Pecadores: A memória como resistência 

Personagens femininas, citadas no texto | Imagens retiradas do filme “Pecadores”

Autumn Durald Arkapaw é uma diretora de fotografia norte-americana que, em 2025, se tornou a primeira mulher a filmar em tecnologia IMAX. Este formato utiliza película de 70mm e permite captar imagens com resoluções mais altas e detalhadas, proporcionando uma experiência visual imersiva, especialmente em grandes telas.

O feito histórico foi alcançado com Pecadores, novo longa do diretor Ryan Coogler, lançado em abril e já com mais de 200 milhões de dólares arrecadados. O filme marca mais uma colaboração de Coogler com o ator Michael B. Jordan, repetindo a parceria vista em Creed e Pantera Negra. A diretora de arte Hannah Beachler, vencedora do Oscar por Pantera Negra, também retorna para trabalhar com o diretor em Pecadores.

Afinal, sobre o que é esse filme que chamou tanta atenção no último mês? Embora esteja classificado como terror e fantasia, ele vai muito além disso. É uma produção que mistura (muita) música, drama, ancestralidade, questões raciais dos Estados Unidos, afro-surrealismo e vampiros. Acho que é justamente essa combinação que explica o sucesso. Eu, pelo menos, nunca tinha visto nada parecido. 

Ao assistir ao trailer, pode parecer que o terror está no ataque vampírico, mas antes disso o cenário já é aterrorizante por si só. A história se passa nos Estados Unidos de 1932, no Delta do Mississippi, durante a Grande Depressão. Mesmo 60 anos após a abolição da escravidão, pessoas negras ainda viviam em condições de trabalho precárias, recebendo salários em moedas de madeira. Além da constante ameaça de grupos secretos da Ku Klux Klan, há ainda o bônus dos vampiros, que funcionam como uma alegoria.

Mas, antes de falar disso. Vamos introduzir um conceito que citei anteriormente, que o filme utiliza para construir toda a narrativa. O afro-surrealismo é uma estética cultural, artística e literária que vem da experiência negra, mostrando seu deslocamento no mundo branco, utilizando elementos oníricos, simbólicos e espirituais para expressar realidades vividas. Diferente do surrealismo europeu, que se concentra no inconsciente e nos sonhos, o afro-surrealismo foca em olhar pro passado, pensar o futuro visando mudar o presente, abordando as complexidades da vida cotidiana negra.

A primeira pessoa a usar esse termo foi Amiri Baraka em 1974, para descrever o trabalho do escritor Henry Dumas. Foi desenvolvido em 2009, quando D. Scot Miller publicou o Manifesto Afrosurreal, delineando os princípios do movimento e o diferenciando do afrofuturismo, que idealiza futuros possíveis para a diáspora africana. Exemplos de produtos audiovisuais que utilizam o afro-surrealismo são os filmes Corra! (2017), ELEGUÁ (2018) e EGUM (2020) e a série Atlanta (2016). O afro-surrealismo conversa muito com o gênero terror, aproveitando do ar de estranheza elevado ao absurdo. 

É importante o uso do termo “afro” em expressões como afrofuturismo e afro-surrealismo, pois ele demarca uma reivindicação de pertencimento e autoria negra. Além de representar uma ruptura epistemológica com movimentos que, embora considerados universais, são eurocêntricos e predominantemente brancos.

Voltando ao filme, é dentro dessa estética que Pecadores acompanha a história de Sammie Moore (Miles Caton), um jovem apelidado de Pastorzinho por ser filho de um pastor. Ele trabalha com sua família em uma plantação de algodão no Mississippi e é apaixonado por música, especialmente por cantar e tocar blues, mas enfrenta a reprovação do pai, que acredita que esse tipo de música pode atrair demônios.

