Lady Gaga no Rio: catarse coletiva e luta por direitos da comunidade LGBTQIAPN+

Em meio aos milhões de leques, estávamos nós em catarse coletiva. Foto: Marina Gonçalves 

Um sábado ensolarado no Rio de Janeiro, a cidade repleta de pessoas de várias partes do Brasil – e do mundo –, agitação e ansiedade para o show: a atmosfera de Lady Gaga já estava no ar há alguns dias. Por onde passava, a trilha sonora e as conversas eram sobre a cantora estadunidense que faria o maior show de sua carreira na capital carioca, movimentando – além de pessoas –, a economia local e realizando um ato político.

Com o bater dos leques, looks extravagantes (maravilhosos) e bandeiras com as cores de arco-íris era possível identificar que estávamos em meio a muitas, muitas pessoas LGBTQIAPN+ (arrisco dizer que um dos maiores encontros, perdendo apenas para a Parada de São Paulo, que, inclusive, está próxima). Nós, também, como membros dessa comunidade colorida e brilhante, nos misturamos em meio ao calor que envolvia os corpos ali presentes. 

Foi com a vibração da “bateção de leques” que a força, não só da Gaga, mas de milhões de membros da comunidade “furaram a bolha” em todo o mundo. Pessoas diversas estiveram presentes no show apoteótico, que sufocou a praia de Copacabana com a euforia esbravejante daqueles que viveram entoando seu cântico de luta: Born This Way (Nasci Desse Jeito, em tradução literal). 

E assim, tirando o ar e espaço de qualquer sentimento que não fosse êxtase, orgulho e alegria, por diversos locais físicos, midiáticos e simbólicos, a comunidade passou dias com o barulho dos leques reverberando a consciência conservadora deste Brasil. Foi o momento de, além de tudo, envergonhar e intimidar a LGBTQIAPN+fobia, no país que mais mata pessoas Trans e Travestis em todo mundo, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). 

Também foi hora de expor – além das telas – alguns dos corpos mais procurados no consumo de pornografia no país. Pode parecer irônico (e é) que os desejos estejam tão reprimidos nesses lugares, que somente quando estamos sozinhos admitimos o que gostamos e/ou nos sentimos atraídas. Entre outras coisas, isso é efeito do pouquíssimo diálogo em torno de sexualidade, por exemplo, que deve ser livre e segura para se expressar nos ambientes. 

A luta contra a LGBTQIAPN+fobia é feita no agora, mas também no antes e no depois. É preciso um trabalho de rede, com ambiente educacional, doméstico e de convivência, para criar pessoas mais conscientes e seguras de quem são – e podem ser – nesse mundo. Desde 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou “homossexualidade” do Código Internacional de Doenças, o que foi uma conquista a ser celebrada. Porém, ser gay, lésbica, bissexual, trans, entre as demais sexualidades e identidades de gênero, é muito mais. 

O preço de retornar para a casa pela emblemática estação de metrô Siqueira Campos em Copacabana valeu a pena. Gaga foi uma das chamadas “divas pop” que garantiu refúgio para a comunidade em momentos, que só a gente sabe, são obscuros e sem saída. Ela nos contou uma versão religiosa que não tínhamos ouvido: a de que Ele (ou Ela?) nos fez assim. Sabemos que em uma sociedade cristã e conservadora, cantar/ouvir isso muda muito. Então, ainda que sufocados – e até mesmo atordoados – pela movimentação de corpos em sincronia e carros em desarmonia no entorno da estação, tenho certeza que todos viveriam essa catarse novamente. 

O retorno para a cidade de origem trouxe o reflexo disso. Foi momento de relatar para diferentes pessoas e realidades a experiência do show. No trabalho, todo mundo já sabia que eu havia ido para o centro do Brasil – afinal, estava “Todo Mundo no Rio” – e que o feriado do Dia dos Trabalhadores tinha sido especial. 

Foi tema de conversa no horário do almoço com homens de meia idade, acanhados, comentando frases como: “É, a mulher é boa né!?”, “E você viu os leques? Impressionante…”. Foi o assunto do momento, pelo menos comigo. Apesar disso, o “Efeito Gaga” não foi suficiente e o comentário conservador resistiu ao “trá trá trá” dos leques: “Aquilo ali foi show do diabo!”. 

A nossa presença, potência e luta é intimidadora. Ela embaça, desalinha e sufoca as fobias da sociedade apenas com um único ato: um show. A arte mobiliza e desconcerta, e Gaga e tantas outras artistas, ativistas, membros da comunidade, simpatizantes, enfim, pessoas comuns fazem isso todos os dias. A artista, inclusive, levanta a bandeira (de maneira literal e figurada) quando defende e discursa a favor dos direitos de pessoas trans nos Estados Unidos (de ódio) no governo Trump, ou quando se coloca em ações a favor dos direitos reprodutivos

Neste 17 de maio, Dia Internacional Contra a LGBTQIAPN+fobia, pensemos na arte enquanto possibilidade: de existência; reconhecimento; identificação; e tudo mais que nos evoca. O show gratuito no Rio de Janeiro também nos convida a pensar ações do setor público para a comunidade LGBTQIAPN+. Temos de cobrar políticas públicas ativas e contínuas para a garantia dos direitos das múltiplas formas de estar no mundo, para que nossa existência neste país ocupe as mídias e espaços com a alegria e orgulho em viver.

A presença desses corpos denota força, demarca a existência e continuidade dessas pessoas no mundo. Nós estamos aqui e continuaremos. Uma estratégia para alguns grupos é a elaboração de eventos e datas comemorativas para pautar um determinado tema e para demarcação da luta proposta. Assim acontece com a comunidade LGBTQIAPN+, que se coloca e reafirma enquanto viva e pulsante. O três de maio nos mostrou que temos força para pautar a mídia de um país inteiro, que somos muitos e continuaremos fortes, mas a luta ainda é extensa e precisa ser lembrada. 

*Este texto foi escrito como um relato-experiência do espetáculo que foi Gaga no Rio de Janeiro e também como exposição de afetos e gritos – antes abafados – e que agora estão soltos por todos os lugares. Desde a Praia de Copacabana (RJ) até Mariana (MG), estamos sendo elevados pelo amor, como disse a cantora no discurso do Grammy deste ano.  

Por Gabriel Maciel e Lia Junqueira.

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