Carne: o corpo feminino está sempre em pauta

Foto: Equipe Cinema em Movimento 

Desde a primeira infância, passando pela menstruação, mudanças no corpo até a menopausa e envelhecimento, o corpo das mulheres está constantemente sendo apontado, crucificado, medicalizado, desnudado e colocado em destaque. Seja na (hiper)sexualização de alguns – como o de mulheres negras, indígenas ou mesmo meninas – ou no julgamento de outros, como corpos com deficiência ou aqueles que fogem do modelo cisheteronormativo (pessoas trans ou intersexo, por exemplo), olhares e comentários são certos. 

É disso que trata o curta-metragem Carne, de Camila Kater, lançado em 2019. Crua, mal passada, ao ponto, passada e bem-passada representam as fases da vida de cinco diferentes mulheres que narram a animação contando memórias íntimas – mas que são, de certa forma, facilmente próximas as vivências de outras. Me enxergo e me solidarizo com as dores delas, que são “apenas” vozes durante os 12 minutos de filme. 

Penso no que aprendi sobre os significados de mulheridades, de precisar ficar calada sobre o que sinto. Ou mesmo sobre a maneira de lidar com os sentimentos confusos de estar no mundo e ter receio de existir livremente. As cinco histórias de diferentes pessoas compõem a trajetória de vidas-corpos com violências, olhares externos e, ainda que distantes, se cruzam no ser mulher. 

O Ariadnes foi convidado pelo Projeto Cinema em Movimento para mediar duas sessões do curta em Mariana, durante a primeira semana de maio. O projeto, que visa levar por meio do cinema e produções audiovisuais independentes debates e reflexões sobre temas relevantes na sociedade, é uma parceria entre a MPC Filmes, Petrobrás e Ministério da Cultura/Governo Federal. 

A primeira sessão ocorreu no dia 8 de maio na Escola Estadual Dom Silvério. No evento, estavam turmas do 2º e 3º ano do Ensino Médio, as quais se mostraram bastante participativas e interessadas. As meninas, especialmente, interagiram bastante e trouxeram experiências pessoais de como são afetadas pelo patriarcado (e por outros sistemas de opressão) para contribuir com a discussão. De início, as questionei sobre quando foi a primeira vez que tiveram de lidar com o assédio e – não surpreendentemente – as respostas trouxeram a percepção em comum de que elas sentiram as manifestações do assédio desde que eram crianças. 

Depois, perguntei se, a depender do horário, ambiente e contexto, elas tinham medo de sair de casa. Novamente, a resposta afirmativa foi unânime. Elas argumentaram que tinham medo de serem estupradas, sequestradas ou de sofrerem qualquer violência relacionada ao fato de serem mulheres. Posteriormente, fiz este mesmo questionamento aos meninos presentes na sala, que responderam que o medo que tinham era somente relacionado à possibilidade de serem assaltados. Este contraste entre as respostas (e as vivências) evidencia como as opressões de gênero atuam cerceando os direitos – inclusive o da liberdade – de meninas e mulheres. 

Eventos como esse são de extrema importância, uma vez que fomentam questionamentos, discussões e críticas que nem sempre são realizadas na escola. Fiquei reflexiva sobre como a sessão poderia motivar alunas e alunos presentes ali a, futuramente, estudar questões relacionadas aos movimentos sociais.

Já a segunda sessão foi no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), no encerramento da Semana de Integração do PET-ICSA, dia 9 de maio. A sala estava um tanto quanto esvaziada, mas isso fez com que o debate fosse mais íntimo e interessante. Além de estudantes da graduação, estava a mãe de um deles, que trouxe uma pegada geracional fundamental para pensar sobre o corpo e vivências femininas. 

Nós, jovens, por vezes mantemos um distanciamento daqueles que vieram antes da gente – principalmente no âmbito educacional, no qual o contato que temos é majoritariamente com docentes –, porém, o movimento de troca mais horizontal também é importante. Estar em diálogo com pessoas de diferentes gerações, raça/etnia, gênero e sexualidade é fundamental para que consigamos difundir e ampliar as percepções do mundo. 

Iniciei o papo com uma pergunta voltada para as mulheres da roda: quando você se entendeu/percebeu enquanto mulher? As respostas foram distintas, mas ao mesmo tempo, tinham em comum a visão do outro para determinar um sentimento pessoal. Além disso, durante a conversa, um jovem relatou que sentia-se num “trilho de trem” e que a vivência masculina era rígida e não dava a possibilidade de fugir desse papel já determinado. 

Entre outras histórias que ouvimos, fiquei refletindo sobre como os efeitos do patriarcado são ferozes contra as mulheres e meninas, mas também com os homens – e a sociedade em geral. Sendo assim, estabelecer um vínculo direto com as pessoas presentes, por meio do diálogo, reflexão e aprendizado é crucial para nos mantermos atentas sobre diferentes perspectivas. Acredito (e confio) no potencial transformador que a arte e a educação possuem, levando informação ou até uma inquietação sobre assuntos que precisam ser discutidos. 

Por Lia Junqueira e Maria Clara Soares

Confira alguns registros das sessões: 

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