Porque “The Handmaid’s Tale” não é notícia de ontem tampouco de amanhã

Quando mencionamos o nome da série televisiva The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia em português), a primeira imagem que provavelmente vem à mente são as aias vestidas de túnica vermelha e chapéus brancos que censuram seus olhares e os nossos, telespectadoras, sobre seus rostos, corpos e identidades. Nas últimas semanas, essa vestimenta ganhou nova camada de sentido ao ser colocada sobre o Cristo Redentor pelo artista Cristiano Siqueira do perfil @crisvector.

Cena da série The Handmaid’s Tale, de 2017
Cristiano Siqueira (@crisvector), 2024

As roupas das aias também circularam nas redes sociais como o Instagram e o X, antigo Twitter, em diversas outras expressões imagéticas, desde charges a capas de manchetes online, para denunciar um projeto de lei que tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados. O PL 1904 pretende punir o aborto depois das 22 semanas de gestação em casos de estupro com o mesmo afinco que em casos de homicídio e com régua mais rígida que a punição destinada ao estuprador.

Tamanha absurdidade gerou manifestações diversas, nas redes e nas ruas, e uma de suas expressões foram os usos das imagens em referência a The Handmaid’s Tale. Talvez seria o mesmo que dizer: “esse PL é o mesmo que tornar a narrativa das aias algo real”. Ou ainda: “não podemos permitir que essa distopia se torne o nosso presente”. 

Fernando Motta, do perfil @DesenhosDoNando, ao comentar sobre a charge que publicou de uma criança grávida vestida de aia e um balão rosa nas mãos, disse para a Folha de São Paulo que os desenhos são para “tocar nesse lugar do absurdo dessa obra, que não é tão ficcional quanto parece. Tem gente que realmente quer isso aí. Essas pessoas estão no congresso”.

Fernando Motta (@desenhosdonando), 2024

Para quem nunca assistiu à série The Handmaid’s Tale faço um breve resumo. Composta por 5 temporadas e com a sexta (e última) ainda em produção, a série foi lançada em 2017 pelo canal de streaming Hulu e produzida por Bruce Muller. Na narrativa, acompanhamos a história da protagonista June que tem seu nome alterado para Offred após a tomada de poder por grupos radicais religiosos de extrema-direita na sociedade ficcional de Gilead. Nesta distopia, estão no centro os corpos de mulheres férteis que são violadas institucionalmente com legitimação do Estado, como solução para superar a crise da quase nula taxa de natalidade. São mulheres, as aias, que se tornam grávidas a partir de episódios frequentes de estupro.

Em nossa atual e perpétua crise sobre os abusos em relação ao corpo femino, por que usar as imagens de The Handmaid’s Tale e não de outras narrativas distópicas que também colocam a mulher como corpos violentados e vítimas de estados autoritários, ou ainda outros símbolos feministas já consolidados em lutas contínuas pelo direito à legalidade do aborto? Vamos pelo começo.

Foto: Juliana Blasina (@blasina_ju), 2024.

A série televisiva The Handmaid’s Tale é uma adaptação do livro de mesmo nome da escritora canadense Margaret Atwood. A obra foi publicada em 1985 e dialogava com as preocupações daquela época. Isso porque nas décadas de 1980 e 1990, o contexto político, econômico e social de países ocidentais capitalistas é tomado por uma onda conservadora, com ataques diretos ao Estado do bem-estar social, retrocesos às liberdades civis e fortes críticas ao direito ao aborto. Esse espírito de direita e tradicionalista é encarnado nas ascensões de Ronald Reagan nos Estados Unidos, de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha, de Brian Mulroney no Canadá e de Helmut Kohl na Alemanha. 

Nos cinemas da época, a virilidade machista é celebrada. Nesse contexto, as produções cinematográficas de Hollywood, como Rambo, estrelados por Sylvester Stallone, não só supervalorizam a figura do homem branco, macho, forte e hétero, que luta contra governos ditatoriais ou tiranos que comumente são representados como regimes comunistas, como também procuram reiterar uma supremacia do homem em relação à mulher.

