
Quando somos jovens podemos ter entendimentos diversos do que é o amor. Será que é aquela sensação de borbulhar o estômago? Ou aquela de nos deixar tontas; de paixão, de fúria ou de quase querer engolir o outro para si? Ele pode ser ainda a impressão do outro em nosso corpo, que transborda, mergulha. No final das contas, as sensações que o amor desperta são diversas, múltiplas e não há uma só resposta certa do que ele nos traz.
Porém, o amor nos desafia a entender de quais maneiras ele vai, volta, encaixa e desencaixa. Como ele pode ser pleno, justo no momento em que nos comparamos tanto com os amores alheios? Em tempos de redes sociais, com tantos compartilhamentos e vitrines, podemos ter a sensação de que há sempre um amor à espreita; melhor, mais belo e atraente. As gramas vizinhas podem ser mais bonitas, mas não sabemos o ecossistema por completo dos outros jardins.
É possível saber, no entanto, o que não é amor, como atos violentos e abusivos – que devem ser repudiados, denunciados e devidamente punidos. O amor deve ser vivido de maneira livre, não importa o gênero, classe, sexualidade, raça ou deficiência.
A estreia de Celine Song no cinema chega de mansinho em nossos corações, com um filme que se propõe a falar sobre a vida de maneira simples, mas de forma dilaceradora, desse amor que nos desperta, cheio de expectativas. Os encontros e desencontros de Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo) são como as oito mil camadas de in-yun, que nos dizem sobre migração, identidades culturais e, claro, também sobre o afeto dos dois.
In-yun é uma crença coreana que diz respeito ao destino de duas pessoas, da providência de se cruzarem entre as camadas de vidas – das passadas e futuras. É aquela máxima implacável do que está predestinado, de uma espécie de roteiro que seguimos. Mas será que a vida real corresponde fielmente ao conceito de almas gêmeas? O que Past Lives nos revela tem muito mais a ver com as imprevisibilidades cotidianas, dos caminhos que se separam e nos levam a lugares muito diferentes.
A dupla de amores-namorados surge na infância, quando ambos estudavam e residiam na Coreia do Sul, era uma relação pueril de afeto e admiração. No entanto, a família de Na Young (nome de Nora antes da migração) se muda para o Canadá e assume uma nova camada de vida, com novas identidades e sonhos. Após 12 anos, Hae Sung e Nora encontram-se pelas redes sociais e retomam o contato diário, que faz com que o coreano – sua língua materna – fosse redescoberto pela personagem, assim como outras “camadas” dela mesma a partir das conversas com ele.
O contato diário, porém, não dá conta de acompanhar aquela fase da vida dos dois, que estão em continentes e frequências diferentes – em diversos sentidos. A ordinariedade da vida os faz seguir em outras direções, assim como quando tinham 12 anos e também nesse momento, aos 24. O sentimento, no entanto, fica como chama baixa, acesa e cheia de expectativas que vão se desfazendo ao longo do tempo – e a vida, como sempre, acontecendo.
Mais 12 anos se passam e, finalmente, Nora e Hae Sung encontram-se pessoalmente. Os olhares parecem os mesmos de quando crianças, na escada que os separou na infância; o abraço, fraterno e gentil, demonstra o afeto presente nos dois personagens. O encontro retoma a Na Young criança, na língua original e lembranças (agora presencialmente), e é como se ela matasse a saudade de um “eu” distante. Ambos comentam sobre semelhanças e memórias dos tempos da escola, em que eram competitivos e chorões.

No entanto, ela reafirma a identidade de Nora Moon, em sua vida atual, com o marido Arthur (John Magaro), o que é fascinante de observar, uma vez que a mulher possui todo esse poder de decisão – que é dela por direito, claro –, não observado em diversas produções. A atriz que dá vida à personagem, Greta Lee, comenta ainda sobre seu poder de autonomia nas gravações e na trama em geral, em poder ser uma protagonista que está “lidando e entendendo o amor e a vida”.
Uma das lições mais interessantes do filme é nos questionar até que ponto estamos (ou não) dispostas a “largar tudo por um amor”, nossos sonhos, carreira e estabilidade – e também quais seriam as implicações de fazer isso na prática. Nora sente e, sobretudo, decide por quais caminhos seguir. Ela tem a chance de acessar essas camadas que a fizeram chegar ali, aos trinta e tantos anos, morando em Nova York, com uma boa carreira profissional e um marido respeitoso e amável.
