O título me chamou atenção, mas não me dei conta do quão literal – e dilaceradora – seria essa história. A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil, da jornalista Adriana Negreiros, narra uma experiência pessoal e testemunhal da violência de gênero e estupro no Brasil. Há um ato de muita coragem e força em realizar essa obra, em que a autora se mostra ao mesmo tempo vulnerável e combativa sobre tudo que aconteceu com ela naquele dia 24 de maio de 2003 e que acontece na vida de muitas outras todos os dias.
Ela nos conduz por todo o livro fazendo uma espécie de panorama em primeira pessoa do seu caso e de tantos outros casos que acontecem, que, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são, em média 205 estupros por dia, com a maioria das vítimas, mulheres. Sua escrita nos faz ficar com a atenção totalmente presa para os próximos acontecimentos com a tensão do que vai acontecer, tanto nos capítulos da própria Adriana, quanto nos relatos que estão narrados na obra.
São muitas histórias que, assim como a dela, nos afligem e nos arrasam intensamente, e, além disso, nos fazem perceber o quanto o estupro faz parte da cultura brasileira. Ele está nas ruas e nos becos escuros, mas, principalmente, dentro de casa, no dia a dia de muitas mulheres e meninas que são obrigadas a conviver com essa violação – ou nem mesmo têm a chance de se defender. O estupro é quase que intrínseco à normalidade brasileira, porém, ele está nas notícias como “acontecimento episódico”, o que faz com que não enxerguemos o sangue que jorra diariamente: o estupro se repete o tempo todo.
No livro, que é uma grande reportagem, a jornalista traz aspectos jurídicos do Código Civil e da Constituição Federal, por exemplo, de como as mulheres sempre foram colocadas como objetos e posses de outro alguém – um homem, é claro – e como o sistema nos classifica como seres inferiores por toda a nossa vida. O que se expõe desse tipo de exemplo é que o machismo de todo dia é o “feijão com arroz” das mulheres, é o cotidiano em seu formato mais terrível e preocupante.
Ser constantemente colocada dessa forma ofensiva e inferior nos faz normalizar os salários menores, os cargos piores, as importunações sexuais que sofremos nas ruas, os assédios em ambientes de trabalho e acadêmicos, e, claro, os estupros cometidos. Isso nos liga diretamente com a forma como essas violências são tratadas: sempre com dúvidas em relação à versão das vítimas; menosprezo da situação por ser considerada “mimimi” e tantos outros absurdos que escutamos. A jornalista, no entanto, procura desfazer, por meio do uso de teorias feministas, esse tipo de afirmação misógina.
Por se tratar de uma escrita jornalística, a narração feita no livro nos mantém ao mesmo tempo próxima de quem o escreve e repleta de evidências e respaldo do que é dito, e isso foi uma estratégia revelada pela autora na entrevista feita pelo Ariadnes, em que ela afirma ter alterado algumas vezes até chegar na narração em primeira pessoa – que é difícil e dolorida, no entanto, peça fundamental para montagem da obra – e que a valorização do relato testemunhal é importante produtor de conhecimento.
Seu registro de experiência é como um fio condutor, ao se refletir nas entrevistas durante todo o livro, que, mais uma vez, foge do senso comum de culpabilização feminina e reproduz uma visão sensível. As histórias são individuais, claro, mas juntas formam um coletivo da epidemia de violência que o Brasil enfrenta há anos e, no livro, podemos observar as consequências de se viver dessa maneira.
O encontro de Adriana com o feminismo, por exemplo, a faz enxergar e contar os casos de outra perspectiva, que pensa como o sistema contribui para a continuidade das violências e não para uma resolução dela. Falar, em primeira pessoa, sobre como um episódio traumático mudou completamente sua vida, é um fator essencial para a construção dessa empatia e ética feminista da narrativa.
Durante a leitura, me lembrei de uma roda de conversa sobre estupro no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colégio em que estudei no Ensino Médio, e isso me despertou para a importância do acesso à informação sobre a violência de gênero e como ela nos afeta desde muito pequenas. Me lembro de, aos 15 anos, aprender a valorizar o “Não” e de como devemos parar com a culpabilização com nós mesmas e enxergar uma questão sistêmica.
A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil é uma obra sobre traumas, sobre o medo paralisante e, principalmente, sobre a coragem e bravura das mulheres que contaram suas histórias. Ele nos faz refletir sobre a dura realidade de seguir em frente após tamanha violação e sobre a quantidade de mulheres que passam por isso todos os dias. Além disso, me desperta, como futura jornalista, para uma cobertura que valorize os relatos testemunhais e uma cobertura sensível e justa com as vítimas.
Serviço:
Título do Livro: A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil
Autora: Adriana Negreiros
Editora: Objetiva
Ano de Lançamento: 2021
Minha classificação: O livro aborda temas muito densos e pesados, como violência e estupro. Não é indicado para ser lido com/por crianças.
Texto por Lia Junqueira.
