Violência e maldição na linguagem de “Pssica”

*Aviso de gatilho: o texto trata de violência sexual e estupro 

Pensar numa realidade de violência sexual que atinge meninas e mulheres é indigesto, mas, infelizmente muito próximo do nosso cotidiano. Elas acontecem na rua, em ambientes educacionais, na política, e (principalmente) dentro de casa. De acordo com dados do estudo Sem deixar ninguém para trás: gravidez, maternidade e violência sexual na adolescência, a maioria (67%) dos 69.418 estupros cometidos entre 2015 e 2019 tiveram como vítimas meninas com idade entre 10 e 14 anos. 

Porém, quando olhamos para disposição dos números no Brasil, observamos que a subnotificação ainda perdura em casos de estupro e abuso sexual, com apagão de informações em algumas regiões, como norte do país. Dessa forma, deslocar nosso olhar para realidade brutal paraense é tarefa da minissérie Pssica, de 2025. Dirigida por nomes conhecidos do cinema nacional, Quico e Fernando Meirelles, a obra é produzida pela O2 Filmes e Netflix.

Algumas das meninas que acompanhamos durante a série. Imagem: divulgação/Netflix

O trabalho percorre os rios do Pará, em especial na região de Belém e Ilha do Marajó, e se entrelaça com histórias de outros personagens, retratando outras facetas de violência – como roubos de carga, relações entre organizações criminosas e assassinatos. Porém, o foco deste texto será a trama de tráfico e abuso sexual de meninas.

Imergindo nos rios do Pará

Quando Janalice (Domithila Cattete) tem imagens sexuais divulgadas sem consentimento na escola, seus pais – por indicação da igreja que frequentam – enviam a menina de 16 anos para morar com a tia durante um período. A ideia é que a distância seria tempo de reflexão e perdão. Mas, ao contrário disso, a adolescente se vê em mais uma situação de violência quando é estuprada pelo namorado da tia dentro de casa. 

Na tentativa de fugir desse lugar, ela conhece Dionete (Ademara Barros) – que também está envolvida em um esquema de exploração sexual e consumo abusivo de drogas – e Miltinho (Luca Dan), uma criança indígena em busca de sua irmã (Sendí Baré), sequestrada da aldeia e levada para o Marajó, onde servia de escrava sexual. Em meio a essas relações, os ratos d’água – gangue que atua na região e responsáveis por sequestrar meninas para o tráfico e exploração sexual – recebem indicações de um “perfil” a ser encontrado: garotas brancas, bonitas e jovens. Nesse momento, a série vai nos conduzindo pela maldição que guia a narrativa ali: não há escapatória, o destino será implacável. 

Jana é sequestrada e se junta a outras meninas em uma fazenda afastada de tudo. Sua função ali é servir ao dono do local, Zé Ilídio (Cláudio Jaborandy), seja sexualmente ou com afazeres domésticos. As cenas são de completa brutalidade, com detalhes e closes dos estupros ali cometidos, o que nos deixa estarrecidas, claro, mas ao longo da série torna-se “comum” de tanto assistir.  

Quando afirmo violência e maldição como linguagem em Pssica, me refiro ao modo como as imagens são dispostas, a trama é construída e o ciclo de acontecimentos ruins é a única possibilidade ali. “Pssica” é uma gíria da cultura nortista e remete ao azar, a algo negativo que persegue alguém e, logo de cara, fica evidente que tratar de temas tão densos e complexos é sim algo difícil. No entanto, ao utilizar-se da violência de maneira tão exacerbada, me parece que a série quer trazer mais choque e menos reflexão aprofundada. 

Com o tempo acelerado e tudo acontecendo de forma tão agressiva, alguns pontos da narrativa se perdem e vão por um caminho equivocado – como a paixão súbita de Preá (Lucas Galvino), um dos ratos d’água, por Jana durante o sequestro. Me pergunto se há espaço para debater a violência sexual ou se ela fica como detalhe em meio a tantos acontecimentos. Ao valer-se dessa linguagem brutal, unida com a “maldição” que acompanha as personagens, a série não nos dá margem para pensar de maneira diferente, imaginar soluções possíveis. 

A sensação de assistir chega a ser sufocante, mas ao mesmo tempo eletrizante, como algo que nos prende na narrativa. A própria personagem de Janalice transmite, a partir de seus olhares, a captura de nossa atenção ao vê-la como vítima desse esquema, que de tão real soa grotesco. Ao reforçar a realidade do tráfico humano ou de exploração sexual, a maldição – ou pssica – torna-se um destino comum a tantas meninas e mulheres; para onde quer que elas forem, sempre enfrentarão violências. 