Os outros personagens principais são os primos de Sammie, os gêmeos interpretados por Michael B. Jordan: Elijah Smoke e Elias Smoke, mais conhecidos como Fumaça e Fuligem. Eles são criminosos que passaram alguns anos em Chicago, onde lutaram na Segunda Guerra Mundial e chegaram a trabalhar para o gângster Al Capone. Ao retornarem ao Mississippi, usam o dinheiro acumulado no Meio-Oeste para comprar uma propriedade que, sem que soubessem, havia pertencido a um membro da Ku Klux Klan, e a transformam em uma casa de blues, um espaço onde pessoas negras pudessem se divertir e celebrar sua cultura.

A narrativa já começa com a promessa de uma tragédia, lançando o espectador diretamente em uma atmosfera de tensão. Depois desse primeiro impacto, o filme volta no tempo e desacelera para apresentar os personagens e suas relações. Esse retorno permite que a trama se desenvolva aos poucos, criando conexão e familiaridade até a grande inauguração do bar de blues, que reúne todos os personagens. Assim, quando o perigo enfim se concretiza, o envolvimento já está estabelecido e a tensão e o suspense são mais eficazes.

No longa, as personagens femininas ocupam papeis coadjuvantes, mas estão longe de ser reduzidas a acessórios ou apenas interesses românticos, como ainda é comum em muitas narrativas. Elas têm voz e personalidades bem definidas, influenciando diretamente o rumo dos acontecimentos. Há também uma atenção visível à forma como seus corpos e desejos são retratados, com cenas de sexo que priorizam o prazer feminino e evitam o olhar masculino tradicional. Essa abordagem mais cuidadosa se explica pela presença de mulheres por trás das câmeras, o que contribui para representações mais complexas e humanas.

Annie (Wunmi Mosaku), por exemplo, é uma curandeira hoodoo – prática espiritual afro-americana – e tem um papel fundamental para compreender e explicar o que está acontecendo e o que deve ser feito após a aparição de vampiros. Todos a escutam e respeitam seu conhecimento. Mulher negra que foge dos padrões estéticos das mocinhas do cinema, especialmente das que costumam interpretar pares românticos de galãs como Michael B. Jordan, Annie é uma presença marcante para o desenrolar da história. 

Quem provoca os principais acontecimentos é Mary (Hailee Steinfeld), a única pessoa “branca” presente na inauguração do bar. Ex-namorada de Fuligem, ela é uma personagem determinada, que sabe o que quer e age com firmeza. Grace Chow (Li Jun Lin) desencadeia a principal cena de ação do filme. Embora sua atitude seja impulsiva, ela não é tratada como burra, como costuma acontecer com personagens femininas em filmes de terror; seu gesto nasce da urgência de proteger a filha. Pearline (Jayme Lawson), por sua vez, é uma mulher casada, mas que escolhe viver aquela noite com liberdade, se divertindo e se permitindo o prazer, sem culpa ou repressão. 

Sobre a alegoria do vampirismo, o filme funciona como um terror de vampiros, mas se torna ainda mais interessante quando entendemos que o terror vai além disso. A música é uma forma de entretenimento, expressão cultural, ancestralidade e muito mais. A trama principal de Pecadores aborda isso. Na primeira cena do filme, uma narração em off diz que existem pessoas nascidas com o dom de tornar a música verdadeira e que têm o poder de atravessar gerações e quebrar a barreira que separa os vivos e os mortos, do passado e do futuro. 

É isso que chama a atenção dos vampiros: com a festa acontecendo na inauguração do bar de blues, Pastorzinho toca a música I Lied to You  e em uma cena maravilhosa que parece ser um plano sequência, o teto e as paredes do bar somem, pegam fogo e vemos uma mescla de gerações festejando juntas, com a aparição de uma representação do folclore afro americano, DJ e pessoas de várias épocas curtindo a música. Representam ritmos que vieram do blues. 

O blues surgiu no final do século XIX, no sul dos Estados Unidos, a partir dos cantos de trabalho, lamentos e espiritualidades de pessoas negras escravizadas e seus descendentes. Com forte carga emocional e expressão de resistência, o blues influenciou diretamente gêneros como jazz, rock, soul, R&B, hip-hop e o funk, sendo base fundamental para a música popular mundial.