Muitos anos se passaram desde o lançamento do romance distópico de Margaret Atwood até chegarmos a 2017, ano de lançamento da série televisiva e, vejam só: o pano de fundo político é embebido, novamente, pela ascensão de uma direita conservadora – essa muito mais radical – que assume uma corrente dominante de poder em muitos países. Assistimos a The Handmaid’s Tale ao mesmo tempo que vimos as eleições presidenciais conservadoras e radicais no Brasil, Estados Unidos, Hungria, Filipinas e Polônia. Mais recentemente, assistimos ao grupo Talibã retomar o poder no Afeganistão, assim como uma guerra na Palestina em que mulheres e crianças são os alvos principais. Todos cenários que dão um forte sotaque de realidade a esta ficção distópica.

Trump, Putin, Bolsonaro, Erdogan, Modi, entre outros, são nomes que ganharam proeminência no contexto político de lançamento e exibição da série por suas pautas conservadoras de cunho moralistas e patriarcais, entre as quais podemos destacar projetos para proibir o aborto em quase todas as circunstâncias, valorização da família

heteronormativa, retrocesso nos direitos civis da população LGBTQIAP+, perseguição a intelectuais considerados “inimigos” do regime, nacionalismo exacerbado, descredibilização da ciência, culto à cultura armamentista e incentivo à violência contra adversários — para citar apenas algumas.

Diante da ascensão da popularidade desses homens entre seu eleitorado e dos receios que provocaram àqueles contrários ao seu discurso, a série pareceu acentuar os perigos que um governo sob o comando desses homens (e de seus grupos políticos) poderia representar: um presente distópico, no qual as minorias e grupos dissidentes seriam reprimidos com ainda mais força do que já presenciamos atualmente, com formas de violência legitimadas e conduzidas pelo Estado. Este é um dos motivos pelos quais a série ganhou tanta visibilidade e produziu mais quatro temporadas. E agora, porque os seus símbolos e visualidades são retomadas no contexto do PL 1904.

Sobre o contexto estadunidense como um potencial distópico à época de lançamento da primeira temporada da série, Margaret Atwood endossa a opinião geral do público ao dizer, em 2018, para a ABC News: “Ainda não estamos vivendo em Gilead, mas há sintomas semelhantes aos de Gilead”. Em outra ocasião, para o mesmo canal, Atwood contribui para a percepção da íntima relação entre a ficção e o real ao afirmar: “Eu não sou uma profeta. Vamos nos livrar dessa ideia agora mesmo. Profecias são realmente sobre o agora. Na ficção científica é sempre sobre o agora”.

As roupas das aias de The Handmaid’s Tale foram e são símbolos de muitas manifestações feministas. Nos primeiros anos de lançamento da série observamos atos que acionaram essa simbologia na Polônia, Irlanda, Canadá, Croácia, Turquia e Reino Unido. Em junho de 2017, nos Estados Unidos, durante corte de financiamento do governo Trump para programas de planejamento familiar, um grupo de ativistas pelos direitos reprodutivos das mulheres associadas à “Liga das Mulheres Eleitoras” (League of Women Voters) tomaram as ruas da cidade de Albany (no estado de Nova York) com as roupas diretamente inspiradas na série.

Fotos mostram manifestantes pró aborto, com lenços verdes, e contra aborto, com lenços azuis, em manifestações em Buenos Aires, na Argentina. Foto: Natacha Pisarenko/ Jorge Saenz/ AP Photo

Em junho de 2018, na Argentina, durante votações legislativas sobre legalização do aborto no país, manifestantes de grupos que se posicionaram pró-legalização usaram vestidos longos e sobretudos vermelhos, toucas brancas sobre os cabelos e os olhos. No outro espectro, manifestantes que se posicionaram contrárias à legalização usaram a cor azul, utilizada na série pelas mulheres de elite que oprimem e legitimam o papel subalterno das aias.

Nesse mesmo contexto, em Buenos Aires, dezenas de mulheres também vestidas como aias realizaram um ato silencioso. Ao chegarem em frente ao parlamento, uma ativista leu em público uma carta escrita por Margaret Atwood (BBC NEWS, 2018). Em junho de 2024, no Brasil, protestos nas ruas e nas redes sociais contra o projeto que tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados e que, se aprovado, será altamente distópico, também vestiram e acionaram os elementos das roupas das aias.

