Quem pode ser mulher no esporte?

A imagem é uma fotografia que captura um momento de celebração. A iluminação é brilhante, permitindo que os detalhes da roupa e da expressão da mulher sejam destacados. A composição da imagem demonstra a satisfação e o orgulho da mulher que conquista a medalha.
Imane Khelif recebendo a medalha de ouro em Paris, 2024. Imagem: Instagram da atleta

No dia 1º de agosto de 2024, no combate das oitavas de final da categoria de até 66 quilos do boxe feminino da Olimpíada de Paris, a lutadora argelina Imane Khelif enfrentava a italiana Angela Carini. Aos 46 segundos de embate, Carini decide abandonar a luta após receber um golpe forte em seu nariz.

Após a desistência, difamações começaram a ser feitas questionando o gênero de Imane. Tal discussão, no entanto, foi iniciada em 2023, quando a lutadora, juntamente com a taiwanesa Lin Yu-ting, foi desclassificada por supostamente não atender os critérios de saúde de elegibilidade, no Campeonato Mundial Feminino, na Índia, pela Associação Internacional de Boxe (IBA). A IBA não é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 2019, por acusações de corrupção, manipulação de resultados e má gestão. Tal teste, baseado em hormônios, alegou altos níveis de testosterona no corpo da atleta e cromossomos XY, mas os resultados coletados pela IBA não foram divulgados publicamente. 

Assim, negligenciando a complexidade cromossômica humana, Imane Khelif começou a ser atacada de maneira transfóbica através das redes sociais e plataformas jornalísticas. Dentre algumas publicações feitas por grupos reacionários, tem-se:

“Para validar as emoções doentias de um HOMEM, uma mulher perde uma oportunidade na vida! Depois de ter apanhado muito por 46 segundos, a italiana desiste de continuar a luta contra o nosso amigo boxeador XY. A segurança das atletas mulheres não importa para o COI”.

Houve falas transfóbicas de figuras como Sergio Moro, Nickolas Ferreira, Donald Trump, o empresário Elon Musk,  JK Rowling e Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, repercutindo assim, informações falsas sobre a identidade de gênero de Imane, que não é uma mulher trans.

O Comitê logo se pronunciou, desmentindo toda essa repercução, afirmou que Khelif é sim uma mulher cis, vítima de uma decisão manipulada e arbitrária  da Associação Internacional de Boxe, que teria começado esse boato, criticando os “ataques pouco éticos” contra a atleta. O Comitê Olímpico Argelino disse que as acusações são “mentirosas” e “totalmente injustas”. “Estamos todos com você, Imane. A nação toda te apoia”, acrescentou.

A delegação argelina informou que Imane Khelif foi desclassificada do Mundial de Boxe devido ao hiperandrogenismo, uma condição que resulta em níveis elevados de hormônios masculinos. Desde o incidente, ela está em tratamento e recebeu autorização do COI para participar dos Jogos Olímpicos de 2024, que utilizava dos mesmos critérios das Olimpíadas de Tóquio.

A transfobia no jornalismo

Portais como Metrópole e CNN Brasil publicaram matérias, que ou corroboram para o questionamento transfóbico da identidade de gênero de Khelif ou contribuíram para a estigmatização de gênero da atleta. Dentre algumas manchetes, “Desordem de diferenciação sexual: entenda o caso de boxeadoras olímpicas”, do Metrópoles, ou “Caso de boxeadora argelina reprovada em teste de gênero provoca onda de desinformação nas redes” da CartaCapital, e “Após polêmica e medalha de ouro, boxeadora argelina faz mudança no visual; veja”, da CNN Esportes se destacaram.

Essas reportagens evidenciaram-se negativamente pelo tratamento sensacionalista e preconceituoso das questões de identidade de gênero no contexto esportivo. Assim, títulos como “Desordem de diferenciação sexual” (Metrópoles) utilizam uma terminologia patologizante, sugerindo que a identidade ou a condição biológica da atleta se configura como uma anomalia ou algo passível de correção, reforçando estigmas e desinformação. A linguagem técnica, sem o devido contexto, pode alienar o público e desumanizar a atleta, ao invés de promover uma compreensão adequada das complexidades envolvidas. Dessa forma, a escolha discursiva não cumpre um papel informativo, mas sim contribui para a perpetuação de preconceitos já presentes na sociedade.

