“Rompendo o silêncio” para expor as relações de poder nas universidades brasileiras

Rompendo o silêncio é uma série documental brasileira lançada em 2021 pela HBO. Ela aborda a temática da cultura da violência e hierarquia dentro das universidades brasileiras, por meio de relatos de vítimas, dados estatísticos e análise de profissionais e especialistas sobre as violências retratadas. A série conta com 5 episódios que foram lançados semanalmente, com em média 60 minutos, e destrincham temas como trote, discriminação, assédio sexual, violência moral e de gênero e estupro.

Estudantes de universidades do estado de São Paulo contam suas experiências da época que entraram no curso de Medicina. Apesar de existir uma lei estadual, desde 1999, que veda trotes sob coação, agressão física, moral ou qualquer outra forma de constrangimento que possa acarretar risco à saúde ou a integridade física dos alunos, a cultura dos trotes continua. No documentário as vítimas relembram as violências sofridas no período que chegaram à faculdade e as consequências de terem denunciado esse esquema de relações de poder. Pessoas que ingressam na faculdade costumam ser chamadas de “bixos” e são obrigadas e coagidas a participarem de diversas atividades invasivas, além de consumirem álcool e passarem por diversas situações constrangedoras. Esse sistema de trotes é uma forma de relação de poder e as mulheres são as que mais sofrem, sendo objetificadas, obrigadas a dançar sensualmente, ingerir alcool, simular sexo oral em objetos e ler revistas pornográficas para os veteranos. 

Esse problema existe tanto em universidades públicas quanto nas particulares, pois o ensino superior ainda é um ambiente historicamente cisheteronormativo, masculino e branco. Mesmo que mulheres e pessoas negras sejam maioria em alguns cursos, continuam sendo minoria social. O racismo, o machismo e o preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ e outras formas de discriminação. minam a diversidade e restringem o potencial dos e das estudantes, perpetuando um clima de exclusão e apagamento para membros dessas comunidades, prejudicando a livre expressão de identidade, afetando negativamente o bem-estar emocional e destruindo sonhos de ter um diploma no ensino superior. 

O assédio sexual pode ser expresso através de palavras, gestos, contatos físicos, avanços sexuais não solicitados e outras formas de conduta que intimidam a vítima. Já o assédio moral pode se expressar através de ameaças, ridicularização, difamação, críticas constantes e outros tipos de tratamento desrespeitosos. Está ligado a um padrão de comportamento repetitivo, persistente, abusivo e humilhante que prejudica psicologicamente a vítima. No documentário, as vítimas desses assédios contam as consequências em suas vidas, que vão desde desenvolvimento de transtornos mentais a atraso para se formar ou até abandono do curso. Principalmente por ser, geralmente, numa relação de hierarquia como professor e aluna ou orientador e orientando, o desempenho acadêmico é afetado pois a vítima é obrigada a manter contato com seu abusador ao longo do curso Isso porque, mesmo com a denúncia, os professores continuam ofertando disciplinas normalmente e os alunos continuam matriculados. O assédio também pode ser horizontal, vindo de pessoas da mesma posição, como um relato apresentado no qual uma professora da universidade foi violentada psicologicamente por seus companheiros de trabalho.

No último episódio da série documental, o tema discorrido é estupro. Mulheres que já foram vítimas dessa violência contam sobre os traumas e a dificuldade de denunciar. Assédio sexual e estupro são comuns nas universidades, principalmente em festas acadêmicas onde o abusador aproveita da embriaguez das vítimas ou coloca substâncias entorpecentes na bebida para deixá-las inconscientes. Isso se dá pela construção da masculinidade pautada na violência, fazendo com que os homens tenham orgulho de ter relações sexuais com mulheres, mesmo sem consentimento, dificultando combate à cultura do estupro. Além disso, a culpabilização da vítima nessas situações, por ter bebido, saído ou conversado com o abusador, também dificulta a denúncia e a lidar com o acontecimento, causando depressão, limitando a pessoa a usufruir de sua própria sexualidade e às vezes levando ao suicídio, pois os danos do abuso sexual não são limitados apenas à violência. 

Denunciar violências sofridas é um ato de coragem e resistência. No ambiente acadêmico é frequentemente uma tarefa árdua e complexa, em grande parte devido à priorização do nome da universidade. Muitas vítimas hesitam em relatar casos de assédio, discriminação ou abuso, temendo a minimização de suas experiências, retaliação e silenciamento. A pressão para manter a reputação da instituição pode criar um ambiente onde questões sensíveis são varridas para debaixo do tapete, mantendo um ciclo de impunidade e corporativismo que protegem os abusadores. 

Serviço

Título da série: Rompendo o silêncio 

Onde assistir: HBO Max 

Gatilhos: Violências sexuais, racismo, homofobia, assédio moral e psicológico.

Classificação indicativa: 16 anos (A16)

Minha classificação: 16 anos (A16)

Contém relatos de violência de gênero, racismo, LGBTQIA+fobia e consumo de drogas. 

Gênero: Drama.

Texto por Ana Luiza Rodrigues .

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