Vidas Passadas fala de amor profundamente por mostrar suas incertezas, os encaixes e encontros positivos e aqueles em que não foi possível prosseguir. O filme mostra muito respeito e diálogo, tanto entre Nora e Hae Sung, quanto entre Nora e Arthur, que se coloca verdadeiramente enquanto companheiro. Nos dias em que tudo está confuso para os dois, eles assumem o caos interno; o fato dele não entender coreano e dela sonhar nessa língua poderia representar uma fissura irreparável, mas os encaixes – e rearranjos – os fizeram seguir juntos.
É um tanto dilacerador ficar nos torturando com as possibilidades do que “poderia ter sido mas não foi”, por isso Celine nos convida a viver o agora, a nos confrontar com nossas rotinas, com o cotidiano cru, em que lidamos com dificuldades, tristezas e dilemas. Evidente que nossas experiências poderão ser múltiplas, mas é importante que sejam conscientes, respeitosas com nossas próprias vidas e desejos pessoais.
bell hooks, professora e pesquisadora, afirma em sua obra Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas que o amor é um conjunto de características, e mais, é ação. Para ela o amor é cuidado, carinho, atenção, honestidade, respeito, confiança e comunicação aberta. E é nesse mesmo sentido que Celine nos conduz em seu primeiro longa-metragem, com amores possíveis e reais.
Durante a exibição de Vidas Passadas na mostra O Amor é Filme, realizada durante o segundo semestre de 2025, foi interessante perceber como nós (eu, mediadora, e o público, com idades muito semelhantes) da geração Z gostamos de ter certeza, de inferir nossas opiniões com precisão. Muito pelo contrário, a obra nos catuca ao mostrar esses outros amores e sua complexidade, essa maturidade e encontros mais “sóbrios”, sem aquela euforia meio catastrófica dos filmes hollywoodianos de amor.
Esse sentimento tão mobilizador, tão falado e pauta da nossa mostra de filmes, se coloca muito mais próximo da realidade quando enxergamos sua heterogeneidade, quando as expectativas são quebradas e fazemos a tentativa de olhar com mais honestidade para ele. É preciso reconhecer os desencaixes para que novas possibilidades se abram – e é mais ou menos por esse caminho que chegamos até Materialists, lançado em 2025.

Dois anos após a brilhante obra de estreia, Celine Song retorna aos cinemas com Amores Materialistas, ao tratar novamente de configurações diferentes do amor, sob outros pontos de vista, inclusive. A pegada aqui é mais hollywoodiana, com Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans como personagens principais. Se antes o afeto era fruto de oito mil camadas, agora ele é comprável, basta encontrar seu “par perfeito” com uma das casamenteiras representadas no longa.
A indústria de namoros, casamentos e encontros está a todo vapor, desde os flertes convencionais até aquelas pessoas que pagam uma espécie de assessoria de relacionamento – e nisso Lucy (Dakota Johnson) é especialista. Ela já emplacou vários casamentos, namoros e muito sucesso na empresa em que trabalha promovendo matchs (aquilo de combinar romanticamente com alguém). Mas, na vida pessoal é fria, pragmática e seu foco está em conseguir dinheiro.
Sua clientela se comunica por números: altura tal; salário x; propriedades em y valor; encontros em restaurantes de tantas estrelas. É claro que desejamos o melhor para nós mesmas, e que cada pessoa tem diferentes parâmetros para isso, mas será que somente com essas informações (bastante rasas) é possível encontrar o amor das nossas vidas? Justamente essa a missão de Lucy, que, ao contrário do que vende, se vê “morrendo sozinha”.
Porém, ao conhecer Harry (Pedro Pascal) em um casamento, ele a convida para sair e ela fica instigada – principalmente porque ele é rico, estável e bem sucedido. No mesmo ambiente reencontra John (Chris Evans), um ex-namorado que ainda retoma sentimentos – mesmo aqueles bem profundos. É importante destacar aqui que a relação de classe está muito colocada no filme como algo essencial para Lucy, que deseja conforto financeiro e luxos – desde um buquê de flores super caro até um apartamento avaliado em milhões de dólares.
E talvez seja esse o ponto de dúvida ou discordância do longa. Ao tratar essas relações de maneira tão superficial e vaga, ele não nos faz refletir sobre a forma como as relações estão se dando. Por aqui entendemos as críticas e sátiras com os padrões irreais impostos pelas pessoas nos trechos de atendimento da casamenteira (ou matchmaker), mas será que o filme dá conta de refletir sobre a densidade e complexidade do amor com isso?
