Elegia de um crime: A reconstrução dura de uma vida cruel

Fotografia de Isabel Burlan utilizada no filme-documentário “Elegia de um crime”. Foto: Divulgação.

Isabel Burlan da Silva, nascida em 28 de agosto de 1958 no Rio Grande do Sul, era mãe de cinco filhos, irmã, filha, promotora, cozinheira e mais tarde faxineira. Sempre sonhou em ter uma família, mesmo vivenciando períodos conturbados na infância e adolescência. Cresceu cercada pela simplicidade e com um ciclo pequeno de familiares e amigos. Ouvia constantemente discursos defensores da família tradicional e da submissão ao marido, feitos pelas mulheres que a rodeavam.

Conforme crescia, Isabel se tornou uma mulher forte e resiliente que se viu diante de mortes fortuitas quando mais velha. Em 2001, enfrentou a morte de um dos seus cinco filhos, Rafael Burlan da Silva, assassinado com sete tiros pelas costas no Capão Redondo, bairro da periferia na Zona Sul de São Paulo. Três anos depois, o pedreiro gaúcho Vânio Porto, seu marido, partiu de forma pouco esclarecida. “Morreu de bêbado. Bateu a cabeça e morreu”, declara o amigo de infância do pedreiro Thiago Luna Delena. Assolada por tais perdas, Isabel se mudou para Uberlândia, em Minas Gerais, buscando oportunidades de se restabelecer e enfrentar a dor do luto.

No ano de 2010, Isabel começou a se envolver com um homem mais novo, vindo da Bahia e que, segundo familiares, tinha interesse no dinheiro da parceira. Este foi um relacionamento conturbado e agressivo, com términos, discussões constantes e ameaças. O companheiro de Isabel chegou a atear fogo na casa com ela dentro, dormindo. Os vizinhos relataram ouvir as brigas, os gritos. Eles contam das tentativas contínuas em fazer com que Isabel saísse daquele relacionamento, daquela casa, daquela cidade. Em fevereiro de 2011, na cidade de Uberlândia, Jurandir Muniz de Alcantara, companheiro de Isabel, a assassinou enquanto ela dormia. A mulher morreu asfixiada e teve o corpo exposto por uma emissora de televisão com um vídeo que circula nas redes sociais até hoje, desonrando a mãe, irmã e filha de 52 anos. O assassino fugiu e o crime até hoje não teve julgamento.

Imagem: trecho do filme.

A partir dessa sequência de acontecimentos, o filho de Isabel Cristiano Burlan produziu o filme-documentário Elegia de um crime (2018). O documentário fechou a Trilogia do Luto, composta por mais duas produções que relatam as outras perdas da família Burlan: a morte do pai, tratada em Construção (2007), e o assassinato de seu irmão Rafael, desenvolvida em Mataram meu irmão (2013). Ferido pelo luto e pela raiva, Cristiano busca ressignificar e dignificar a imagem da mãe, vítima de feminicídio e da exploração dessa violência pelo telejornalismo.

Eu que deveria lhe proteger, me tornei sua testemunha.[…] Só consigo pensar que sua fuga para um lugar seguro foi um breve alívio.

Cristiano Burlan

O filme começa com Cristiano fazendo uma tentativa de contato com a polícia, no qual implora para fazerem um flagrante onde o feminicida poderia estar. O assassino, foragido, com um mandado de prisão e acusado de matar outras duas mulheres além de Isabel, ainda vive na cidade do crime, e periodicamente é visto por moradores que têm conhecimento do caso. Ainda assim, a polícia afirma não ter controle de ação sem provas concretas. A partir desse momento, Cristiano procura intervir no curso dos acontecimentos com a gravação do documentário.

Durante as filmagens, o diretor se reencontra com a repórter responsável pela reportagem na época do crime, exibida na TV Vitoriosa, afiliada ao SBT. Cristiano buscava ajuda na procura pelo assassino, o qual acreditava ainda estar nos arredores da cidade. A repórter, Cassia Bomfim Del Cassale, foi solícita e gentil durante toda a produção, representando um papel importante. Ao ser lembrada da reportagem que produziu em 2011, que expôs o corpo de Isabel, ela comenta que muitas coisas sobre a forma como relatam casos violentos na televisão mudaram em respeito aos familiares das vítimas. Mas aponta  que exibir essas imagens mórbidas dá Ibope, “o povo quer ver”.

Os casos de violência no Brasil são explorados, principalmente, pelo telejornalismo policial. O uso da imagem de Isabel na reportagem a transforma em apenas mais uma vítima, um número, deixando marcado na memória de Cristiano e de seus familiares imagens violentas como o último momento de uma pessoa querida, apagando lentamente as lembranças de Isabel quando ainda estava viva. No filme, o filho reconhece que, no enterro da mãe, seu primeiro ímpeto foi filmá-la no caixão, e confessa a culpa em relação a esse pensamento que o atormentou profundamente. Como cineasta, Cristiano reconheceu existir um limite onde a filmagem passa a ser antiética, desonra da qual Isabel foi vítima.

Ouvimos a dor pelas vozes dos filhos, tios, tias. Muitos dizem ter sido um crime anunciado. A maioria demonstra tristeza e revolta pela forma como ela morreu e pelo feminicida continuar impune até hoje. Os entrevistados não são nomeados e não conseguimos saber qual o nível de proximidade de cada pessoa com ela, mas é tangível o amor e a preocupação de todos. Os nomes são informados apenas nos créditos finais. Essa parece ser uma tentativa de não prejudicar a intensidade das imagens e das conversas, levando o foco para Isabel, para sua vida e a família que ela formou.

Esse ato é um mergulho na memória que traz à tona, de forma fragmentada, recordações do passado, enquanto o diretor, que também é um personagem e familiar da vítima, tenta buscar vingança. Inicialmente, seu propósito é realizar a prisão do assassino de Isabel sozinho, sem a ajuda de um sistema que falhou em defender seus familiares no passado, sendo esse seu ato criminoso. Entretanto, Cristiano assume, ao fim do documentário, que seu ato criminoso, sua vingança, é a capacidade e a oportunidade de realizar filmes – e não de fazer justiça com as próprias mãos. A penúltima imagem do filme é uma filmagem de Isabel junto com familiares, com um sorriso no rosto enquanto observa a cena que se passa ao redor. Linda, como tantos relatos destacaram. Em seguida, vemos uma fotografia do assassino, com a legenda:

“PROCURADO: Jurandir Muniz de Alcântara”. Abaixo da foto, uma orientação: “Caso tenha alguma informação, ligue para a polícia”.

É dessa forma que Cristiano Burlan finaliza seu ato criminoso.

Serviço:
Título original: Elegia de um crime
Onde assistir: Google Play ou Embaúba Play
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 14 anos (A14)
Justificativa: Abordagem de temas sensíveis como feminicídio e luto, sem cenas violentas.

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram ontem, 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Por Letícia Gabrielli

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