Eu ainda me lembro – uma história sobre assédio no carnaval

imagem em preto e branco de um chão cheio de confetes.

“Depois que entrei para a Universidade, em 2012, comecei a perceber coisas que não percebia, coisas que talvez não enxergasse como assédio ou abuso.

Em 2013 passei o primeiro carnaval em Ouro Preto. Era outra cidade, outro clima, muitas festas, não era nada comparado ao que eu estava acostumada.

Eu nunca tinha ido para um carnaval tão permissivo. Fiquei deslumbrada com os blocos, a sensação libertadora de participar daquela festa pela primeira vez, as cores e a música.

Estava com minhas amigas quando um grupo de garotos chegou. Um deles estava ficando com uma delas. Ele a beijou. Eu olhei. Eu ainda tinha um certo pudor.

Um amigo desse garoto me pediu um beijo. Ele ficou insistindo. Eu disse não.

Até então eu não via ameaça. “É só um carnaval”, pensei. “Essas coisas acontecem.” No entanto, a violência veio rápido.

Ele me segurou pelo pescoço com muita força. De um jeito que eu não conseguia movimentar a cabeça. Me prendeu. Me beijou. Me beijou à força. Depois mordeu meus lábios e sorriu:

“Pronto.”

Pronto, eu tenho direito sobre seu corpo.

Pronto, amanhã você nem vai se lembrar disso.

Mas eu me lembrei no outro dia, e no outro, e depois no outro. Eu me lembro disso até hoje.”

Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.

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