“Passivonas”: a leveza de uma comédia LGBTQIA+

Imagem de divulgação do filme

As comédias românticas que marcaram gerações inteiras com suas relações heteronormativas e brancas nos fizeram acreditar que essa era a única alternativa de amor possível no cinema. No entanto, com o avanço de pautas sociais, representatividade e presença LGBTQIA+, preta, trans e mesmo feminina, não somente no cotidiano, como também no mundo das artes,  podemos destacar outras produções imagináveis no audiovisual de hoje em dia. 

“Passivonas”, na tradução livre de Bottoms, ou Clube de Luta para Meninas, como foi batizado no Brasil, é um filme de 2023 dirigido pela canadense Emma Seligman. A cineasta dirigiu outro sucesso com uma das protagonistas, Rachel Sennott, que foi Shiva Baby, e propõe abordagens interessantes sobre as relações amorosas e interpessoais da atualidade. 

O filme traz características muito próprias da geração Z, com conflitos amorosos e a narrativa dos anos 2000 da conquista e do amadurecimento, também conhecido como coming of age – que é uma narrativa de formação e de acompanhamento desse processo –, porém, com uma pegada diferente. Quem comanda e arquiteta um “plano infalível” para fazer os grupos das “gostosonas” e mais populares da escola se apaixonarem são duas meninas, Josie, interpretada por Ayo Edebiri, e PJ, interpretada por Rachel Sennott. Elas montam um clube de luta para que as garotas possam aprender técnicas de defesa pessoal. Só um detalhe impede isso: elas não sabem nada sobre luta. 

A narrativa se dá nesse processo de trapalhadas na tentativa de conseguir a atenção dessas meninas, porém, o que é mais interessante é que o filme não precisa, necessariamente, passar uma lição de moral profunda e densa, é a comédia pela própria comédia. Inclusive, o universo mostrado ali é, por si só, caótico, o qual nos lembra muito aqueles filmes do início dos anos 2000 de romance adolescente/jovem, como Meninas Malvadas ou As Patricinhas de Beverly Hills, nos conduzindo nesse mundinho sem precisar de conexões extensas e trabalhosas. 

Passivonas tem como característica um tom bobo, leve e brincalhão, mas não sem discutir coisas importantes, até porque, somente pelo fato de duas meninas lésbicas serem a dupla protagonista, isso já denota uma diferença em relação aos dramas colegiais a que estamos acostumadas. Estão presentes as questões de gênero, com a masculinidade frágil dos meninos do time de futebol e os relacionamentos tóxicos que eles têm com algumas das meninas da escola. 

Além disso, a sexualidade é colocada de uma forma respeitosa e condizente com a realidade adolescente do filme, sem apelações indevidas ou estigmatização extensiva. Acredito que um dos fatores principais dessa obra é a sutileza de cada piada e tirada, pois muitas das questões “problemáticas” – como misoginia e LGBTfobia – são tratadas como sátiras, deixando a leveza prevalecer. 

Ainda que não existam problematizações profundas em volta de boa parte dos temas abordados, Bottoms ocupa um lugar especial para as pessoas LGBTQIA+, que também merecem assistir situações cômicas e “bobas” acontecendo nas telas com personagens da comunidade. A representatividade ocupada por PJ e Josie, as “lésbicas fracassadas”, que não pegam ninguém, já foi apresentada de forma heteronormativa milhares de vezes, por isso é importante outros corpos, gêneros e sexualidades viverem esses papéis. 

Não somente viverem esses papéis, mas performar certas realidades do mundo contemporâneo, contendo algumas subjetividades, em que uma pessoa tomará decisões ruins ou julgáveis – assim como PJ, que acaba vivendo um conflito com sua melhor amiga. A questão central não é afastar o público jovem e LGBTQIA+ de confrontos ou “limpar” suas imagens, mas sim representá-los de forma respeitosa e sem tantos estereótipos, por exemplo, a promiscuidade ou hipersexualização comumente destacados. 

O que Emma Seligman nos propõe é enxergar essas pessoas, essas meninas, com todas as suas complexidades, acertos e erros – o que é mais do que comum, afinal, são jovens –, e conseguir dar risada de si mesmo, das situações mais pitorescas e doidas que somos capazes de fazer pela crush, ou pessoa que estamos afim. É preciso mais espaço para produções “farofa” para esse público, que espera, assim como as pessoas hétero, as representações mais tranquilas e “paspalhonas” sobre seus amores e desilusões amorosas. 

Passivonas nos dá a possibilidade de uma risada sincera e gostosa, com uma consciência que nos ronda a todo momento, seja sobre a brotheragem dos meninos – situação em que meninos ajudam outros meninos a todo custo –, ou sobre o entendimento enquanto mulher lésbica/bissexual da liberdade que deveríamos ter. 

Serviço:  

Título original: Bottoms 

Onde assistir: Amazon Prime Video 

Classificação indicativa: 16 anos (A16)

Classificação da autora: 14 anos (A14)

Justificativa: O filme é voltado justamente para essa idade, de um entendimento um pouco mais avançado sobre sua sexualidade e evolução. 

Gênero: Comédia e Coming of age (Amadurecimento)

Por Lia Junqueira.

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