“I May Destroy You” e o olhar além do óbvio para as violências sexuais  

Aviso de gatilho: este texto fala sobre estupro e agressões sexuais.

I May Destroy You é uma série britânica, lançada em 2020 na HBO Max, possui 12 episódios com cerca de 30 minutos de duração cada. Indicada a vários prêmios, foi criada, dirigida, roteirizada e protagonizada por Michaela Coel e tem o elenco majoritariamente negro. Na série, acompanhamos Arabella Essiedu (Michaela Coel), uma escritora jovem adulta famosa por seus tuítes e por seu livro inspirado neles, que se tornou um sucesso, chamado Chronicles of a Fed Up Millennial (em português, Crônicas de uma Millennial de Saco Cheio) e está trabalhando em sua próxima obra.

No primeiro episódio da série, somos apresentados à vida de Arabella, seu ciclo de amigos, trabalho e relacionamentos. Ela está escrevendo seu segundo livro, mas enfrenta um bloqueio criativo, então, para relaxar e fugir dessa tarefa, em uma noite resolve sair para beber com alguns amigos. Arabella bebe e usa drogas, fica muito alterada e acorda no outro dia em seu trabalho, sem se lembrar de partes da noite anterior e de como chegou até ali. É daí que se inicia a trama principal: Arabella descobrindo, lentamente, por meio de confusos flashbacks, que foi drogada e abusada em uma cabine de banheiro, ao ter sido deixada pelos amigos no bar. Através da narrativa do roteiro, vamos descobrir e relembrar os acontecimentos daquela noite junto com ela. O que transmite a sensação de estar vivendo aquela situação com a protagonista.

Em 2015, enquanto passava por um bloqueio criativo, ao escrever a série Chewing Gun, Coel vivenciou uma situação muito parecida com a da protagonista, fazendo com que I may destroy you possua forte teor testemunhal. Isso pode explicar o olhar sensível e certeiro ao descrever e interpretar as fases do trauma do abuso sexual por que Arabella passa ao longo da série. A protagonista não é retratada como frágil, inocente e boazinha. Ela é uma pessoa normal, que erra e acerta, e foi fragilizada por causa do abuso. Mas, com ajuda psicológica, de seus amigos e de um grupo de apoio para mulheres que foram abusadas, ela consegue elaborar o trauma.

O processo de entender o que aconteceu e processar os sentimentos para Arabella é lento. Passa a sensação de que era difícil aceitar a gravidade da situação e acreditar que isso realmente aconteceu com ela. Isso é intensificado pelo fato de Arabella ser uma mulher negra, não rica e nunca ter se atentado tanto às questões de gênero. Em Gênero, raça e classe, Angela Davis, diz que as interseccionalidades* entre gênero, raça e classe não devem ser separadas e tratadas como lutas diferentes e hierárquicas, mas sim em conjunto. Desse modo, Arabella não deveria se preocupar em ter mais uma batalha e abandonar as outras, como o antirracismo, mas lidar com todas elas como uma mulher negra que vive nos estratos médios da sociedade.

A relação de consentimento e abuso é bem retratada na série e vai além do óbvio, pois, às vezes, não resconhecemos que a falta de consentimento, seja qual for, pode ser estupro. O quarto episódio se destaca ao abordar outras formas de violência, quando, simultaneamente, Arabella e Kwame (Paapa Essiedu) são violados de formas diferentes. Arabella se relaciona sexualmente com um homem e durante a relação ele tira o preservativo sem ela saber, depois, ao ser questionado, relata que achou que ela tivesse notado. E Kwame, melhor amigo de Arabella, é um homem gay que usa aplicativos de paquera frequentemente. Ele vai para casa de um match, que conheceu num desses aplicativos, e eles transam consensualmente, mas antes de ir embora, Kwame é imobilizado, pressionado na cama enquanto o homem se esfrega nele.

É importante ressaltar que, ainda que a relação seja consentida, pode haver abuso e tanto Arabella quanto Kwame, foram vítimas de crime. No Brasil, o “Stealthing” –  retirada do preservativo durante a relação sexual sem o consentimento da outra pessoa – é considerado crime de violação sexual mediante fraude e pode levar a pena de dois a seis anos de reclusão. E mesmo que a relação tenha começado consensualmente e, depois, uma das partes se negou, é estupro e pode resultar em reclusão de 6 a 10 anos.

A dificuldade da denúncia é comum entre as vítimas de violência sexual. Tanto no âmbito judicial quanto no pessoal, como contar para a família e amigos. Pois gera medo de julgamentos, culpabilização e falta de apoio, além de fazer a vítima reviver todo o trauma. Arabella, assim que percebeu que tinha algo de errado, foi para a delegacia fazer uma denuncia, isso geralmente não acontece, pois o ato gera medo e muitas vezes exige tempo. Como Sara Ahmed diz em seu texto O tempo da denúncia, esse processo pode demorar e o tempo não deveria ter tanta importância.

*Interseccionalidade é a sobreposição ou intersecção de identidades sociais. Como se fosse uma encruzilhada de opressões. 

Por Ana Luiza Rodrigues

Serviço: 

Título da série: I May Destroy You
Onde assistir: HBO Max 
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Minha classificação: 16 anos (A16)
Contém violência de gênero, cenas de estupro, cenas de sexo e nudez. Além de uso de drogas lícitas e ilícitas. Aborda questões de sexualidade positivamente.
Gatilhos: Estupro e violências sexuais.
Gênero: Drama.

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