Assédio nas moradias estudantis – negligência e omissão

imagem de um menino atrás de uma parede, só se vê metade de seu corpo, ele é branco de cabelos pretos lisos e curtos, veste uma blusa de frio preta e tem um olhar impassível.

“O meu relato começa com o medo de ir para uma casa mista nas moradias estudantis da Ufop, só que com a breve experiência de república que eu e minha irmã tivemos, a gente achou que seria mais interessante a convivência, as trocas e experiências. Então, quando fomos selecionadas para as moradias, escolhemos um apartamento misto.

Inicialmente a recepção de todos foi tranquila, não teve nenhuma queixa. Mas no semestre seguinte chegou um novo morador, que havia trocado de vaga de uma casa masculina. Quando ele chegou, um outro residente comentou em tom de brincadeira para tomar cuidado com esse novato, porque o sujeito tinha mudado para uma casa mista por conta das mulheres.

Mesmo com a brincadeira, evitei julgá-lo antes de conhecer. Na mudança, percebemos que esse novo morador era uma pessoa extremamente tímida, com dificuldade de interagir, de se comunicar socialmente. E por isso trocamos poucas palavras.

Com o passar do tempo fui percebendo olhares. É difícil falar em olhares, é difícil de explicar, porque quando a gente é mulher, a gente se habitua àquele olhar desde sempre. Sabemos exatamente configurar como é esse olhar. Um olhar, talvez, de superioridade.

Comentei com minha irmã o que sentia, e ela disse que sentia o mesmo.

Cheguei a me culpar por pensar isso. Pensava que podia estar interpretando mal a timidez dele. Achei que estaria criando essa situação, consequentemente me mantive calada por um tempo. E observando.

Mas a partir de um momento a situação começou a me incomodar demais. Quando eu estava de short em casa, de pijama, por exemplo, sentia que ele olhava, que rondava. Percebia que ele só procurava conversar com mulheres, e das figuras masculinas da casa ele até se distanciava.

Resolvi marcar uma reunião com os moradores para expor meu incômodo, até mesmo para saber se seria um mal entendido ou não, apesar de sentir o contrário.

No dia da conversa ele ficou calado. Expus a situação e esperei um pronunciamento, mas não houve. Assim, pedi que evitasse contato. Ele concordou. Ou pelo menos pareceu concordar.

No dia após a reunião recebi uma mensagem desse morador de madrugada, por Whatsapp, perguntando por que eu o expus. Mas não era só isso. Ele queria saber o motivo de não tê-lo aceitado no Facebook. Dizia que só queria ter uma amizade porque eu era muito bonita. E tudo escrito de uma forma meio rude.

A pessoa tímida, que quase não conversava, quase não se comunicava, se mostrou na mensagem uma outra figura. Tirei print, e respondi que a forma como ele usou, a postura, foi não foi a maneira certa de começar uma amizade.

Comentei com minha irmã que na reunião ele não disse nada, mas esperou uma situação que tinha só nós dois para mandar mensagem. Depois de tudo, ainda recebi um texto-convite para que saíssemos para beber e conversar.

Num instinto, minha irmã bateu no quarto dele e pediu que parasse de mandar mensagens para mim, que nossas conversas fossem em locais de convivência da moradia.

Enquanto essa situação acontecia comigo, outras meninas da casa se atentaram. Um dia almoçando no RU com outro morador, ele comentou que uma dessas moradoras estava com “uns pernões naquele short”.

Novamente a dualidade de uma pessoa que não se expressa, mas que naquele momento se expressou como se deixasse escapar o que sente de verdade.

Esse morador que ouviu o comentário achou que devia contar para a menina, que divide quarto comigo. Todas ficamos incomodadas. Mas era só o começo.

Depois que ele parou de mandar mensagem para mim, começou a mandar mensagem para ela. No mesmo tom, “te acho muito bonita”, “quero ser seu amigo”. Uma abordagem errada. Achamos que devíamos convocar a universidade para resolver, porque já tínhamos falado em reunião interna.

Nos reunimos duas vezes com a psicóloga e assistente social. Elas inclusive o conheciam e sabiam dessa personalidade dele, do jeito retraído. Nas reuniões, senti um desamparo.

Na tentativa de tentar ouvir os dois lados, que acho super importante, senti um silenciamento. Me senti silenciada. Fui muito clara a respeito dos olhares e atitudes que me incomodavam, mas no trabalho da Ufop de reinserir ou de garantir os direitos de uma pessoa, negligenciou as atitudes, ou uma análise mais profunda, da situação. Ninguém ia falar que uma pessoa está olhando para a outra, gerar essa situação, por nada.

Realmente estava acontecendo algo.

E em uma dessas reuniões ele justificou, falou que poderia ter acontecido algumas situações, mas é porque existem dois homens, “o homem biológico e o homem racional”.

Na reunião, as representantes da universidade tentaram minimizar o que eu vivi, falando que azaração, ou desejo, numa casa mista pode acontecer. Eu nunca disse que isso não poderia acontecer, mas que naquele caso as coisas estavam me deixando desconfortável. Eu já tinha dito não, já tinha pedido para ele parar.

Pedimos à universidade a troca do morador, mas deixaram a cargo dele. Ele não quis sair, alegando que a história iria se espalhar.

Depois disso, houve momentos em que eu não tomava banho à noite para não passar de toalha em frente ao quarto dele. Não escovava os dentes muito tarde, e quando ia, era acompanhada.

Era insuportável acordar cedo para a aula e enfrentar aqueles olhares fixos em cada movimento meu enquanto tomava café. Falei essas coisas com a universidade, e ele falou que era um exagero. E não, não é um exagero.

A universidade não nos prepara para esses desafios. Quando eu passei por todo esse processo tinha 17 anos, nunca tinha morado fora de casa.”

Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em junho de 2019.

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