A partir da catarse musical, os vampiros ficam tentados a morder aquelas pessoas, principalmente o Pastorzinho. Pois quando mordida, a pessoa passa todas suas lembranças ao vampiro e eles queriam aquele poder de atravessar gerações. Os vampiros não queriam apenas matar, mas usar os corpos negros e os “poderes” musicais pra propagar sua cultura e encontrar sua própria ancestralidade. Isso é ficção? Sim, mas tem a base em uma verdade. 

Elvis Presley ser conhecido como “rei do rock” é um exemplo desse processo – sem vampiros – de sugar, tirar, se apropriar, no qual artistas brancos se tornam símbolos de gêneros que nasceram nas comunidades negras – não por falta de artistas negros. Assim como os vampiros do filme, que querem se apropriar não só da vida, mas da memória, da história e da potência que atravessa gerações, a indústria da música historicamente se alimenta da criatividade negra, transformando-a em produto lucrativo, mas apagando seus verdadeiros criadores. O filme, ao usar essa alegoria, nos mostra como esse roubo não é apenas material, mas também simbólico e espiritual. É a tentativa constante de capturar uma cultura sem carregar sua dor, sua luta, sua representatividade  e ancestralidade.

Outro aspecto desse assunto que também vemos em Pecadores é o estigma sobre a música negra, até dos próprios negros, e como o processo de apagamento faz com que o que vem da negritude seja visto como maligno, até o branco se apropriar e “legitimar”. Desde o início do filme, o pai de Pastorzinho o alerta sobre o perigo de tocar blues e atrair demônios e maldições. Essa temática rende uma ótima cena pós-créditos com Buddy Guy, um dos maiores guitarristas e cantores de blues da história, e usa uma lenda antiga como metáfora.  

A lenda de Robert Johnson: dizem que, na década de 1930, ele teria feito um pacto com o diabo em uma encruzilhada no Mississippi, trocando sua alma por talento musical. A partir dali, teria se tornado um dos músicos mais influentes da história, mesmo enfrentando apagamento e preconceito em vida. O próprio Johnson, ciente da repercussão que essa história causava, alimentava a lenda em suas músicas – composições como Cross Road Blues e Me and the Devil Blues fazem referência direta ao suposto pacto, o que só aumentava a repercussão. 

Essa narrativa de “pacto” reflete muito mais do que uma simples superstição: revela como, historicamente, a genialidade negra foi tratada como algo sobrenatural, perigoso ou até demoníaco, ao invés de ser reconhecida como fruto de talento, ancestralidade e resistência. E o filme Pecadores brinca justamente com essa lenda, trazendo o elemento fantástico como uma metáfora e usando do afro-surrealismo para descrever essa história de maneira diferente. No fundo, o que está em jogo não é só uma história de vampiros e maldições, mas uma crítica direta aos modos como a cultura negra é constantemente sugada, apropriada e esvaziada. Enquanto os verdadeiros criadores são marginalizados e suas histórias associadas ao medo, à criminalização e ao misticismo.

Indico o filme, que no cinema é uma experiência incrível e as músicas são muito boas. Ele trata de vários assuntos interessantes, como os que citei aqui e outros, mesmo que  sem se aprofundar, sobre as relações raciais nos Estados Unidos, para além dos brancos colonizadores e os negros, com representações de chineses, irlandeses e indígenas.   

Por Ana Rodrigues

Serviço

Título Original: Sinners 

Onde Assistir: Compra ou aluguel na Amazon Prime Video e Apple TV+

Duração: 2h e 17m (132min)

Classificação Indicativa: 16 anos (A16)

Classificação da autora: 16 anos (A16)

Justificativa: O filme retrata violência e linguagem explícita, cenas de sexo e uso de drogas lícitas

Gênero: Terror/Fantasia/Drama/Musical

Rotten Tomatoes: 97%

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