Além disso, manchetes como “Após polêmica e medalha de ouro, boxeadora argelina faz mudança no visual; veja” (CNN Esportes) desviam o foco das realizações esportivas da atleta para aspectos superficiais, como sua aparência, o que evidencia um enquadramento além de sensacionalista, reducionista, ao chamar a transfobia de polêmica.

Esse tipo de abordagem desumaniza a atleta e reforça estereótipos sobre expressões de gênero, transformando uma questão pessoal em espetáculo midiático. Por fim, expressões como “boxeadora argelina reprovada em teste de gênero provoca onda de desinformação” (CartaCapital) contribuem para a manutenção de uma narrativa ambígua e desinformada sobre os testes de gênero, que, frequentemente, são alvo de críticas por seu caráter excludente em relação às atletas que não se enquadram nas normas binárias. Já que, desde 1990, são mais de 20 variações cromossômicas identificadas na área.

Para além desse mérito, jornais passaram a assumir a interssexualidade da boxeadora, que nunca havia se pronunciado sobre tal questão. Portais como Gazeta do Povo, JOTA, R7 Esportes e G1 tiveram matérias publicadas não mais questionando a identidade de gênero de Imane, mas sim espetacularizando essa suposta interssexualidade, baseada na presença de cromossomos XY em seu organismo em teste realizado pela IBA, que como citamos, não é regulamentado pela COI.  Manchetes como “Vitória Histórica: Atleta Intersexual Brilha nas Olimpíadas” (R7) apenas contribuem para  transformar tal condição em um ponto de curiosidade pública e de espetacularização, novamente desumanizando a boxeadora.

Outra questão que deve ser ressaltada é a utilização desse caso por alguns veículos de comunicação para a produção de matérias que não são de interesse público. Um exemplo disso é uma notícia veiculado pelo jornal O Globo, com o seguinte título: “Alvo de fake news e campeã olímpica, boxeadora Imane Khelif passa por transformação no visual; veja vídeo”. Essa publicação possui um caráter de “caça-clique”, uma vez que o corpo do texto é uma descrição de um vídeo, no qual Imane vai a um salão de beleza. No Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros está posto que os jornalistas devem buscar provas que fundamentam as informações de interesse público. Logo, o jornal não se manteve fiel à deontologia, pois além do conteúdo não ser de interesse público, a manchete também serve para causar mais especulações e curiosidade a respeito da boxeadora.

Em decorrência dos assédios virtuais, injúrias e difamações, Khelif contratou um escritório de advocacia em Paris. Ela e sua equipe abriram uma queixa e o Ministério Público francês confirmou o recebimento e iniciou uma investigação, informada no dia 14 de agosto, por provocação pública à discriminação e ciberbullying com base no gênero e origem. Apesar de todos os ataques sofridos, Imane Khelif ganhou o ouro na competição feminina e boxe no peso médio no dia 9 de agosto. 

No artigo publicado pela articulista do Jornal da USP, pertencente à Universidade de São Paulo (USP), a professora Gabrielle Weber estabelece o diálogo com a perspectiva de gênero, que é pertinente ao caso de Imane. Gabrielle, que é travesti e ativista, levanta o seguinte questionamento em sua coluna do Jornal: Pode uma pessoa cis sofrer transfobia? O que aprendemos com o caso da boxeadora argelina Imane Khelif. O texto publicado dia 28/08, ainda no mês em que o debate da investigação de Imane estava inflamado, propõe o questionamento a este jornalismo exemplificado nas matérias acima. O debate levantado acerca do gênero da atleta é construído, como revela ela, por uma sociedade dita como transvestigadora

