
Eu não sou um homem fácil é um filme francês, lançado em 2018 pela plataforma Netflix e dirigido por Eléonore Pourriat. Com 98 minutos de duração, a produção é classificada como comédia romântica e envolve todo um cenário de crítica à sociedade patriarcal e misógina em que vivemos.
A trama gira em torno da mudança de perspectiva que Damien (Vincent Elbaz) sofre ao bater a cabeça em um poste: antes, ele vivia em um mundo machista e protagonizado por homens, mas agora se vê em uma realidade invertida, na qual as mulheres estão no controle. No novo mundo, as mulheres é que ocupam os lugares de chefia e assediam os homens oferecendo vantagens no trabalho em troca de sexo.
Damien começa a ficar desesperado quando percebe que preocupações tidas pelas mulheres em seu mundo agora são dos homens: eles se sentem pressionados a depilar o corpo e participam de movimentos “masculinistas” em prol do fim da desigualdade de gênero. Além disso, usam roupas decotadas e têm seus corpos frequentemente sexualizados, enquanto as mulheres estão mais cobertas por calças e blazers.
O protagonista se apaixona por Alexandra (Marie-Sophie), que, no mundo matriarcal, é sua versão feminina: relaciona-se com vários homens, assedia-os e os trata como conquistas sexuais. Ao longo do filme, Damien tenta explicar a realidade patriarcal de seu mundo para Alexandra, que sequer consegue imaginar uma realidade na qual as mulheres são vistas como símbolo de fragilidade.
De maneira crítica e irônica, a produção traz as mulheres como o “sexo forte” e novas narrativas são criadas: elas são escolhidas para gestar devido à sua força natural, mas os afazeres domésticos e a criação dos filhos ficam por conta dos homens. Nesta realidade, elas correm pelas ruas sem camisa com a tranquilidade de que não serão assediadas.
A crítica pode ser percebida até no próprio nome do filme, uma vez que foi feito um trocadilho com a frase popularmente conhecida direcionada às mulheres “não seja uma mulher fácil”. Essa advertência é utilizada para repreendê-las sexualmente e, geralmente, é acompanhada de outras falas, como: “se você for fácil, ninguém vai te querer/valorizar”, passando a mensagem de que as mulheres têm que reprimir seus desejos, enquanto os homens, quando têm o mesmo comportamento, são vistos positivamente como “garanhões”.
Nos últimos minutos do filme, Alexandra sofre um golpe e, quando acorda, depara-se com a realidade que Damian tanto falou (e essa nós, infelizmente, conhecemos bem), em que as mulheres são submissas no trabalho, no lar, e são vítimas de assédios e abusos. A personagem também se choca com as roupas curtas e sensuais que as mulheres usam, uma vez que, no seu mundo, eram os homens que se preocupavam com a estética e em ficar atraentes.
O objetivo principal do filme é criticar o patriarcado e trazer o questionamento do porquê a estranheza do cenário de submissão é válida apenas para quando os homens são inferiorizados. Afinal, lidamos com esse mesmo contexto na nossa sociedade, mas com as mulheres vivendo essa subalternidade, que, infelizmente, foi naturalizada e vista como histórica e normal.
Um exemplo dessa estranheza é na cena em que Damien é assediado física e verbalmente em um bar: violência que, fora da ficção, inúmeras mulheres sofrem todos os dias. Ao final da trama, é possível perceber que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a patriarcal, uma vez que qualquer contexto em que apenas um dos gêneros detenha do poder e seja beneficiado em detrimento do outro será desfavorável.
Além disso, podemos perceber que uma simples “inversão” ou “espelhamento” não seria a solução para resolver o problema da desigualdade de gênero, apenas trocaria de questão. Neste caso, se pudéssemos escolher uma realidade, como foi feito no longa, o ideal seria uma em que não houvesse desigualdade nem privilégios em relação a um gênero e, para isso, seria (e é) necessário mudar toda uma estrutura machista e patriarcal, que traz inúmeros malefícios à sociedade.
Por Maria Clara Soares
Serviço:
Título original: Je Ne Suis Pas Un Homme Facile
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora:
14 anos (A14)
Justificativa: cenas de sexo, violência e preconceito explícitas. A narrativa também exige um certo pensamento crítico, que a partir de 14 anos, o indivíduo conseguiria compreender melhor
Gênero: Comédia romântica
