
As cinco Marias têm uma história que é tão velha quanto o casamento heterosexual e ela se passa em uma cidade média, de um estado médio desse país. Começa com uma família grande, um pai, uma mãe, quatro filhos homens e cinco mulheres, todas com o nome Maria. O pai sempre saiu para trabalhar e ser o provedor da casa, a mãe cuidava das nove crianças, limpava a casa, fazia salgados para o marido vender no trabalho e outras funções de cuidado com os filhos, com a casa e com o marido.
O tempo passou e a família foi mudando. Uns partiram para a companhia das estrelas, inclusive a mãe dos nove filhos, outros se mudaram de casa e uns seguiram morando na casa da família. O que nunca mudou foi quem cuidava: com o falecimento da mãe, o cuidado passou a ser dividido pelas cinco Marias. Como as mulheres dessa família cresceram esbanjando cuidado! Cuidado com seus filhos, cuidado entre elas e, principalmente, aquele cuidado que foi forçado a elas.
Cuidar dos irmãos homens, que sempre precisavam de cuidado, cuidar do pai, cuidar dos homens de suas vidas. É, o cuidado que era feito pela mãe passou para as filhas. O irmão mais velho se casou e se mudou para longe, mas como sua mulher não resolve seus problemas, ele recorre sempre às irmãs. Elas são as responsáveis por resolver. De uma ligação para o banco até comprar seus presentes de Natal. E, se alguém reclama que elas têm que parar de ajudá-lo, os xingos são certos, “coitado dele, não sabe fazer sozinho!”
O irmão mais novo não se casou. E agora roda pela casa das irmãs, já que não consegue mais se cuidar sozinho. Um homem difícil que não sabe ouvir “não” e acha que, por ser homem, todos implicam com ele, “coitado dele, não sabe o que faz!” As brigas, os desentendimentos e os xingamentos também são destinados às Marias, já que são as únicas que fazem. A culpa também é delas por não realizarem tudo perfeito e resolverem tudo no prazo. Elas realmente são os pilares de cuidado da família.
O cuidado e a preocupação com a prole estão sempre ali: são leoas, como a mãe as ensinou. Seus filhos sempre serão protegidos. É, o cuidado não parou nos dois irmãos! Ele passou para os filhos, sobrinhos e netos. As filhas, netas e sobrinhas não precisam de tanto cuidado assim, elas aprenderam a se cuidar, para cuidar daqueles que mais precisam de cuidado, os homens. Mas a elas é destinada a cumplicidade – o código interno das que cuidam – as fofocas, os ombros amigos e os ensinamentos de cuidado, repassados entre as gerações de cuidado feminino.
A essas Marias e suas filhas também é destinado o fogão. Toda a alimentação de todas as datas comemorativas é destinada a essas mulheres: o maior dos cuidados de uma família descendente de italianos, a comida. E o cuidado passa de geração em geração, uma tradição feminina, as sobrinhas e filhas são as próximas na lista do cuidado. Ensinada desde cedo a cuidar, a abaixar a cabeça para os homens da família – menos os maridos, esses quase não são da família, então podem ser tratados sem muitos privilégios. Aos filhos e irmãos o cuidado sempre vai ser o bem mais importante da família.
Essa família esbanja cuidado, essas Marias são mulheres incríveis! Elas cuidam de tudo! Elas ensinam o cuidado! Realmente, o cuidado é sempre feminino!
Por Ana Beatriz Justino
