
Anjos do Sol é um filme brasileiro, lançado em 2006 no cinema e dirigido por Rudi Lagemann. Com 90 minutos de duração, o longa trata sobre a questão do tráfico e exploração sexual de meninas e adolescentes por meio da personagem Maria (Fernanda Carvalho), que aos 11 anos, morava no interior do Maranhão quando foi vendida por sua família a um recrutador de prostitutas.
A família, de baixa condição financeira, não sabia desse recrutamento, achava que Maria iria para uma família que lhe daria melhores condições de vida. A menina, então, foi novamente vendida em um leilão de adolescentes que nunca tinham tido relação sexual e enviada a um prostíbulo localizado na Floresta Amazônica. Lá, conheceu Inês (Bianca Comparato), que era um pouco mais velha, mas também vítima da exploração sexual infantil.
As personagens viraram boas amigas, faziam o possível para proteger uma a outra no prostíbulo e, cansadas de serem tão abusadas e estupradas por inúmeros homens toda noite, resolveram fugir. Andaram por uma noite inteira, sujas, machucadas e famintas e, quando finalmente pararam para descansar, foram raptadas novamente pelo cafetão Saraiva (Antonio Calloni), que prometeu castigá-las e usá-las como “exemplo”, para que as outras meninas não cogitassem fugir.
O cafetão amarra as mãos de Inês em uma corda, que está presa no fundo do carro, e a arrasta pelo chão até a morte, enquanto todas as outras meninas, inclusive Maria, são obrigadas a assistir a essa cena de horror. Para mim, essa é a cena mais pesada do filme, uma vez que, além da brutalidade com que o feminicídio é praticado, ainda é muito cruel imaginar a maneira como Maria se sentiu ao ver a amiga sendo morta.
Depois disso, Maria continuou sendo vítima de inúmeros abusos por mais alguns meses, mas decidiu tentar fugir novamente e pediu ajuda de sua amiga Celeste (Mary Sheyla), que também era explorada sexualmente e estava grávida. Celeste deu à Maria o contato de uma mulher que morava no Rio de Janeiro e supostamente lhe ajudaria, mas na realidade, o número era de Vera (Darlene Glória), dona de outro prostíbulo.
Dessa vez a fuga foi bem sucedida, mas, após cruzar o Brasil, chegar ao Rio de Janeiro por meio de caronas clandestinas e descobrir que estava sujeita à mesma situação, Maria foge pela última vez e o filme termina com a jovem pedindo carona na pista e sendo coagida a vender seu corpo em troca. Com esse final, a mensagem passada é que, diante do contexto de total vulnerabilidade social que a personagem viveu ao longo de sua vida e de todas as violências a que foi submetida sem ter ninguém que a acolhesse, ela não tinha outra alternativa.
Infelizmente, o contexto da produção não se limita à ficção: o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de exploração sexual de crianças e adolescentes. De acordo com dados do Instituto Liberta – organização social que trabalha pelo fim da violência sexual infantil – os números estão em torno de 500 mil vítimas por ano e 320 por dia. No entanto, levando em conta que apenas 7 em cada 100 casos são denunciados, esse número pode ser bem maior. Ainda, o estudo feito pelo instituto esclarece que 75% dessas vítimas são meninas, e em sua maioria, negras.
Esse perfil das vítimas é muito esclarecedor, uma vez que, devido ao sistema patriarcal e misógino, os corpos femininos são sexualizados e objetificados desde a infância, além de serem vistos como propriedades dos homens. Além disso, a estrutura racista explica muito por que meninas negras são as principais vítimas desse tipo de violência, visto que, além de serem inferiorizadas devido ao gênero, sofrem também com o preconceito racial.
O diretor Rudi Lagemann contou em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), que estudou nove anos sobre o tema e, por isso, queria usar a mídia para dar visibilidade à questão da exploração sexual infantil e fomentar debates que pudessem instigar uma mudança estrutural, visto que, segundo ele, a sociedade brasileira sabe da existência desse problema, mas não conhece sua singularidade.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Anjos do sol
Onde assistir: Youtube
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: cenas de extrema violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores.
Gênero: Drama