Janalice está constantemente cercada por violência. Imagem: reprodução/Netflix

Justamente esse ponto me trouxe um certo incômodo com a série, ao não nos confrontarmos com alguma saída viável para Jana ou as outras personagens que acompanhamos. É claro que não espero um final feliz típico de contos de fada, pois a realidade não nos permite tal devaneio. Mas, novamente me questiono: será que tal representação, repleta de violência, é a ideal para promover a reflexão necessária? 

Depois de chegar na ilha e de uma tentativa de fuga fracassada, resultando na morte de uma das garotas do grupo, ocorre uma festa em que Janalice é entregue “de presente” para o prefeito da cidade. O que, mais uma vez, reforça esse funcionamento normal das violações contra meninas: todo mundo sabe, todo mundo faz. Dentre várias tentativas de alcançar a liberdade, a jovem é traficada para a Guiana Francesa e vive em cárcere numa casa de prostituição. 

No final das contas, Jana consegue sair dali com a ajuda de Mariangel (Marileyda Soto) e retorna para o Brasil em segurança. Ela decide não retornar para sua casa, onde a mãe reside sozinha após o suicídio do pai durante a busca pela menina. Os traumas e memórias de sobrevivência marcam a jovem permanentemente. Ela não poderá voltar a ser o que era jamais.

Entre cativeiros ficcionais e reais 

Edyr Augusto, jornalista paraense e autor do livro homônimo que deu origem à série, afirma que a história não é baseada em um só relato real, mas no cotidiano de violência observado por ele. O escritor conta que reuniu notícias de jornais locais por dois anos para construir a trama, ou seja, a inspiração é totalmente concreta e reflexo da cultura de exploração e abuso sexual contra meninas e mulheres no norte do Brasil.

Assim como Mariana Brennand, diretora de Manas, afirma que o filme não é inspirado em uma personagem, a história de Pssica não diz respeito apenas a um acontecimento, mas sim a um panorama da realidade vivenciada por essas pessoas, que estão no que a professora e pesquisadora Patrícia Hill Collins chama de “cativeiro” no livro X. Ela afirma que a violência tem sido uma tecnologia potente para que as pessoas fiquem em seus “lugares demarcados”, nesses cativeiros. 

Ou seja, a estrutura de violência sexual à qual meninas e mulheres são submetidas, sobretudo as negras e de baixa renda, é reforçada, reproduzida e gerenciada por práticas sociais que a sustentam. Em Pssica, observamos como prefeitos, vereadores e pessoas com dinheiro e poder estão intrinsecamente envolvidos nos esquemas, ultrapassando inclusive a fronteira do Brasil com Guiana. A lógica da exploração e tráfico dessas meninas está ligada portanto à falta de ação do Estado e das polícias, que se veem cerceados por grandes estruturas financeiras, com anuência de governos locais. 

Ao apenas reproduzir essa realidade tão crua, sem escapatórias, nos vemos também cerceadas por essas pragas, entranhadas no cotidiano brasileiro. Porém, diferente de algo supostamente determinado, como a vida de Janalice, o combate à violência contra meninas e mulheres é um conjunto de ações que exige planejamento e informação ampla para todas as pessoas.  

Não será possível alcançar uma democracia que não olhe para essas meninas; abusadas, estupradas e forçadas a serem mães por um Estado que se comprova inimigo. No entanto, ao termos acesso apenas a imagens que reforçam tais violências, é como se as imagens de controle (termo cunhado por Patricia Hill Collins) fossem as únicas possíveis. Elas chocam, nos deixam estarrecidas. Mas é preciso vislumbrar ações palpáveis para alterar esse cenário, estratégias concretas para debatermos. 

Enquanto o espanto e o distanciamento forem nossos únicos recursos, a realidade permanecerá como pssica, essas maldições insolucionáveis. No entanto, sabemos que há maneiras de alterar a vida de meninas e mulheres – e isso precisa ser feito coletivamente. Vamos juntas pela eliminação da violência contra mulheres. 

Alguns dados importantes sobre violência sexual contra meninas: 
Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil 
Sem deixar ninguém para trás: gravidez, maternidade e violência sexual na adolescência 

Serviço:
Título original: Pssica
Onde assistir: Netflix
Gênero: Thriller; Violência; Suspense.
Temas: Violência sexual; Região Norte; Tráfico de meninas.
Classificação: 18 anos (A18)
Nossa classificação: 18 anos (A18)
Justificativa: Abordagem de temas sensíveis como estupro, violência explícita, uso de drogas ilícitas e exploração de meninas e mulheres.

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Por Lia Junqueira 

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