A impotência que o assédio me traz

Eu estava sentada aguardando ser chamada pelo médico quando senti um toque no final nas minhas costas, na região do cóccix. Era um toque não desejado, mas achei que fosse sem querer.

Como sou mulher, o primeiro pensamento é: a errada sou eu. Então cheguei para frente e fingi que não aconteceu. Afinal, não acreditei que, no meio da sala de espera lotada da Policlínica de Mariana, seria assediada. Foi quando um homem ao lado levantou a voz e disse: “Você tá passando a mão na menina?!” 

Eu gelei. A menina era eu e o homem estava, de fato, passando a mão em mim. Me levantei, acompanhada da minha namorada, e trocamos de lugar, mas todos ao redor tinham escutado o que tinha acontecido. Me senti violada e impotente. É um sentimento estranho, pois o homem que me alertou parecia mais querer arrumar confusão com o assediador do que garantir a segurança de alguma mulher. 

Uma agente de saúde foi até o assediador e o expulsou do local. Ele parecia fora de si, não sei se por conta de álcool ou de alguma substância ilícita, porém nada justifica suas mãos, sem consentimento, em outra pessoa. Foi um alívio. Ao trocar de assento, uma moça me disse que ele também tentou passar a mão nela, mas ela logo saiu e nada aconteceu. 

Ainda sem reação, me sento calada e mais para frente no banco, receosa de acontecer qualquer coisa. A impotência do assédio me deixa revoltada, mas também amedrontada. É como se a culpa fosse nossa, mas é como se não pudéssemos fazer nada para mudar isso. 

Pouco tempo depois, ele volta, com uma feição ainda mais confusa. Fiquei com medo daquilo se repetir — comigo ou outra mulher. Depois de algumas voltas, ele se senta ao lado de uma moça, que, já em alerta, se levanta e o deixa sozinho. A mulher em frente, com uma criança de colo e seu parceiro ao lado, ficou nitidamente insegura com a presença daquele homem e pediu para trocar de lugar. Nisso, a Guarda Municipal entra na recepção, à procura dele, e o retira do local. 

Cheguei ali para ser acolhida, mas fui desrespeitada em uma situação que nunca tinha imaginado. Senti raiva de mim mesma por não ter reagido, mas não consegui dizer uma palavra sequer. 

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