Salve Jorge: a novela que retrata a realidade do tráfico de mulheres no mundo

A imagem mostra as personagens traficadas sentadas no cativeiro onde são confinadas. Todas estão com a expressão facial séria e demonstram preocupação. Atrás delas, estão alguns dos homens criminosos que fazem parte do esquema de tráfico humano.
Créditos: cena da novela

Com 179 episódios, cada um com aproximadamente 50 minutos de duração, a novela Salve Jorge, escrita por Glória Perez e exibida pela rede Globo, conquistou o coração dos brasileiros nos anos de 2012 e 2013. Não à toa, seu sucesso foi tamanho que,  mais de 10 anos depois, a música “Alma de Guerreiro”, de Seu Jorge – composta especialmente para a novela – ainda é bastante associada a ela. 

Como de praxe nas produções de Glória Perez – em que problemas sociais são trazidos à tona – Salve Jorge aborda em diversas nuances o tráfico internacional de pessoas, principalmente o de mulheres e o de bebês. Para compor a narrativa, o elenco trazia nomes como Nanda Costa (Morena), Rodrigo Lombardi (Théo), Carolina Dieckmann (Jéssica), Giovanna Antonelli (Heloísa), Thammy Miranda (Jô), Alexandre Nero (Stenio) e Cláudia Raia (Lívia).

No início da trama, a protagonista Morena (Nanda Costa) é convidada a ir para a Turquia por seis meses para trabalhar em um café, onde supostamente receberia 1500 dólares e poderia proporcionar melhores condições financeiras à sua família, que estava prestes a ser despejada da moradia no Complexo do Alemão. Empolgada com a oportunidade, Morena viajou, por intermédio de Wanda (Totia Meirelles) e, chegando lá, percebeu que tudo se tratava de uma emboscada, e que ela havia sido vítima de tráfico humano para a prostituição. 

Ao longo dos episódios, Morena se aproxima de Jéssica (Carolina Dieckmann), que também foi traficada e, juntas, criam vários planos de fuga para escapar da boate em que eram encarceradas. Mas, em uma dessas tentativas de fuga, Jéssica descobre a identidade da chefe de todo o esquema, Lívia Marini (Cláudia Raia), que a mata injetando em seu corpo uma seringa de drogas e fazendo parecer uma overdose. 

Fora da ficção, Simone Borges, de 25 anos, foi assassinada de forma semelhante. Ela foi para a Espanha em busca de trabalhar e juntar dinheiro para sua cerimônia de casamento, mas, chegando lá, foi obrigada a se prostituir. Quando tentou escapar, foi envenenada e, com sua filha já morta, João José Felipe recebeu uma ligação que o avisava que caso ele não trouxesse o corpo de Simone de volta ao Brasil, ela seria enterrada como indigente. 

Em algumas cenas da novela, João José aparece e relata sua história e de sua família. Além dele, Ana Lúcia – uma das vítimas traficadas para Israel – também conta sua história, que, inclusive, originou a narrativa da novela. Ela conta que, junto de sua amiga Kelly Fernanda Martins foi a um pagode no Rio de Janeiro e, lá, foram aliciadas por Rosana, que prometia um salário de 1500 dólares para o emprego de garçonete, mais alguns bônus de passagens, procedimentos estéticos e roupas de grife. 

Chegando a Israel, especificamente em Tel Aviv, Ana Lúcia e Kelly perceberam que foram enganadas e teriam que se prostituir para “pagar a dívida” que lhes fora atribuída. A vítima conta que, para atingir o tal valor da dívida, teria que ter cerca de 30 relações sexuais por noite. Foi então que Kelly recuperou seu passaporte – antes confiscado – e decidiu ir até a embaixada pedir socorro, mas foi descoberta e assassinada por espancamento antes de concluir seu plano. 

O caso de Kelly chamou a atenção da polícia brasileira que, em contato com a de Israel, invadiu o lugar que estavam encarceradas e libertou nove mulheres, dentre elas, Ana Lúcia. Como elas, há milhares de mulheres que recebem propostas ilusórias e são traficadas em todo o mundo. De acordo com uma pesquisa feita pela Organização Mundial do Trabalho (OMT), o tráfico de pessoas é um dos crimes mais lucrativos, e movimenta cerca de 32 bilhões de dólares por ano. 

Ainda segundo a OMT, por volta de 80% das vítimas são mulheres e destinadas à exploração sexual. Esse número evidencia as consequências desastrosas que o patriarcado – sistema que inferioriza, objetifica e sexualiza as mulheres – tem em diversas sociedades e culturas. Como defende a segunda onda do feminismo, o patriarcado abrange além da esfera pessoal, a política: ele influencia em todos os âmbitos, desde o familiar ao mercado de trabalho, legislativo e institucional.

Isso fica claro ao notar o grande poder que essa estrutura tem ao reduzir a existência de mulheres ao produto do desejo masculino, seja no quesito doméstico, sexual ou fetichista. A pesquisadora e escritora feminista bell hooks explica que “em troca de todos os benefícios que os homens recebem do patriarcado, eles são obrigados a dominar as mulheres, explorar e oprimir-nos, usando a violência se for preciso para manter o patriarcado intacto”. Isto é, são tantos os benefícios que os homens recebem diante desse sistema de dominação-opressão às mulheres, que eles precisam mantê-lo sob qualquer circunstância, principalmente a da violência. 

Mas, mesmo diante de uma estrutura que as mata e as destrói, as mulheres ainda são as culpadas e responsabilizadas por tamanha violência. Um exemplo disso são esses comentários em uma reportagem do Fantástico sobre tráfico internacional de mulheres:

De acordo com o primeiro comentário, a culpa do tráfico de pessoas é dos sonhos das mulheres e, em contrapartida, para o segundo, o erro está na ambição. Nas entrelinhas, ambos os perfis culpam as vítimas por terem sonhos e lutarem por condições de vida melhores, mas, em nenhum momento, o sistema machista e/ou os homens são apontados como os criminosos responsáveis por destruir a vida de tantas mulheres. Eles nunca são.

Por Maria Clara Soares

Serviço

Título original: Salve Jorge

Onde assistir: Globoplay

Classificação indicativa: 14 anos (A14)

Classificação da autora: 14 anos (A14)

Justificativa: cenas de violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores. 

Gênero: Drama e romance

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