O termo é apresentado por Gabrielle e define o caso de Imane que, mesmo sendo uma pessoa cis, sofreu transfobia. Isso é ocasionado pelo epicentro da violência de gênero observada no esporte, que reverbera para a estrutura do jornalismo esportivo, ancorado em moldes patriarcais da sociedade e acrítico sobre a pauta de gênero e sexualidade. Dentro disso, o termo e pensamento levantado chama atenção a pesquisa Masculino, o Gênero do Jornalismo, que estabelece a estrutura conservadora dos veículos comunicacionais. O trabalho de Marcia Veiga Silva, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), interrelaciona-se com a ‘transvestigação’ apontada por Gabrielle.

Ética

O jornalismo, em especial o esportivo, é ancorado na preservação dos valores dentro da ordem. Dito isso, uma mulher cis, sem a passabilidade do seu gênero a partir de elementos biológicos ou de performance, pode sim sofrer transfobia destes meios comunicacionais. A partir de matérias posteriores à competição verifica-se a atenção dada à expressão de gênero que Imane assumiria: quando ela “muda seu visual”, a mídia observa o movimento como um resultado da pressão exercida pela investigação de gênero. No momento em que Imane reorganiza seu modo de estar na sociedade, esses meios se aquietam em virtude do entendimento daquele indivíduo do espaço que ele deve ocupar.

Quanto à justificativa cientificista da mídia sobre o debate da formação cromossômica, destacam-se também as raízes de uma comunicação baseada em uma sociedade orientada pela ciência e razão, tipicamente estabelecidas por uma sociedade conservadora que não estabelece relações aprofundadas.

Realizar a cobertura do caso dando credibilidade ao laboratório de pesquisa, a um comitê com problemas e a resultados não divulgados, e centrado apenas no âmbito da ciência biológica, é um erro comunicacional em virtude dos elementos sociais que permeiam a situação de Imane. A cobertura não se propõe questionar a dúvida da comunidade esportiva sobre o gênero da atleta e não menciona informativamente sobre a Intersexualidade e Transexualidade, sendo um potencial gancho pensado no viés do interesse público e não “do público”.

Urge entender um jornalismo realizado pela perspectiva gendrada, atento às reverberações sociais e implicações, entendendo o caso de Imane distante de uma perspectiva próxima ao fait divers. Traduzido como fato diverso, o termo é bastante usado para designar o jornalismo popular que coloca pautas importantes, como a performatividade de gênero, em um local de curiosidade. Junto a isso, em primeira instância, é importante utilizar como elemento norteador os Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo, que no princípios seis preconiza o “respeito à privacidade e à dignidade humana” e no três refere-se “à responsabilidade Social do Jornalista”.

Por Gabriel Maciel Penha, Joyce Campolina de Assis e Maria Cecília Saldanha Quadros
Produzido para a disciplina Crítica de Mídia e Ética Jornalística em 2024.1

REFERÊNCIAS

FENAJ. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. FENAJ. Disponível em: www.fenaj.org.br 

AGÊNCIA BRASIL. Boxeadora Imane Khelif é ouro após ser alvo de fake news sobre gênero. Agência Brasil, 10 ago. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2024-08/boxeadora-imane-khelif-e-ouro-apos-ser-alvo-de-fake-news-sobre-genero

ANSA. Boxeadora argelina processa Musk e Rowling por cyberbullying. Ansa, 14 ago. 2024. Disponível em: https://ansabrasil.com.br/brasil/noticias/esporte/2024/08/14/boxeadora-argelina-processa-musk-e-rowling-por-cyberbullying_c5d59a17-c723-492c-bb52-f5b171fe2b26.html

ANSA. Após polêmica, Imane Khelif conquista medalha de ouro no boxe. Ansa, 09 ago. 2024. Disponível em: https://ansabrasil.com.br/brasil/noticias/esporte/2024/08/10/apos-polemica-imane-khelif-conquista-medalha-de-ouro-no-boxe_b4c76fe6-77f2-4926-9742-94e896ecb7e9.html

