“Depois da cabana”: a série que retrata a realidade monstruosa a que inúmeras mulheres são submetidas

Na foto, há os personagens Hannah e Jonathan de frente para a câmera. Eles abraçam a personagem Jasmim, que é vista de costas pela câmera.
Créditos da imagem: cena do filme

De produção alemã e contendo seis episódios, Depois da Cabana é uma minissérie da Netflix que conta a história, por meio do drama e do suspense, de mulheres que eram sequestradas e mantidas em cárcere por anos, sendo abusadas e violentadas. O elenco é composto por Kim Riedle, Jeanne Goursaud, Naila Schubert, Haley Louise, Sammy Schrei e Christian Beermann.

O enredo gira em torno de solucionar o sequestro de Lena Beck (Jeanne Goursaud), desaparecida há 13 anos. A vítima é branca, loira, heterossexual e magra. A investigação do caso é retomada quando uma mulher, com essas mesmas características, foge de casa com sua filha e é atropelada. No hospital, os médicos perceberam que os dados da vítima correspondiam aos dados de um sequestro antigo, o de Lena.

Os supostos pais da vítima foram comunicados e convocados a comparecer no hospital, mas logo identificaram que aquela mulher, apesar de ter cicatriz, cabelo e nome idêntico, não era a filha deles, mas sim, uma outra vítima: Jasmim (Kim Riedle). Eles, então, notaram um fato curioso em relação à Hannah (Naila Schuberth), filha de Jasmim: ela era estranhamente igual à Lena quando tinha aquela idade. Após essas descobertas, vários exames de DNA foram coletados para compreender melhor a situação, o que trouxe à tona que Hannah era, de fato, filha da verdadeira Lena Beck, que ainda não tinha sido encontrada. 

Com o avanço da investigação, mais informações são descobertas: o sequestrador fazia as mulheres sequestradas e as crianças viverem sob um sistema de horários rigorosamente estipulado. Isto é, tinham que comer, ir ao banheiro e dormir exatamente no horário ordenado pelo abusador, o que causou muitos traumas a todas essas vítimas, que encontraram dificuldades para agir fora desse controle. 

Além disso, foi desvendado que Lena Beck morreu no parto de seu terceiro filho, também fruto de abuso sexual, como os outros filhos da vítima, Hannah e Jonathan, e foi enterrada no quintal da casa. O sequestrador e assassino Lars Rogner ficou desesperado com sua morte, já que precisava de alguém para cuidar das crianças e, sob essa justificativa, raptou outras mulheres e tentou alterar suas características físicas para que ficassem o mais parecidas possível com Lena.

Nos episódios finais da série, é revelado que Lars Rogner (Christian Beermann) foi abandonado por sua mãe quando era pequeno e, por isso, em seus crimes, ficou em busca de mulheres que eram parecidas fisicamente com ela, para tentar construir a família que nunca teve na infância. 

O enredo desta série é muito comum em produções audiovisuais. Quando assisti, logo me recordei de O Quarto de Jack, que tem basicamente o mesmo cenário, mas, ainda assim, sentia que tinha uma familiaridade além dessa com esse enredo. Fiquei me perguntando de onde eu conhecia tais histórias, daí resolvi pesquisar e – não surpreendentemente – encontrei inúmeros casos parecidos com os retratados, mas, infelizmente, os que encontrei eram reais e nada ficcionais. 

Elizabeth Fritzl, por exemplo, tinha 17 anos quando foi encarcerada no porão de sua casa por seu próprio pai, conhecido mundialmente como “Monstro de Amstetten”. Ela só foi liberada aos 42 anos, em 2008, quando uma de suas filhas teve complicações no pulmão e precisou ir ao hospital. A vítima teve seis filhos provenientes dos abusos sexuais do próprio pai, e precisou criar três deles escondidos da luz do sol na parte subterrânea e restrita de sua casa. Josef  foi preso e condenado à prisão perpétua. 

Outro caso é o que inspirou o longa Sequestro em Cleveland, lançado em 2015. A narrativa conta a história dos três sequestros cometidos por Ariel Castro, nos quais Michelle Knight, de 21 anos, Amanda Berry, de 16, e Gina de Jesus, de 14, foram raptadas. As jovens ficaram presas em cativeiro entre 9 e 11 anos e eram submetidas a espancamentos, estupros e abortos forçados pelo criminoso. 

Essas mulheres viveram todos esses anos acorrentadas, sem mal ver a luz do sol e sendo obrigadas a assistir na televisão as buscas de suas respectivas famílias, como uma forma de tortura. Em 2013, Ariel saiu e esqueceu uma das portas destrancadas; foi quando as vítimas conseguiram sair e implorar por ajuda. Durante seu testemunho, o criminoso se descreveu como alguém “de sangue-frio, viciado em sexo e sem controle sobre seus impulsos sexuais”. Ele foi condenado à prisão perpétua por 329 crimes, mas pouco tempo depois do julgamento, cometeu suicídio. 

Em condições semelhantes estava uma mulher romena de 29 anos. Trancada em um porão sem água, luz elétrica ou sistema de esgoto, a vítima estava, junto com sua filha de três anos, em uma situação insalubre. Ela chegou à Itália em 2007, com 19 anos, em busca de trabalho e de uma vida melhor, quando, meses depois, foi contratada por Aloisio Francesco Rosario Giordano para cuidar de sua mãe doente. 

Chegando no local, Giordano prendeu a vítima em cárcere e, por 10 anos, a espancou, abusou e cometeu outros atos monstruosos, como cortar sua genitália e depois costurar com linha de pesca. A polícia a encontrou em uma situação deplorável: no meio de ratos, restos de comida e excrementos fecais. Além disso, a romena contou que o criminoso obrigava seus próprios filhos – fruto dos abusos sexuais – a insultarem e cuspirem nela. Depois de tudo, a vítima estava tão traumatizada que não sabia reconhecer se estava ali contra sua vontade ou não e, por isso, foram necessários muitos tratamentos psicológicos para ela assimilar a situação de extrema violência. 

Esses são alguns dos inúmeros casos de sequestro e violência sexual divulgados pela mídia, e demonstram como a cultura machista e patriarcal faz os homens acharem que são proprietários dos corpos das mulheres, de suas experiências, de seus prazeres e de suas vidas no geral. Mulheres que perderam anos trancadas e sob um sistema de controle, como se fossem objetos de posse e que, além disso, têm que carregar o imenso trauma de tantas violências e descobrir como retornar à vida “livre”, se é que é possível.

Por Maria Clara Soares

Serviço

Título original: Liebes Kind

Onde assistir: Netflix

Classificação indicativa: 16 anos (A16)

Classificação da autora: 16 anos (A16)

Justificativa: cenas de extrema violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores. 

Gênero: Drama e suspense

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