Mulheres protestam contra o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que pautou a urgência do PL do Estupro. Foto: Anis – Instituto de Bioética (@anisbioetica), 2024. Juliana Duarte / Iasmim Baima.

De modo geral, as distopias são expectativas de um futuro repetidamente adiado da catástrofe humana. A partir da desilusão da ideia de progresso histórico, o curso do rio do tempo parece não ter outro destino, senão o da tragédia. Atwood nos apresenta uma perspectiva da tragédia feminina. Como seria o futuro catastrófico para mulheres? Essa imaginação de futuro nos leva de volta ao passado. O passado também é/foi catastrófico para as mulheres, e o seu retorno, sua atualização no futuro, é altamente distópico.

Na distopia do tempo presente brasileiro querem fazer mães as crianças. Querem punir meninas, mulheres e pessoas que gestam com penas de até 20 anos para aborto após 22 semanas de gestação, mesmo nos casos permitidos por lei (uma lei, lembremos, de 1940). Em nosso presente em crise, 320 crianças e adolescentes sofrem exploração sexual – mercantilização de seus corpos – a cada 24 horas. Apenas sete em cada 100 casos são denunciados e 75% das vítimas são meninas, em sua maioria negras (dados da Organização Mundial da Saúde – OMS). Segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, até o momento, o Brasil já registra 11.692 denúncias relacionadas à violência sexual contra crianças e adolescentes. Diante desses números, torna-se óbvio quem mais seria impactada pela aprovação do projeto.

De autoria coletiva, 33 deputados assinam o projeto de lei 1904/2024. Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Carla Zambelli (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) são alguns dos autores, além do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).

No futuro distópico de The Handmaid’s Tale, que se assemelha mais a um regresso ao passado, vemos o progresso da violência contra a mulher, que é melhor e mais sofisticado se partirmos de um olhar de desejo masculino patriarcal. A construção dessa imaginação do futuro é realizada a partir de experiências passadas de opressão que se atualizam enquanto presente (futuro-presente) na ficção, ou diagnóstico, de Atwood. A sua verossimilhança está atrelada a percepções do hoje que vêem como possível esse futuro distópico a partir, principalmente, da guinada conservadora e de extrema direita que serve enquanto contexto histórico nos anos de lançamento da adaptação do livro para a série e que continuam a reverberar neste ano.

Assim como um tribunal do futuro, Gilead, a sociedade fictícia de The Handmaid¸’s Tale, é o resultado da falta de ação no presente e onde aquele futuro se atualizou. Ao direcionar essa história a nós, principalmente quando, no final da primeira temporada, a protagonista June quebra a quarta parede (ela olha para a câmera) e se dirige a nós, como uma flecha que vem do futuro, nos aciona e nos questiona, em retroatividade e em provocação. Qual o nosso papel naqueles acontecimentos, naquela catástrofe, nas ações que não tomamos providência em nosso presente, ela pergunta.

A ação das manifestantes que citamos neste texto só pôde ocorrer porque aquela mensagem as tocou de tal forma ao ponto de não desejar que aquele futuro-presente da série se realize. Mas essa é apenas uma parcela das espectadoras. O convite de The Handmaid’s Tale é que nos projetemos naquela possibilidade futura, que nos é verossímil a partir dos elementos que experimentamos no nosso presente e que são constantemente acionados pelo passado de June – o passado da personagem nos é educativo, elucidativo –, nos exigindo olhar para nossas próprias condições, como espectadoras.

Enquanto homens brancos conservadores e radicais se perpetuarem no poder, The Handmaid’s Tale não será notícia velha de ontem tampouco de amanhã. Se manterá atual e presente, assim como persistem em se repetir as violências contra os corpos femininos e feminizados, e que não cessam de nos assombrar.

Por Aryanne Araújo
Aryanne Araújo é mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2022). Sua dissertação, The Handmaid’s Tale e a emergência de uma situação comunicacional, explora a série televisiva e sua relevância na contemporaneidade.

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