
Com vídeos curtos, com cerca de 1 minuto e meio de duração, a atriz e estudante de psicologia Anaterra Oliveira (@anaterra.oli) acumula mais de 5 milhões de curtidas no TikTok. Em seus vídeos, Anaterra aborda diversos assuntos, como cuidar dos filhos, trabalho, medos, relacionamentos, entre outros. E o que aparentemente é uma pergunta comum gera questionamentos profundos sobre racismo, desigualdade social e gênero, em sua maioria. Nas calçadas, com um microfone em mãos, ela faz perguntas a homens e mulheres de diversas idades. O que chama a atenção, e pode explicar o sucesso de visualizações e compartilhamentos dos vídeos, é o abismo entre as respostas e como o machismo, a misoginia, a objetificação e o sexismo estão enraizados em nossa sociedade e são percebidos nos assuntos mais comuns.
Tem dois vídeos que me marcaram, os que se iniciam com as perguntas “Qual foi a pior coisa que uma mulher já te fez?” e “Qual a pior coisa que uma mulher pode fazer?”. As respostas dos homens são quase unanimidade: “trair” ou “traição”. Quando as mulheres recebem a mesma pergunta em relação aos homens, as respostas são um soco no estômago: “Me deixou deficiente visual”, “abuso sexual”, “agressão”, “estupro”, “não saber ser pai”, “controlar a vida da mulher”. Os vídeos são expositivos, a entrevistadora só faz as perguntas. O choque das respostas é o que gera a reflexão nos comentários e, às vezes, a discussão se estende para outras redes sociais.
Em assuntos relacionados à maternidade e paternidade fica clara a desigualdade. Perguntados sobre quantas horas do dia dedicam a seus filhos, os pais respondem uma, duas, às vezes quatro. Já as mulheres dedicam 24 horas, ou 10 horas as que trabalham fora. E quando chegam do trabalho, o que eles fazem? Assistem à TV, descansam, relaxam no sofá, vão dormir. E elas? Lavam roupa, passam roupa, fazem comida, serviços domésticos. Perguntadas se conseguem parar e relaxar, a resposta é não. Essa dupla jornada e sobrecarga de trabalhos afeta as mulheres de forma física e mental. Segundo pesquisa do Think Olga em 2023, a cada 10 mulheres brasileiras, 6 sofrem de ansiedade. Além do dito amadurecimento precoce, é cobrado das meninas mais responsabilidade de cuidado, comparado aos meninos. O peso de sempre estar cuidando e não ter tempo para cuidar de si ou alguém para ser cuidada também pode influenciar no adoecimento mental.
O machismo* que adoece as mulheres não é um problema exclusivo delas, pois não são as únicas afetadas. Sim, o machismo que mata mulheres diariamente é o mesmo que causa a morte de vários homens. No documentário Precisamos falar com os homens?, idealizado pela ONU Mulheres Brasil, em parceria com o Grupo Boticário e o site Papo de Homem, é discutido como o machismo age na vida das pessoas e a necessidade de conversas com os meninos e os homens sobre isso, pois são eles que morrem por descaso com a saúde, relação perigosa com bebidas alcoólicas e modo agressivo de dirigir. Na vida dos homens é por meio da proibição de demonstrar sentimentos e fragilidade; em contrapartida não podem negar sexo e muito menos brochar. Manifestar afeto por outro homem? Jamais! Na vida das mulheres o machismo se manifesta por meio da imposição de um padrão estético e modo de agir, performando feminilidade, fragilidade e delicadeza, a sexualização de seus corpos, desvalidação de suas falas, o feminicídio e uma infinidade de outras coisas. Porém, há diferentes formas de performar masculinidades e feminilidades. Temos que abandonar o hábito de rotular as pessoas de forma rasa, reduzindo-as a estereótipos e excluindo as subjetividades. Isso gera preconceitos, como a LGBTQIA+fobia, já que a identidade dessas pessoas vai além das limitações desses rótulos.
Pensando na nossa sociedade, é fácil associar que a imposição de papéis de gênero vem desde a gravidez. Um exemplo é a febre dos chás revelação como um grande evento, no qual se criam expectativas em torno do sexo biólogico da criança. Imagina-se uma menina doce, que vai brincar de boneca e cozinhar com a mãe, e um menino esperto, que vai ganhar carrinhos, armas e vai jogar bola com o pai. Desse modo, quando crianças, os meninos não podem chorar, porque o choro não faz parte do “masculino” e eles não podem ter características que geralmente são atribuídas às mulheres, pois remetem à fraqueza. Com essa masculinidade tóxica, eles também reprimem seus sentimentos e podem passar a usar a violência para se expressar. Na adolescência eles são estimulados a ter mais liberdade com o corpo, comparado às meninas, e a se desenvolverem sexualmente. Por isso às vezes se sentem no direito de importuná-las e sexualizá-las. É necessário que esse cenário mude para que possamos criar meninos que se tornem adultos funcionais, que não sobrecarreguem as mulheres, que saibam expressar e demonstrar sentimentos, fazer sua própria comida e serviços domésticos e assumir o papel de pai presente na criação das crianças.
Mesmo afetando a vida dos homens, o machismo também os privilegia em detrimento das mulheres, como exposto nos vídeos de Anaterra. Um exemplo é o vídeo em que o questionamento é sobre um mundo apenas com mulheres. Para muitos homens é um paraíso sexual; para as mulheres, um mundo apenas com homens seria um verdadeiro pesadelo, assim como é andar sozinha com um homem na rua. Além da desigualdade salarial: a diferença do salário de um homem branco comparado ao de uma mulher negra é destoante.
As respostas dos homens nos vídeos de Anaterra são genuínas, pois é a maneira como eles enxergam o mundo e as mulheres. No documentário Precisamos falar com os homens?, uma pesquisa mostra que os homens não reconhecem violências além da física, pois se sentem habituados nesse contexto no qual reproduzem diversas violências invisíveis. Como se sentir confortável em expor materiais íntimos de outra pessoa na internet, que é violência e crime, controlar as ações e roupas de outra pessoa é um tipo de violência, não dividir as tarefas domésticas é um tipo de violência, dizer que mulher não pode dirigir, entre outras. Quando Anaterra questiona sobre “duas mulheres que você admira”, a resposta inicial é o silêncio, depois a maioria das respostas são “mãe” e “namorada” e algumas atrizes e cantoras famosas, “porque são bonitas”. Agora, para “dois homens que você admira” são muitas respostas. Outra face do machismo é a validação masculina: os homens costumam respeitar outros homens e suas opiniões. Isso explica quando, mesmo não concordando com alguma atitude machista de um amigo, o homem não chama atenção ou repreende. É uma situação difícil e o problema é sistêmico, mas prefiro acreditar que aos poucos, um dia, as coisas vão mudar, para melhor.
*Machismo é o comportamento que rejeita a igualdade de condições sociais e direitos entre homens e mulheres. É a superioridade dos homens sobre as mulheres.
Precisamos falar com os homens? (Documentário com descrição de audio e Libras)
Por Ana Rodrigues