CORREIO BRAZILIENSE. MP francês anuncia investigação de ciberbullying contra campeã olímpica argelina Imane Khelif. Correio Braziliense, 14 ago. 2024. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2024/08/6920200-mp-frances-anuncia-investigacao-de-ciberbullying-contra-campea-olimpica-argelina-imane-khelif.html

CNN. Campeã olímpica, Imane Khelif abre queixa após polêmica sobre gênero. CNN, 10 ago. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/olimpiadas/campea-olimpica-imane-khelif-abre-queixa-apos-polemica-sobre-genero/ 

JOTA. O caso Khelif e a participação de atletas intersexo no desporto de elite. Jota, 7 ago. 2024. Disponível em: https://www.jota.info/artigos/o-caso-khelif-e-a-participacao-de-atletas-intersexo-no-desporto-de-elite

R7 ESPORTES. Vitória histórica: atleta intersexual brilha nas Olimpíadas. R7 Esportes, 3 ago. 2024. Disponível em: https://esportes.r7.com/olimpiadas/vitoria-historica-atleta-intersexual-brilha-nas-olimpiadas-03082024/

BBC. Imane Khelif: boxeadora argelina não se importa com boatos, diz família à BBC. BCC, 6 ago. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cje22n011jlo#:~:text=Em%202024%2C%20Khelif%20sofreu%20persegui%C3%A7%C3%A3o,final%20em%20apenas%2046%20segundos.

EXAME. Polêmica no boxe olímpico: entenda o caso de Imane Khelif e as regras de elegibilidade de gênero. Exame, 2 ago. 2024. Disponível em: https://exame.com/esporte/polemica-no-boxe-olimpico-entenda-o-caso-de-imane-khelif-e-as-regras-de-elegibilidade-de-genero/ 

FANTÁSTICO. Luta fora do ringue: a batalha da boxeadora Imane Khelif contra fake news sobre seu gênero. Fantástico, 04 ago. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/08/04/luta-fora-do-ringue-a-batalha-da-boxeadora-imane-khelif-contra-fake-news-sobre-seu-genero.ghtml

O GLOBO. Olimpíadas: Imane Khelf, boxeadora argelina vítima de polêmica, conquista medalha de ouro. O Globo, 09 ago. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/olimpiadas/noticia/2024/08/09/olimpiadas-imane-khelif-boxeadora-argelina-vitima-de-polemica-conquista-medalha-de-ouro.ghtml

G1. MP francês anuncia investigação de ciberbullying após denúncia da campeã olímpica argelina Imane Khelif. G1, 14 ago. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/08/14/mp-frances-anuncia-investigacao-de-ciberbullying-contra-campea-olimpica-argelina-imane-khelif.ghtml

CNN. Após polêmica e medalha de ouro, boxeadora argelina faz mudança no visual; veja. CNN, 15 ago. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/olimpiadas/apos-polemica-e-medalha-de-ouro-boxeadora-argelina-faz-mudanca-no-visual-veja/

JORNAL DA USP. Pode uma pessoa cis sofrer transfobia? O que aprendemos com o caso da boxeadora argelina Imane Khelif. Jornal da USP, 29 ago. 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/gabrielle-weber/pode-uma-pessoa-cis-sofrer-transfobia-o-que-o-aprendemos-com-o-caso-da-boxeadora-argelina-imane-khelif/

METRÓPOLES. Desordem de diferenciação sexual: entenda caso de boxeadoras olímpicas. Metrópoles, 10 ago. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/saude/desordem-diferenciacao-sexual-boxeadoras

ESTADÃO. Lutadora argelina é alvo de campanha de desinformação nas redes; entenda o caso. Estadão, 02 ago. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/imane-khelif-boxe-trans-falso/

SILVA, Marcia. Masculino, o gênero do jornalismo: um estudo cobre os modos de produção das notícias. 2010. 250 . Programa de Pós Graduação em Comunicação e Informação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/25629/000753018.pdf?sequence=1&isAllowed=y

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