O cambiante jornalismo na cobertura de feminicídios: o caso Catarina Kasten

O feminicídio de Catarina Kasten, no último dia 21 de novembro, em Santa Catarina, é mais uma demonstração da permanência dos problemas do jornalismo brasileiro na cobertura dessa violência. É preciso reconhecer avanços históricos, como o uso do termo feminicídio e a referência ao Disque 180 em parte considerável da cobertura. A perspectiva de gênero, porém, continua ausente, com exceção de veículos feministas, como o Portal Catarinas.

Pelo resto da imprensa, no caso de Catarina ou no entorno dele, se repetem problemas exaustivamente apontados por pesquisas feministas:

  • Os títulos na voz passiva são focalizados na mulher, tirando de foco o suspeito ou feminicida e centrando toda a ação na vítima. O feminicida de Catarina foi rapidamente identificado e preso, mas ainda assim as manchetes eram sobre ela.
  • O uso do termo “morta” retira a gravidade da violência, afinal uma pessoa pode ser morta em um acidente, uma fatalidade. Feminicídio é um crime com autoria.
  • A vítima perde gradualmente a identidade e se torna a “estudante de pós-graduação da UFSC”; a “professora morta em SC”.
  • O jornalismo dá grande destaque aos detalhes das violências sofridas, adotando a perspectiva do jornalismo policial e, em alguns casos, policialesco. No caso do feminicídio de Catarina, o laudo que apontou a violência sexual foi repercutido à exaustão.
  • Feminicídios de mulheres brancas ganham mais visibilidade e são cobertos de forma mais humanizada que os de outros grupos. Diversos veículos publicaram matérias sensíveis narrando quem Catarina era, para além de constituí-la publicamente como vítima de um crime. Essa sensibilidade não se aplica a mulheres negras ou com deficiência, por exemplo.
  • Não há um enquadramento estrutural sistemático que conecte cada caso – e os casos – aos valores patriarcais, à misoginia. Há uma melhora, sim, pois agora os dados muitas vezes são apresentados. Mas a discussão mais profunda, sobre as bases de nossa sociedade que permitem ou legitimam esses acontecimentos, permanece ignorada.
Montagem com diversas manchetes de jornais sobre um feminicídio recente. Sobre elas, um X roxo.
Amostra das primeiras notícias sobre o feminicídio de Catarina Kasten: os problemas continuam.

Nós já sabemos que o jornalismo é masculino, em seus valores, rotinas produtivas, cargos diretivos, estruturas de propriedade. Mas gradualmente, mulheres e jovens profissionais se integram à prática profissional. Essas gerações, mais acostumadas às discussões de gênero, poderiam introduzir novas formas de noticiar esses assuntos. A cobertura do feminicídio de Catarina Kasten, felizmente, está anos luz à frente dos casos paradigmáticos de violência midiática contra mulheres, apesar dos problemas.

E, ainda assim, aqui estamos. No Ariadnes, temos discutido sobre esse estado de coisas e levantado algumas hipóteses. Uma delas é que, apesar de uma maior presença da discussão de gênero e sexualidade na sociedade, a formação em jornalismo ainda é deficiente nesse aspecto. Há pouca institucionalização, poucas disciplinas em currículos pelo país.

Outro problema é a formação continuada. Há poucas oportunidades de especialização na temática – ainda que tenha havido iniciativas recentes importantes nesse sentido. E mesmo com mais possibilidades de complementar a formação, é difícil exigir de profissionais precarizados e precarizadas, em processos de adoecimento e com salários baixos, que se atualizem por conta própria – e, muitas vezes, do próprio bolso.

Na universidade temos buscado oferecer esse tipo de formação complementar tanto para futuros e futuras jornalistas como para jornalistas da região. O resultado tem sido, até agora, um reflexo de toda nossa atuação: a pouca ou inexistente participação masculina e o baixo interesse do veículos de Mariana, Ouro Preto, Itabirito.

Isso indica que os homens não se sentem implicados na discussão de gênero e sexualidade – como se ser um homem hétero na sociedade não envolvesse essas duas dimensões. Uma herança do posicionamento do homem como sujeito universal e de quem difere dele como Outro. Também aponta (à parte as questões mais crônicas da profissão) para um cenário de desinteresse, por parte de profissionais do jornalismo da região, de modificar o modo como cobrem violências de gênero, especialmente violências contra a mulher – as que merecem mais atenção.

Diante desse cenário, às vezes parece que nós, da academia, ficamos falando para o vazio. Parece que nossa atuação não encontra eco nem suscita mudanças sociais. Isso é um engano. As mudanças são visíveis e devem ser celebradas. Os erros que apontamos repetidamente, denunciados até que deixem de existir e possamos praticar, produzir e consumir um outro jornalismo.

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Por Karina Gomes Barbosa

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