Inserir um personagem de família rica como Harry nos faz acreditar que é “fácil” de alguma maneira ser bem resolvido. Ao contrário de John, um ator de origem pobre e desajeitado na vida. Essas relações estabelecem determinados padrões de masculinidade, de quem pode ser desejado – e quem deve desejar cada um deles, claro. E, óbvio, não é como se não houvesse “vontade de crescer” ou evoluir para John, mas um limite de classe mesmo, onde não há essa evolução repentina e totalmente transformadora.
O que confunde, desencaixa, é o fato de que Lucy não sente atração, tesão por Harry – mesmo com a vida “perfeita” que ele poderia proporcionar para ela. Mas sente isso por John, o “quebrado”. Algo que, mais uma vez, aciona esses padrões de relações – heteronormativas, cisgênero – de que um homem deve prover, ser o responsável pela casa e família. Os relacionamentos, dessa maneira, são compras, transações e o afeto perde espaço para isso – no filme, inclusive, que me parece distante de relações mais humanas.
Como disse anteriormente, existem múltiplas formas de amor e de como ele nos faz sentir. Em Amores Materialistas, porém, as relações têm tanta frieza e suposta racionalidade que nos afasta totalmente do sentir, dos afetos e calores tradicionalmente ligados ao amor. A protagonista afirma que “amar é fácil, difícil é se relacionar”, mas não seriam esses dois correlatos? Como eu amo sem me relacionar, sem conhecer e tocar alguém? Sem entender os encaixes e desencaixes possíveis para essa relação?
Celine dessa vez parece se afastar da sensibilidade apresentada em Past Lives, dos diálogos profundos e silêncios marcantes. Os olhares aqui ficam distantes e um tanto quanto vazios, num mundo onde tudo é comprável – até a altura de Harry, com um procedimento cirúrgico –, estamos nos relacionando com as imagens e não com as pessoas em sua essência.
No filme, Sophie (Zoe Winters), cliente de Lucy, é acionada no momento em que ela sofre uma violência sexual, o que é, no mínimo, raso e equivocado. No Ariadnes estamos acostumadas a analisar criticamente as más construções sobre violência de gênero, mas não de sua subutilização em uma trama. Me questiono se, em meio a tantas constatações da personagem, era preciso inserir um crime, o sofrimento de uma mulher, para a “virada de chave” decorrente disso.
Há ainda o conflito de classe muito demarcado, já que um dos pretendentes de Lucy é rico, enquanto o outro é pobre. Isso constrói a visão de que as relações amorosas não são reservadas para pessoas pobres, por exemplo, por estarem à margem da sociedade e não poderem oferecer boas experiências e condições de vida para as pessoas com quem se relacionam. Ao fazer isso, afirmamos que o amor não é destinado para determinadas pessoas, estigmatizamos suas vivências e afetos e, sobretudo, que o amor seria definido por uma conta bancária, pelo que se vende dele.
O cinema de Celine nos apresentou facetas diversas de sua produção, roteiro e câmeras, com reflexões mais profundas e densas nas Vidas Passadas, mas também com forte apego ao presente, no mundo digital e solitário, dos amores intransigentes de Amores Materialistas. Ao final, me pergunto: quais encaixes e desencaixes são possíveis para vislumbrar o amor?
Não há resposta objetiva para isso, claro, mas espero que o façamos com respeito, calma e generosidade – conosco e com as pessoas.
Alguns textos que me ajudaram na construção deste:
“Vidas passadas” e a efemeridade do existir | Blog da Boitempo
“Amores Materialistas”: análise do afeto na era do capitalismo – ARTE NO SUL
Past Lives: This untranslatable Korean word for eternal love has ancient Buddhist roots
Serviço:
Vidas Passadas
Título original: Past Lives
Onde assistir: Telecine
Gênero: Drama, Romance
Temas: Vida; amor.
Classificação: 12 anos (A12)
Nossa classificação: 12 anos (A12)
Justificativa: O filme tem representações saudáveis de amor e relacionamentos entre as pessoas.
Amores Materialistas
Título original: Materialists
Onde assistir: HBO Max
Gênero: Comédia, Romance
Temas: Vida; amor.
Classificação: 16 anos (A16)
Nossa classificação: 16 anos (A16)
Justificativa: O filme tem representações confusas de amor e relacionamentos entre as pessoas.
Por Lia Junqueira
