezes é só um alvo a ser abatido.
Acho que é importante falar sobre, fazer literaturas, referências teóricas, conhecer, mas também chamar os parentes para estar nesses ambientes, né? E parentes para além da universidade, né? Para além de ser a professora ou a liderança, mas são jeitos que estão permeando esse território e essa universidade. E aí eu acho que é importante também falar, de um outro espaço, que é um espaço institucional que constitui o foco, que tem feito esses enfrentamentos, tem trazido debate, que é o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) [transformado em departamento em 2025]. Ele faz parte de uma iniciativa a nível da política educacional nacional, com esse propósito e dever, que tem cumprido esse papel, de fazer esse debate dentro da instituição.
Quatro sujeitos, coletivos que podem ser convidados, podem instrumentalizar esse lugar. Quatro porque eu também faço parte do o Wayrakuna, que é um grupo de pesquisa, uma frente de atuação do Movimento Plurinacional de Indígenas Mulheres, que também tem o mesmo nome, Wayrakuna.
Vimos que você trabalha com o conceito de “retomada indígena”, que, segundo o cacique Babau Tupinambá, significa “um ritual de recuperar não só a terra: é tomar na mão a vida que foi tirada”. Como você definiria o termo? E como tem trabalhado com ele no âmbito da Universidade?
A retomada num ambiente acadêmico também é um instrumento teórico da gente ler a realidade, da gente explicar os movimentos da intuição, da resistência indígena nos territórios. Porque a gente tem referências que falam sobre isso, dentro da oralidade, como você citou, cacique Babau, mas também dentro da escrita e até de outros pesquisadores não indígenas, pesquisando sobre isso. E aí, a gente vai ver retomada também sendo citada como reconquista nesse âmbito plural, os nomes para denominar os movimentos da realidade.
Retomada vai ser de conhecimento geral da população para fora da população indígena muito no período da ditadura. Nos jornais e instrumentos de comunicação sobre os jornalistas, pesquisadores que observavam o movimento indígena no sujeito, os povos indígenas depois da ditadura, viam que muito era falado sobre: Vamos retomar nossos espaços, vamos retomar nossa terra, vamos fazer a luta, vamos retomar o nosso lugar, o lugar que foi tomado de nós. Nós vamos retomar aquilo que nos foi tomado. Então, essa palavra, muitas vezes, dentro desses veículos de comunicação, ela foi atribuída a ideia da retomada de terra.
Povos indígenas que foram expulsos dos seus territórios de origem, dessas terras que ancestralmente, por milênios, o povo ocupou, foram expulsos por fazendeiros, por mineradoras, por vários negócios, no ambiente do agro, desse ambiente, ou até mesmo da constituição de cidades sobre territórios indígenas.
O conceito de retomada foi então colocado por esses canais de comunicação e isso começou a ser difundido. Uma pesquisadora, a Rosane Lacerda, faz essa busca em canais de comunicação e vê que isso vai sendo reproduzido ali, mas ela capta algo muito importante a nível de concentração teórica na academia, mas que para a gente já era sabido, como você escutou na fala do cacique Babau, que a retomada não é só sobre terra.
Mas o que significa a terra? A terra é esse conjunto de outros seres com os quais a gente se constitui enquanto sujeito coletivo. Então, essa coletividade que constitui, me constitui enquanto uma indígena, que é mulher, que é Pataxó, não é só sobre a minha coletividade humana de outros sujeitos humanos, mas também a coletividade da terra, do espaço, da paisagem, do clima, dos seres, animais, dos vegetais, dos minerais, do movimento desses indivíduos, humanos ou não humanos.
A luta, a retomada de terra, ela é uma aparência, o que pode ser representado por uma sociedade que acha que terra é uma propriedade. Então, a retomada de terra para gente é retomar toda nossa resistência. É um ambiente onde a gente consegue comer, viver, flutuar, ritualizar, estar em comunhão com esse coletivo, que não é só sobre a coletividade dos seres humanos, mas essa coletividade de todos os seres que também estão naquela terra, ainda que tenham sido massacrados, às vezes até desertificados.
Que a gente tá falando também de territórios indígenas que são terras ancestralmente ocupadas que foram violentadas ao nível de serem desertificadas. E a gente tem vários povos indígenas, como o povo Pataxó, que replanta, o nosso povo refloresta, cuida das nascentes e consequentemente repovoa de animais. Junto, coletivamente nesses territórios.
A retomada, também na universidade, é feita sobre a retomada dos indígenas como produtores de conhecimento. Não que a gente tenha saído desse lugar. Mas estar na universidade é reafirmar que nós também somos produtores de conhecimento. Não somos só objeto a ser conhecido, mas também somos sujeitos que produzem conhecimento.
Por Lia Junqueira
