
O título causa impacto e curiosidade, afinal, quem é a pior pessoa do mundo? Nesse caso, seria Julie, personagem interpretada por Renate Reinsve, que está na casa dos 30 anos e enfrenta diversos processos da vida, como relacionamentos, estudos, carreira acadêmica e trabalho.
O filme norueguês, lançado em 2021 com a direção de Joachim Trier, conta com o aspecto das mudanças fortes e constantes da personagem principal, Julie, e as pessoas ao seu redor como principal fio narrativo da história. Ao observarmos as alternâncias não só de estilo de vida, mas de uma certa personalidade, vemos a angústia que se desenrola por não saber, ao final das contas, aonde ela deseja chegar.
No entanto, isso não quer dizer que ela é uma mulher frustrada, necessariamente, e sim que está passando por um conflito consigo mesma, quando estamos indecisas e inseguras do que temos ou para onde vamos – faço aqui a ressalva de que o filme trata de uma mulher branca, cisgênero, europeia e inserida na heteronormatividade, o que leva a personagem para um local de extremo privilégio.
O que a narrativa nos faz enxergar é que, levando-nos até a história ancestral de Julie, vemos que as mulheres de sua família não puderam escolher, nem ao menos foram instigadas a isso. Elas, ainda que com um possível desejo de mudança, seguiram à risca as normas que regiam suas épocas, com filhos e casamentos “felizes”.
A pior pessoa do mundo traz esse desconcerto entre a tamanha liberdade de escolha e o pleno gozo dos direitos de ser quem somos, após anos de conquista de algumas coisas básicas como voto, educação, trabalho, entre outros. E, em oposição a isso, o panorama que Julie tem sobre as mulheres à sua volta, que tiveram suas escolhas podadas por um determinado sistema que dita – ou ditava – o que elas podiam ou não fazer.
A crise existencial que permeia nossas vidas e juventudes se dá como uma das principais oponentes da suposta certeza que nossas mães, por exemplo, tinham no casamento. Certeza que não prometia garantir felicidade, mas status e estabilidade. No entanto, quando bell hooks fala em sua obra O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras sobre a importância da tomada de controle da própria narrativa das mulheres e da necessidade da compreensão geral disso, acredito que se relacione com o que Julie enfrenta.
Ela está perdida no meio de tantas opções, e nem de longe está errada por isso, até porque não devemos ser condenadas por nossas decisões. Mas, neste momento, suas expectativas a alimentam de uma maneira controversa, que dizem sobre suas paixões, seus cargos profissionais e seu sucesso.
A pior pessoa do mundo é sobre o mundo real de frustrações e de um longo caminho trilhado com direitos para que nós, mulheres, possamos ter a escolha e possibilidade de diversas frustrações, e não somente de amores passivos e, supostamente, tranquilos. Assim como no drama, a realidade nos ensina que a vida é penosa e complicada, mas que a mudança pessoal é algo que podemos promover de acordo com nossas vontades.
As lágrimas que derramei ao longo do longa metragem norueguês refletem a angústia de sermos tão pequenas e tão libertas num mundo cruel e exaustivo. Nem por isso sou a pior pessoa do mundo, nem mesmo a melhor, óbvio. Mas a capacidade de comparação junto com a liberdade de escolha me faz “fritar” nessa ideia de ser pior em tudo, de ser menos e de ser insuficiente, porém, isso não é reflexo da incapacidade de mulheres em lidar com tudo isso, e sim de um modelo capitalista e patriarcal que nos massacra a cada decisão tomada.
Por isso, de acordo com bell hooks, não existe uma luta que não esteja entrelaçada à outra, nenhuma luta está só, pois, são levados em conta diversos fatores, como o gênero, sexualidade, raça e classe, por exemplo. A interseccionalidade precisa ser considerada em todas elas e levar em conta a justiça social em seus eixos. Para que não só a minha luta pessoal evolua, mas também para buscar a compreensão de outros grupos, contendo crítica e avanço dessas pautas.
Serviço:
Título original: A Pior Pessoa do Mundo (The Worst Person in The World)
Onde assistir: Amazon Prime Video
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Gênero: Romance/Drama
Por Lia Junqueira.
