Em uma república de Ouro Preto – sobre abuso e descrença

imagem da entrada de um banheiro, a porta está aberta pela metade, é possível enxergar parte da privada e dos detalhes do local.
Imagem por Emily Soares

“Meu caso aconteceu há cerca de três anos. Eu morava em uma república em Ouro Preto e estava em uma festa em outra república com meus amigos, trocando ideia e bebendo. Em algum momento da festa, fiquei cansada e quis dormir; fui para um dos quartos da casa, vi meu amigo conversando com outras pessoas e pedi para descansar ali mesmo.

Como havia bebido muita cerveja, senti vontade de ir ao banheiro. Me lembro perfeitamente da cena em que eu estava sentada fazendo xixi e ele na minha frente, um pouco distante. Ele tirou o pênis da calça e começou a se acariciar. Não entendi o que estava acontecendo. Era uma pessoa em quem eu confiava, de quem gostava e achava que poderia contar para qualquer coisa… Eu levantei e ele tentou me beijar à força. Falei que éramos amigos e não iria rolar nada. Ainda assim, ele me segurou por trás e beijou minha nuca. Fui embora da festa e no caminho encontrei uma amiga que percebeu o quão abatida e nervosa eu estava.

No dia seguinte, perguntei pra ele o que havia acontecido e ele tentou justificar, me acusando de ter ido pra cima dele, abrindo a blusa e mostrando o sutiã. Ele ainda disse: “Eu também não entendi o que estava acontecendo”.

Não imaginava que ele era capaz de fazer algo assim, por ser sempre educado, tratando todo mundo bem. Mesmo depois de três anos minha ficha às vezes não cai e me pego duvidando do que aconteceu. Isso afetou as minhas amizades e como me relaciono com novas pessoas, principalmente homens. Minha autoestima caiu muito.

Pesou muito o jogo psicológico que ele fez comigo, pensei várias vezes que tudo poderia ser coisa da minha cabeça. Ainda assim, não tinha por que eu ter criado algo tão bizarro. Hoje, já não sinto culpa pelo que aconteceu, mas desconfio muito de homens e sempre me policio quando estou bebendo.

Teve gente que o defendeu. Duvidaram de mim. Perguntaram como eu estava vestida e se tinha bebido muito. Nunca mais voltei nessa república e me afastei de todas as pessoas que considerava minhas amigas e que preferiram a presença dele a acreditar no meu relato.

Descobri, um ano depois, que ele assediou outra mulher. Só tive coragem de registrar o boletim de ocorrência há poucos meses.”

Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em agosto de 2019.

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