Todo mundo sabe, ninguém fala

Eu estava na biblioteca, era dia de organização nova das seções. Quando fui apontar para um livro na prateleira, senti alguém chegar por trás, me encoxando. Fiquei paralisada. Saí.  Tudo aconteceu muito rápido, sem que houvesse tempo para entender ou reagir. Tinham pessoas por perto, mas todos ficaram confusos com aquele movimento estranho. Numa fração de segundos ocorreu um toque – indesejado, sem consentimento – … Continuar lendo Todo mundo sabe, ninguém fala

As Bastos são fortes

Mariana -MG2023 Passou-se mais um dia agitado no antigo depósito de gás do Seu Figueiredo, com entradas e saídas de veículos enfumaçados e latidos dos cachorros do quintal. Nesse mesmo endereço, moram diferentes partes da mesma família, ali onde alguns nasceram – no mesmo cômodo onde vieram à vida – no pacato distrito de Santo Aleixo, Rio de Janeiro. Há uma casa maior, pintada com … Continuar lendo As Bastos são fortes

A dor de ser a única – qual o lugar de mulheres negras nos ambientes universitários? 

“E eu estou rodeada porEspaços brancos,Onde dificilmente eu posso adentrar e permanecer.Então, por que eu escrevo?Escrevo, quase como na obrigaçãoPara encontrar a mim mesmaEnquanto eu escrevo” Enquanto eu escrevo, Grada Kilomba Tive contato com esse texto da Grada Kilomba em uma aula. Estava passando por situações difíceis e ele ficou em minha cabeça por um tempo, me fazendo pensar em como é difícil ocupar espaços … Continuar lendo A dor de ser a única – qual o lugar de mulheres negras nos ambientes universitários? 

Protagonismo nas narrativas de violência de gênero: a importância da voz das vítimas na mídia

No documentário A vítima Invisível, da Netflix, dirigido por Juliana Antunes e lançado em 26 de setembro de 2024, a narrativa nos conta sobre a vida de Eliza Samudio, para além de sua morte, que aconteceu em junho de 2010. É uma perspectiva diferente da tradicional. Numa pesquisa para escrever um artigo sobre o feminicídio de Eliza, foi fácil encontrar detalhes da vida e carreira … Continuar lendo Protagonismo nas narrativas de violência de gênero: a importância da voz das vítimas na mídia

Assédio: embate entre estrutura de poder e performatividade masculina

Era uma sexta-feira, dia de terapia, pós-almoço no chamado “prédio da gerência” na fábrica onde trabalho. Tinha acabado de comer uma deliciosa feijoada com aquele gostinho de esquenta do final de semana, sabe!? Minha chefe já tinha até ido embora, eu estava nas últimas tarefas do dia, só iria escovar meus dentes, seguir com as atividades e pegar o ônibus que sairia a uma hora … Continuar lendo Assédio: embate entre estrutura de poder e performatividade masculina

Onde a liberdade se confunde com crime: o consentimento nas festas

O ambiente republicano e as festas universitárias em Mariana e Ouro Preto em tese nos dão liberdade para ser quem somos e fazer o que desejamos, desde beijar quantas pessoas quisermos até performar a sexualidade e gênero com certa segurança nesses locais. Porém, algumas noções de consentimento parecem ficar confusas com as experiências que temos ao longo do tempo.  Principalmente para as meninas e mulheres … Continuar lendo Onde a liberdade se confunde com crime: o consentimento nas festas

Dependendo do seu lugar na hierarquia, é permitido assediar

Eu estava na minha casa, em um momento feliz com minhas amigas, era uma festa comum do ambiente republicano. Foi quando chegou esse homem, mais velho, conhecido e que não está na universidade há alguns anos.  Ele chegou entrando, sem nem mesmo ter sido convidado, e falando com todas as pessoas. Eram papos estranhos, aproximação demais e insistência fora do normal quando ia dar em … Continuar lendo Dependendo do seu lugar na hierarquia, é permitido assediar

Até que ponto estamos seguras no ambiente republicano?

Fui a uma festa com a intenção de me divertir, beber e dançar com minhas amigas. Chegando lá, logo entendi que o ambiente não era seguro e tinha que fazer tudo para me proteger dos assédios, que, nesse dia, eram muitos.  Meu grupo tentou fazer uma rodinha para se proteger, mas nem assim deixamos de ser importunadas. Tinha homens para todos os cantos – mas … Continuar lendo Até que ponto estamos seguras no ambiente republicano?

Mãe é substantivo feminino de culpa?

Esse é um dos questionamentos trazidos pelo espetáculo “Mãe Fora da Caixa”, que explora a possibilidade de gravidez de uma mulher, sete anos após o nascimento de sua primeira filha. Com isso, ela revive em sua cabeça, durante os cinco minutos de duração do teste de farmácia, o misto de sentimentos da maternidade – positivos e negativos –, as memórias, os comentários e a (in)feliz … Continuar lendo Mãe é substantivo feminino de culpa?

A impotência que o assédio me traz

Eu estava sentada aguardando ser chamada pelo médico quando senti um toque no final nas minhas costas, na região do cóccix. Era um toque não desejado, mas achei que fosse sem querer. Como sou mulher, o primeiro pensamento é: a errada sou eu. Então cheguei para frente e fingi que não aconteceu. Afinal, não acreditei que, no meio da sala de espera lotada da Policlínica … Continuar lendo A impotência que o assédio me traz