Apresentados em abril no Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEjor), resultados de pesquisa trazem dados importantes sobre a Universidade
A pesquisa surgiu a partir de uma percepção informal sobre o impacto proporcionado pela disciplina eletiva Gênero e Jornalismo em relação ao debate de gênero e sexualidade no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Para investigar esse processo que estaria relacionado ao aumento de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) nessa temática, o projeto de ensino Pró-Ativa realizou um levantamento documental de todos os trabalhos já defendidos no curso. A partir das análises dos TCCs, a percepção se quantificou em dados, concretizando o impacto da eletiva, ofertada atualmente na nova matriz curricular como Jornalismo, Gêneros e Sexualidades.

A pesquisa foi contemplada no programa Pró-Ativa, iniciativa da Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da Ufop para contribuir com a melhoria do ensino de graduação. O bolsista e estudante de jornalismo Gabriel Maciel, junto à orientadora Karina Gomes Barbosa, realizaram o levantamento dos TCCs, que é histórico para o curso, e sinalizaram pontos de atenção à Universidade.
Foram observados os 626 TCCs apresentados no período de 2012.1 a 2024.1 de forma quantitativa e qualitativa, considerando um corte pré e pós-disciplina. Com uma taxa de 1,27% de ausência de informação, a análise realizou a catalogação desses projetos por itens como autoria; orientação; período; palavras-chave e resumo. A pesquisa comprovou o impacto de um ensino gendrado no jornalismo, que se materializa com a disciplina. O aumento dos TCCs dentro do tema foi evidente ao longo dos anos, o que se observa no gráfico abaixo:

O impacto pode ser observado a partir da expansão dos TCCs no tema no decorrer dos períodos, à medida que a disciplina foi sendo ofertada. As defesas saltaram de 6,3%, antes da oferta da disciplina, para 30,7%. Adotando diferentes inflexões no decorrer dos anos, os projetos dos formandos apresentam a pluralidade de vivências, dentro e fora da Universidade, e os diferentes interesses em relação a gênero e sexualidade.
A disciplina eletiva foi, portanto, um ganho relevante para a universidade. Porém, não há institucionalização para um ensino gendrado no curso. O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) reflete essa percepção, o documento não estabelece um projeto consistente para o desenvolvimento de temáticas para a comunidade LGBTQIAPN+, por exemplo. Essa constatação trouxe um novo percurso para os pesquisadores, que agora vão investigar a presença de gênero e sexualidade na formação em Jornalismo em um novo projeto.
O impacto positivo da eletiva é importante, mas frágil. Um exemplo disso é que, neste momento, “Jornalismo, Gêneros e Sexualidades” é ofertada pela professora Karina Gomes Barbosa, que anteriormente, compartilhava a disciplina com o professor Felipe Viero, egresso do corpo docente da graduação. Na impossibilidade de um dos dois, a disciplina não é ofertada, o que demonstra que não há, ainda, uma institucionalização junto ao corpo docente
Por trás do tempo, o que a pesquisa conta?
Nesse processo de catalogação histórica sobre a trajetória formativa do curso, foi traçada a linha do tempo sobre esses 12 anos de ensino em jornalismo. Ela nos mostra os anos em que a disciplina foi ofertada e seus impactos. E, para além dos gráficos, sinaliza pioneirismos como os primeiros TCCs categorizados com uma perspectiva sobre gênero/sexualidade. Confira:

A construção documental realizada pelo projeto de pesquisa de 2024 e que será aprofundada em 2025 são estruturadas, também, a partir de documentos importantes para a universidade, como o PDI, os projetos político-pedagógicos e as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do Jornalismo, que prevê as competências esperadas para quem se forma na área, que passam pelos direitos humanos, por exemplo. Além disso, o PDI estimula uma formação ética e alinhada à diversidade sociocultural e aos direitos humanos.
Relatos no artigo Gênero e sexualidade na formação em Comunicação, de autoria dos docentes, indicam que a oferta da disciplina capacita jornalistas ao olhar gendrado na profissão. A professora Karina Gomes Barbosa, orientadora da pesquisa, reforça:
“Vivi o privilégio de uma sala de aula engajada e disposta ao diálogo. Uma sala de aula composta majoritariamente por mulheres cisheterossexuais, mas com presença marcante de sujeitos LGBTQI+, bem como de mulheres negras, retrato da diversidade crescente que toma conta da universidade pública brasileira, a transforma e enriquece. Uma sala de aula feminista.”
Por Gabriel Maciel Penha
