“Tudo é Rio”: um retrato da realidade brasileira

No livro Tudo é Rio, lançado em 2014 e relançado em 2021 pelo Grupo Editorial Record, conhecemos a história de Lucy, uma prostituta, e do casal Dalva e Venâncio. O romance ficcional foi escrito pela autora brasileira Carla Madeira, e aborda temas como agressão física, machismo e violência moral e, a partir disso, tece a conexão entre os protagonistas.

Capa de Tudo é Rio, livro brasileiro best-seller de vendas. Foto: Divulgação

A trama conta o início, meio, fim e recomeço da história de amor entre Dalva e Venâncio, um casal apaixonado. Desde o início do relacionamento, Venâncio demonstrava ser uma pessoa bastante ciumenta; em uma das passagens, a mãe de Dalva, Aurora, relata enxergar no genro sinais preocupantes do controle e atenção extrema com sua filha.

“[…] Venâncio sofria de ciúme. Não era um ciúme comum, daqueles que provocam cenas inflamadas, caras emburradas, atitudes intempestivas ou retiradas dramáticas. Era um ciúme calado, profundo, triste. Nas noites em que a casa se enchia de amigos dos irmãos de Dalva, Venâncio ficava sem lugar; vigiava os olhares o tempo inteiro. Não tinha sossego. Procurava a certeza de que tinha razão. Era como se tentasse se preparar para o pior ganhando em troca o consolo de não ser pego de surpresa: eu sabia, eu disse que ia acontecer” – Trecho de Tudo é Rio

Os sinais percebidos pela sogra logo se provaram reais, sendo o estopim um resultado da possessividade de Venâncio. Após alguns anos casados, Dalva engravidou: era um menino, Vicente. A mulher esperava ansiosamente a chegada de seu filho, preparando tudo que era necessário para recebê-lo; em contrapartida, o homem sentia ciúmes. Acreditava fielmente que “naquela barriga crescia um ladrão que ia roubar para sempre a mulher da sua vida”.

“A boca do neném buscava o peito farto e úmido querendo sugar, engolir e ainda tão sem saber. O mamilo se dobrava passando na boquinha pequena, querendo ser pego por ela. Dalva se entregava a uma emoção única, da mais comovente ternura. O momento dela e do filho cegou Venâncio de uma absurda loucura. Ele arrancou o menino dos braços dela e jogou longe, bateu em Dalva, bateu, bateu. Espancou” – Trecho de Tudo é Rio

Venâncio se sente culpado e, com seu filho praticamente morto em seus braços, o leva para uma grande amiga de Dalva e implora para que ela enterre seu filho. Após anos, o casal continua convivendo na mesma casa, mas totalmente sem contato: o amor que havia entre eles tinha acabado, os dois como fantasmas que se arrastam tristes pela cidade. Dalva, impactada pela violência do marido contra ela e seu filho, começa a sair pelas manhãs e retorna no fim da tarde: sai em silêncio e volta da mesma maneira.

O marido todos os dias se martiriza por suas ações, culpando seu pai por tê-lo criado daquela forma, levando-o às suas ações agressivas e seu ciúmes doentio. Buscando esquecer sua vida, começa a frequentar a Casa de Manu, um prostíbulo da cidade. Nesse momento, seu caminho cruza com Lucy, a puta (como gosta de ser chamada) mais requisitada do local. Apesar de seus apelos, Venâncio não deseja seus serviços e a recusa; a partir disso, ela começa a atormentar a vida de Dalva, que passa todos os dias por ali.

Após desavenças, Lucy finalmente consegue seduzir Venâncio e, com essa relação, acaba engravidando. Ao procurá-lo em sua casa, é recebida por ele de forma agressiva que, revoltado com a gravidez, a ameaça de morte. Naquele momento, Dalva aparece e sai em defesa da amante, da mulher que carregava agora o filho de seu marido. Depois da discussão, os três não possuem mais contato até que, 9 meses depois, Lucy deixa na porta da casa do casal o menino João, que acabara de nascer. Ali, Dalva viu a oportunidade de ser a mãe que tanto desejava poder ter sido.

O bebê ficava em um quarto, escondido do marido. Após algum tempo, Venâncio descobriu a presença da criança e, ao observar sua esposa com ele, decidiu que tentaria reconquistá-la: comprou presentes para o menino, o ninou e construiu um berço de madeira, deixado nos aposentos de Dalva. Ao observar os cuidados dele com o neném, a mulher decidiu que era a hora de revelar o segredo que guardava, o motivo de suas saídas diárias: iria buscar Vicente, seu primogênito, que sobrevivera à violência do pai. Ela decide que podem recomeçar e serem uma família novamente.

Assim como Dalva, diversas mulheres no Brasil são vítimas de violência praticada pelos seus parceiros. De acordo com a pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pela Datafolha e publicada em 2025, 40,7% das mulheres com 16 anos ou mais já sofreram algum tipo de violência pelos parceiros ou ex -namorados. Em 57% dos casos, as agressões ocorreram dentro de casa.

Dados como esses são importantes para compreendermos a realidade brasileira. De maneira similar à protagonista de Tudo é Rio, muitas das vítimas escolhem não denunciar: de acordo com a pesquisa, somente 25,7% procuraram ajuda de órgão oficiais. Das que não buscaram ajuda, 14% não acreditavam que a polícia pudesse oferecer solução, enquanto 13,9% tinham medo das represálias. Mulheres como Dalva não estão e não ficarão sozinhas – Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou Whatsapp no número (61) 9610-0180.

Infográfico produzido a partir dos resultados da 5ª edição da pesquisa. Reprodução: Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Título original: Tudo é Rio

Gênero: Ficção

Recomendação de leitura: 16 anos (A16)

Justificativa: A obra contém cenas de violência doméstica e violência psicológica, podendo causar gatilhos

Por: Maria Vital

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

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