
É sempre um período difícil quando a maior emissora de TV aberta do país, a Rede Globo, coloca no ar três novelas boas: de verdade, bagunça o dia da gente inteiro, porque é complicado perder muitos capítulos. É o que acontece agora com Garota do Momento, Dona de Mim e Vale Tudo, respectivamente às 18h, 19h e 21h.
(É fato que a trama das seis passa por um momento ruim, claramente tentando esticar sua história – vai ser a novela do horário com o maior número de capítulos em duas décadas).
Além do sucesso, que demonstra a força e relevância desse produto na cultura nacional, as três telenovelas têm uma coisa em comum nas engrenagens centrais que as movem: as relações entre mães e filhas. A maternidade é uma das matrizes do melodrama – que, por sua vez, é uma das fontes em que o audiovisual brasileiro bebe.
São maternidades distintas, dada a riqueza da novela nacional, mas ainda assim maternidades bastantes calcadas nos ideais burgueses, capitalistas e, por certo, machistas da Mãe – ou do que Marcela Lagarde vai chamar de mãesposa: uma mulher que faz tudo, tudo, tudo mesmo pelos filhos, porque o amor de uma mãe pelos filhos é natural, incondicional e supera qualquer outro afeto.
Raquel e Odete, as duas figuras femininas centrais de Vale Tudo, demonstram bem esse modelo idealizado: Raquel aceita de bom grado o papel trouxa que a filha, a vilãzinha Maria de Fátima, continuamente lhe oferece. A pobre já foi até renegada pela filha. Ética (já entrei num debate com uma amiga se kantiana ou aristotélica…) até a raiz dos fios dos belos cabelos de Taís Araújo, Raquel é alvo fácil para o utilitarismo de Fatinha.
Esse senso ético é próximo à maternidade de Odete Roitman: ela faz de tudo para ver os filhos felizes. Os problemas são que 1) faz tudo com os outros e 2) a felicidade dos filhos é a que ela projeta. Ou seja, Odete não liga muito para os sentimentos das pessoas. Mãe ausente, ainda assim se sente no direito de ditar a vida dos filhos infantilizados e no dever de colocá-los no que ela acredita ser o eixo. Tanto é que desistiu de ir embora do Brasil para arrumar a situação de Heleninha e Afonso. Não podemos esquecer: Odete é uma vilã paradigmática da telenovela brasileira, então ainda vamos conhecer mais efeitos traumáticos dela sobre os filhos ao longo da trama.

Em Garota do Momento, a maternidade transformou Clarice de uma das personagens preferidas da novela a alvo de ranço. Por ser a mãe da jovem vilã Bia, a quem criou a vida toda, ela sujeita a filha Beatriz, de quem havia perdido a memória por boa parte da trama, aos piores martírios. Clarice consegue assim, a proeza de ser Raquel e Odete ao mesmo tempo: ama demais as filhas e magoa demais uma delas, para fazer a outra feliz.

Dona de Mim traz a abordagem mais original para a questão, ainda que esteja assentada nas mesmas premissas da maternidade como destino. A novela apresenta uma mãe sem filha, Leona, que conhece Sofia, uma filha sem mãe. É desse encontro que floresce a maternidade de Leona, que nunca superou a perda da bebê que gestava, Sophya. O luto materno descarrilhou a vida da moça até ela se tornar babá de Sofia, que nunca conheceu a mãe.
Raquel, Leona, Clarice e até mesmo Odete, de seu jeitinho deturpado, nunca negaram a maternidade, problematizaram-na, se arrependeram dela. Trata-se, em todas, de um traço inescapável e natural das personalidades de heroínas e vilãs, o que mostra a dificuldade do principal artefato audiovisual brasileiro em escapar dos modelos patriarcais disponíveis às mulheres.
O modelo da maternidade é tão forte que engolfa outros temas sobre direitos reprodutivos nas novelas. Prova disso é o recente cancelamento do argumento desenvolvido por Glória Perez para as 21h. Rosa dos Ventos teria um aborto como ponto de partida. Parte do tabu da discussão sobre aborto no país tem a ver com o fato de que a maternidade seria algo inerente à mulher, e todas nós obviamente queremos ser mães, amamos ser mães. Se ser mãe é ter, como diz a canção, corações fora do peito, o aborto vira quase um autoextermínio… O tema é pouquíssimo tematizado na telenovela, que deixa de ser, nessas horas, o que tanto diz se orgulhar: ser um espelho da sociedade brasileira.
Por Karina Gomes Barbosa
