Quem pode ser cientista?

Celebramos hoje, 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Instituída em 2015 pela Unesco e pela ONU Mulheres para fortalecer a ideia de que igualdade de gênero e ciência andam juntas e para contribuir com o ODS 5, sobre igualdade de gênero, a data costuma incentivar meninas e mulheres na carreira científica, especialmente em áreas com domínio masculino (as STEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês).

Ainda que a situação nas STEM seja, mesmo, crítica – a média global de pesquisadoras nessas áreas é de 33,3% de mulheres e a de estudantes, 35% – o olhar precisa ser ampliado para toda a área científica. Afinal, as barreiras, visíveis ou invisíveis, estão em todos os campos, até mesmo naqueles onde as mulheres predominam, mas, frequentemente, estão sujeitas ao teto de vidro.

Um dos modos de ampliar a presença feminina no campo é mostrar que a ciência, historicamente, também é feita por mulheres. Por isso, há algum tempo, tem aumentado a produção e circulação de representações mais inclusivas e paritárias sobre gênero. Mas o que essas publicações dizem sobre quem são as mulheres cientistas e, no fim das contas, sobre ciência?

Já existe, hoje, uma boa gama de livros dedicados ao tema. Mas vou falar apenas de alguns mais conhecidos. O primeiro deles é Histórias de ninar para garotas rebeldes (Planeta de Livros Brasil), um fenômeno editorial traduzido para o português em 2017 (e já com outros volumes, um deles dedicados só a mulheres brasileiras). Tem até podcast.

Páginas de livro infantil sobre Marie Curie. De um lado, texto, do outro, ilustração da cientista com vidro de laboratório.
Marie Curie, onipresente (com justeza) nas coletâneas de mulheres cientistas. Foto: Instagram/Planeta Brasil
Página de livro sobre Nettie Stevens. De um lado, texto, do outro ilustração da cientista olhando algo em um microscópio.
Nettie Stevens, pioneira da genética que descobriu os cromossomos sexuais.Foto: Instagram/Planeta Brasil

O livro traz 100 mulheres notáveis da história, em ordem alfabética, dos mais variados campos: artistas, esportistas, políticas, ativistas, aventureiras e, claro, cientistas. Estão lá Ada Lovelace (matemática), abrindo o livro; estão lá Jane Goodall (primatologia) e Marie Curie (física), e nomes menos canônicos como Sylvia Earle (biologia).

Entre a centena de mulheres, são 18 cientistas, apenas duas de áreas fora das chamadas ciências duras: Maria Montessori, educadora (que também era médica), e Hipátia, creditada como matemática e filósofa (desconfio que ela entra no livro muito mais pela primeira que pela segunda habilidade). Dessas mulheres, apenas não são da América do Norte ou da Europa Ocidental: Ameenah Gurib (biologia), da República de Maurício, que também foi presidenta do país, e a astrônoma e poeta chinesa Wang Zhenyi.

A coleção Gente Pequena, Grandes Sonhos, publicada no Brasil pela editora Catapulta, tem até o momento 24 títulos traduzidos (publicada originalmente em espanhol, já são 125 títulos em inglês). A única cientista disponível em português é a física Marie Curie. Pra ser justa, a coleção original tem outros nomes, como Ada Lovelace, Jane Goodall, Maria Montessori e Mae Jeminson (medicina), também presentes em HDNPGR, além de Hedy Lamarr (física), Rosalind Franklin (genética), Sally Ride (física) e Simone de Beauvoir (filosofia). De novo, apenas Beauvoir não vinha das ciências duras. De novo, cientistas do Norte Global.

Já a Folha de S. Paulo publicou duas coleções. A primeira é Grandes biografias para crianças, com 25 personalidades mundiais, de 2021. Há quatro cientistas no rol: Marie Curie, Margherita Hack (astrofísica), Jane Goodall e Wangari Maathai (sustentabilidade). Das quatro, apenas Maathai não estava presente em HDNPGR; Hack não está em GPGS. E de todas, apenas Goodall não foi ganhadora de um Nobel, mas teve trajetória igualmente notória. Vale notar que Wangari Maathai, primeira mulher africana a receber um Nobel da Paz, era queniana.

Ilustração da escritora Conceição Evaristo, em traços com cores fortes. É uma mulher negra, cabelos crespos para o alto, de túnica azul, calça verde, em frente a um grande livro aberto.
Ilustração de Conceição Evaristo na coleção Pensadores para Crianças. Foto: Divulgação/Folha.

Em 2024, a Folha foi mais direta na coleção Pensadores para Crianças, com 25 “grandes pensadores da humanidade a crianças”, segundo o próprio jornal. bell hooks, Conceição Evaristo, Hannah Arendt, Mary Wollstonecraft, Simone de Beauvoir (inacreditavelmente dividindo um volume com Jean Paul-Sartre!) e Maria Montessori são as 6 mulheres da lista. É uma visão mais aberta, pois se trata de pensadoras da Crítica Cultural, Literatura, Filosofia, Política e Educação. Ainda assim, apenas uma brasileira é considerada pensadora, ou produtora de ciência, nesse rol.

Há outros volumes dedicados apenas a mulheres cientistas; alguns apenas a mulheres brasileiras. Nessa, há muito mais motivos para sorrir ao encontrar o reconhecimento a brasileiras que fazem ciência. Mas a visão dominante de cientista nos produtos culturais mais vendidos parece ser a de uma mulher branca, cis, do Norte Global, que pesquisa ciências duras. Sem falar que o mérito científico está reservado a mulheres – às meninas resta sonhar e estudar. Precisamos celebrar, sim, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Precisamos incentivar a ocupação da academia brasileira por corpos femininos e romper os tetos de vidro que impedem a chegada das mulheres ao topo da carreira acadêmica – maternidade, misoginia, assédio, transfobia, racismo, capacitismo… Mas precisamos, sempre, questionar também o que as representações culturais nos “vendem” como ciência e quem são as mulheres representadas como cientistas.

Por Karina Gomes Barbosa

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