A Hora da Estrela – Quais são os corpos válidos nesse mundo?

Mulher branca de cabelos escuros, curtos e ondulados. Ela está se olhando sorrindo no espelho, usa um vestido branco, e segura com um braço um tecido branco no topo da cabeça.
Cena do filme de 1985 de Suzana Amaral

“A hora da estrela” é uma obra ficcional escrita por Clarice Lispector, publicada em 1977, que ganhou adaptação para o cinema em 1985, o longa foi dirigido por Suzana Amaral, e teve roteiro produzido por ela em conjunto com Alfredo Oroz, e também com a autora deste livro clássico da literatura brasileira. A obra narra a história de Macabéa, uma jovem datilógrafa de 19 anos, vinda de Alagoas para São Paulo. Ela é órfã e foi criada por uma tia que morreu há pouco tempo, e com quem tinha uma relação complicada, por sofrer muitas repressões. Agora, Macabéa se vê sozinha enquanto tenta viver em uma das principais capitais do país, e nós acompanhamos suas desventuras pela voz de Rodrigo S., que é o personagem que escreve sobre ela e que se intitula como a única pessoa que a ama. 

A protagonista é vista como alguém sem valor, que não tem noção de quem é, não consegue fazer nenhuma tarefa direito, e que sempre se desculpa pelo espaço que ocupa no mundo. Ela diz não se sentir muito como gente, e de fato nunca é tratada como tal. Está prestes a ser demitida de um emprego que não paga nem salário mínimo, porque apesar de se esforçar com o pouco que sabe, não consegue executar o trabalho da forma esperada pelos seus chefes. 

Ao longo da trama a jovem conhece Olímpico, um homem vindo da Paraíba com quem passa a ter um envolvimento amoroso, mas a relação entre os dois é turbulenta e cheia de violências psicológicas dele para com ela. Macabéa é uma mulher que tem curiosidade pelo mundo, quer entender como tudo funciona, por isso está constantemente fazendo perguntas que Olímpico não sabe responder. E isso faz com que ele se irrite profundamente, e sempre a alerte de que curiosidade demais não é bom para uma mulher “direita”. 

A narrativa mostra a protagonista sendo constantemente questionada sobre quem ela é como pessoa, e principalmente como mulher, como se a forma como ela é rompesse com o resto do mundo, e isso fizesse dela menos “gente”. Através disso, voltamos a Butler no livro “Quadros de Guerra” publicado em 2009, e seus questionamentos sobre quais corpos são vistos como válidos e importantes. Macabéa é uma mulher nortista, de classe baixa, que vive sozinha, e que não teve acesso a muitos conhecimentos comuns às pessoas ao seu redor na capital, e essas diferenças são intrínsecas à forma como ela se constrói ao longo de sua vida.

Os caminhos perpassados pela interseccionalidade de elementos que compõem a protagonista como pessoa e como mulher, estão presentes nos modos como ela vai ser vista pelo mundo. Ela é frequentemente vítima de xenofobia, misoginia e outros preconceitos diversos por conta da forma como vive, mas Macabéa é apaixonada pela vida e por descobrir coisas novas, e por isso não se deixa abater. Ao longo da trama, vemos a elaboração de uma vida tida como precária pela forma como é enquadrada por quem a enxerga diariamente. As pessoas ao seu redor a diminuem, e ela se vê apenas no papel de tentar se desculpar e melhorar as coisas na medida do possível.

Ao fim, Olímpico termina com ela, mas não sem antes agir com desprezo para com Macabéa, dizer que a jovem lhe custou muito pouco, que é como um cabelo na sopa, e que ela “não dá vontade de comer”, tudo isso para atingi-la em um golpe final, e ir ficar com uma amiga da protagonista. Macabéa se vê sozinha, e decide buscar ajuda em uma cartomante que prevê uma virada completa em sua vida, vê a vinda de um homem que irá mudar a sua vida, vê dinheiro e felicidade bem próximos. Mas ao sair de lá, a personagem morre e tem o único momento de glória de sua vida, seu momento de estrela, seu momento de parar de sofrer.

Tudo o que acontece nessa história nos leva a refletir sobre quais corpos são tratados como válidos ou não. Macabéa é despersonalizada durante toda a trama, tida como alguém que não traz nenhum benefício ao mundo, por isso é constantemente maltratada pelas pessoas ao seu redor, como se seu modo de viver desse “passe livre” para a tratarem mal. Especialmente por Olímpico, que apesar de dividir muitas características semelhantes com ela – como o fato de ser de fora da região sudeste, sendo um nordestino de classe baixa que também não conhece muito sobre o mundo -, age como se fosse superior a ela, como se pudesse a tratar de qualquer jeito,  e assim a diminuir.

O único momento glorioso da vida de Macabéa acaba sendo o momento em que sua vida se extingue, porque esse é o momento em que seu corpo ganha paz, e para de ser maltratado. O que nos leva a Butler novamente, as formas como o mundo em que vivemos, é capaz de transformar certas vidas em precárias através das desigualdades, e fazer com que seus corpos sejam vítimas de preconceitos e má qualidade de vida. Macabéa é uma mulher que merecia viver tendo momentos de “estrela” quando quisesse, sem ser desmerecida diariamente apenas por ser quem ela era, porque seu corpo é um corpo válido, embora não fosse tratado como tal.

Por Lívia Labanca

Serviço: 

Título original: A hora da estrela

Páginas: 88

Editora: Rocco

Ano de publicação da edição: 1988

Classificação indicativa: 12 anos (A12)

Gatilhos: Violência psicológica e xenofobia.

Classificações da autora:
14 anos (A14)
Justificativa: nível de violência psicológica e preconceitos exibidos ao longo da trama, não recomendado para crianças justamente por esse motivo.

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