Um olhar gendrado sobre a série “The Fall”

Na imagem, os dois personagens principais, Stella Gibson, em primeiro plano e, em segundo, Paul Spector.

The Fall é uma série policial anglo-irlandesa lançada em 2015 e dirigida por Jakob Verbruggen. Com 3 temporadas e 17 episódios, o seriado trata sobre Paul Spector (Jamie Dornan), um serial killer e stalker, que persegue e assassina mulheres de um mesmo padrão: jovens, pele clara, cabelos morenos e que tenham uma posição de prestígio social. 

A tortura começa com a primeira etapa do plano de Paul: a invasão. Ele invade a casa da vítima e rouba uma peça íntima para colecionar como lembrança da “conquista pessoal” que virá a seguir, o assassinato. Ao perceber que um item está faltando, as mulheres ficam apreensivas e em estado de alerta, o que deixa tudo ainda mais divertido e fascinante para o assassino.

Depois, vem a segunda invasão, mas essa, com o intuito de agredir e depois assassinar. As violências de Spector não se encerram no feminicídio; na verdade, este é o momento em que o psicopata começa a ter suas vítimas da forma como as quer: inconscientes, vulneráveis e completamente ao seu dispor. Ele as penteia, corta seus cabelos, pinta as unhas e as trata como se fossem verdadeiras bonecas. Por último, tira e coleciona fotos extremamente romantizadas dos corpos sem vida e moldados esteticamente para sentir prazer. 

Ao contrário do perfil do psicopata construído no imaginário social de ser agressivo, violento e infrator de leis, Paul se escondia atrás da fachada de um homem de bem: responsável, pai de dois filhos, marido e psicólogo, o que deixou o caso mais complexo para as autoridades. Então, para solucionar os crimes ocorridos em Belfast, a investigadora responsável pelos casos, Stella Gibson (Gillian Anderson), também protagonista, trabalha a fundo para descobrir a identidade do assassino em série.

Há várias situações de embate entre os personagens Spector e Stella, como se o enredo fosse construído para ter confrontos entre dualidades: homem e mulher, bem e mal, crime e justiça. Quando questionado pela detetive sobre a motivação para cometer crimes tão violentos contra mulheres, Paul justifica que “sente-se renovado, como se corpo acendesse uma luz e ele tivesse posse completa sobre um corpo”, e caracteriza os feminicídios como “fantasias sexuais”.

Esse tipo de associação entre violência e suposta realização sexual é comum, infelizmente, não só na ficção como na realidade também. É como se, para os homens e a sociedade patriarcal, “vale tudo”, inclusive e principalmente a violência de gênero, como agressão, assédio, estupro e até o feminicídio, em prol do prazer sexual masculino. É o resultado de uma sociedade misógina que intitula os homens como donos e proprietários dos corpos femininos.

Em The Fall, embora a detetive seja bastante sexualizada, objetificada e constantemente vítima de assédio por seus colegas de profissão, é construída como uma personagem forte e bem resolvida em relação à sua imagem e seu desejo sexual. Ainda, sempre se impõe contra a violência de gênero que sofre, e sua inteligência e alta capacidade de lidar com os crimes que investiga são pontos de destaque na série.

Uma outra característica que diverge da norma social é que, de acordo com o artigo “Stella Gibson: Luminescência na escuridão invisível”, de Karina Gomes Barbosa e Rafael Pereira Francisco, na série, existe o mesmo modelo de domínio-submissão que na realidade, mas em The Fall, é a protagonista feminina quem ocupa o lugar de dominação, fugindo, assim, do estereótipo feminino de fragilidade física e emocional. Ainda, os autores complementam:

“A partir da afirmação de sua própria feminilidade, Stella articula desejo, poder e posição de sujeito no enredo, e erotiza, quando deseja, o masculino com seu olhar e suas ações”. 

Mas, em contrapartida, como em diversos filmes e séries que têm mulheres empoderadas como protagonistas, a personagem Stella é punida por seu “atrevimento” e agredida com ódio e brutalidade pelo feminicida, após confrontá-lo sobre uma falsa perda de memória. Esse tipo de narrativa colabora para construir no imaginário social que mulheres fortes, empoderadas e defensoras de seus direitos serão penalizadas pela sociedade. Implicitamente, transmite a mensagem de: fiquem submissas, quietas e vulneráveis. 

Por Maria Clara Soares

Serviço

Título original: The Fall

Onde assistir: Plataforma Vizer

Classificação indicativa: 14 anos (A14)

Classificação da autora: 16 anos (A16)

Justificativa: Cenas de extrema violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores. 

Gênero: Policial

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