
“Há alguns anos, fui aprovada para mobilidade acadêmica pela Ufop. Depois de seguir todas as orientações para a viagem, estabeleci contato com o responsável pelos alunos estrangeiros na universidade de destino. Quando cheguei em meu novo país, esse homem – que fazia parte da área de Assuntos Internacionais de lá – me ajudou a encontrar uma casa para morar, me levou para jantar com os demais alunos intercambistas e também nos levou para passeios. A princípio, ele parecia ser uma pessoa solícita, cumprindo seu dever de integrar os alunos estrangeiros a sua nova universidade. Entretanto, essa relação amigável foi mudando aos poucos. Ele começou a me ligar sempre, sendo que poderíamos tratar de assuntos ligados a minha educação por e-mail, passou a me convidar para sair à noite e a fazer comentários indevidos pelo whatsapp. No Dia dos Namorados foi a gota d’água! Ele me ligou durante o dia todo e eu, já muito cansada e agoniada com a situação, pedi que parasse e lhe disse para conversar comigo apenas por e-mail, quando surgisse alguma demanda relacionada ao meu intercâmbio.
Durante a minha estadia, conheci uma menina que estava fazendo um intercâmbio profissional como estagiária dele. Ela me relatou que também era assediada por ele, e que esse homem utilizava as redes sociais da própria instituição para assediar outras alunas intercambistas. Essa garota, infelizmente, acabou adiantando a viagem de retorno a seu país por não aguentar mais passar por isso. Além dela, também conheci meninas nativas que já haviam passado pelo mesmo. Ele se oferecia para ajudar com estágios, com o processo de intercâmbio (porque tinha o poder para isso) e acreditava que, assim, tinha o direito de assediá-las. Diante de todas essas situações quis denunciá-lo. Mas estava vivendo longe de casa e da minha família, num país machista com alto índice de violência contra a mulher e feminicídio. Além disso, me confidenciaram que ele possuía tal cargo porque vinha de uma família “importante”, e ele mesmo já havia me contado que tinha policiais na família. Pela minha vida, tive medo de denunciá-lo.
Apesar disso, meu desempenho acadêmico foi excelente. Tirei boas notas e fui convidada para continuar na universidade por mais um semestre, para seguir levando a cabo um projeto que criei por lá. Diante dessa oportunidade, precisei me comunicar com o assediador novamente, para saber o processo de renovação da parceria e do meu visto. E, de novo, ele abusou do poder concedido pelo seu cargo para me assediar. Dessa vez, chegou a me tocar e tentou me beijar. Já inconformada com a situação, disse que iria denunciá-lo, porque não era certo o que ele fazia comigo e com outras garotas. Como consequência, ele não falou mais comigo, até o dia em que solicitei o certificado com minhas notas para poder enviar à Ufop. Ele me respondeu mal, dizendo que estava de férias e que não poderia me ajudar com isso. Foi quando senti uma enorme raiva, nojo e desespero com toda a situação. E por essa e outras questões, decidi não continuar por mais um semestre e retornei ao Brasil.
Quando cheguei aqui, achei que seria mais seguro denunciá-lo. Mas quando fui informada que a faculdade onde havia realizado o intercâmbio estava abrindo um mestrado justamente na linha em que eu sonhava estudar, pensei comigo mesma: “Quais as chances de me aceitarem se eu fizer essa denúncia? E se ela alcançar grandes proporções? E se não alcançar? Será mesmo que tomarão alguma atitude eficaz? Porque se não tomassem, adivinhem quem seria o responsável pelo meu processo de ida?” De novo, me calei.
Felizmente, há alguns meses uma amiga me contou que esse homem já não trabalha mais na secretaria de Assuntos Internacionais. E uma parte de mim ficou tremendamente aliviada. Sempre imaginava se ele continuava assediando as alunas, estragando o que deveria ser uma experiência acadêmica incrível.
Apenas hoje me dou conta de tudo o que passei, da gravidade e também da falta de medidas para que situações como essa não ocorram. Durante o tempo em que estive fora, a Ufop não me enviou nenhum e-mail perguntando como estava sendo o processo. Ao regressar, tive que preencher um relatório sobre minha experiência e nenhuma pergunta contemplava a questão de assédios e abusos de autoridade. Não existia nenhum canal para denúncia anônima, nenhuma escuta ativa para um problema que sabemos que é comum. Participei de uma roda de discussão durante o Encontro dos Saberes e quis tocar no assunto, mas não houve tempo pois o responsável tinha que sair.
Compartilho essa história porque me pergunto quantas alunas já passaram pelo mesmo. E quero dizer a elas que não se responsabilizem por isso, pois a universidade é um espaço onde se supõe que deveríamos estar seguras, preocupadas apenas em enriquecer nosso conhecimento. Eu, em meio a tudo, ganhei marcas que sei que doerão para sempre, acompanhadas de um constante sentimento de culpa. Poder compartilhar esse relato, mesmo que online, é uma maneira de me sentir mais forte diante de todos os desafios que encontramos na hora de denunciar a violência contra a mulher e de gênero, especialmente em casos de assédio e stalking.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.
